VIOLÊNCIA

Brasil e Mundo

Adolescente agredido em briga no DF morre após 16 dias internado

Rodrigo Castanheira, adolescente agredido em briga no DF morre após 16 dias internado© Família Rodrigo Castanheira

Caso teve repercussão nacional e agressor Pedro Turra está preso

Lucas Pordeus León – Repórter da Agência Brasil

O adolescente de 16 anos agredido pelo piloto de automobilismo Pedro Turra, de 19 anos, morreu neste sábado (7) após 16 dias internado em um hospital do Distrito Federal (DF). O agressor está preso na penitenciária da Papuda.

O caso ganhou repercussão nacional. Inicialmente, acreditava-se que a briga teria sido motivada pelo lançamento de um chiclete contra a vítima, mas o advogado do adolescente, Albert Halex, tem defendido em entrevistas à imprensa que a briga foi motivada por ciúmes envolvendo uma ex-namorada do amigo do agressor.

O Colégio Vitória Régia, no qual ele estudava, informou nas redes sociais que foi confirmada a morte cerebral do adolescente, que “deixa uma história, marcas de afeto e memórias que permanecerão vivas entre nós”.

O Grupo de Escoteiro Águas Claras, do Distrito Federal, também lamentou a partida do jovem.

“É com muita tristeza em nossos corações que comunicamos o falecimento do jovem Rodrigo, antigo membro do Grupo Escoteiro Águas Claras”, disse o grupo em suas redes sociais.

O agressor Pedro Turra chegou a ser preso em flagrante após a briga, mas foi liberado por pagar fiança de R$ 24 mil e passou a ser responder ao inquérito por lesão corporal em liberdade. Porém, voltou a ser preso no último dia 30 de janeiro.

A nova prisão foi autorizada após a polícia apresentar provas de que Turra estava envolvido em outros casos de agressão. Em um deles, ele teria usado um taser (arma de choque) contra uma adolescente de 17 anos para obrigá-la a ingerir bebida alcoólica durante uma festa.

Na última quinta-feira (5), o presidente do Superior Tribunal de Justiça (STJ), ministro Herman Benjamin, negou habeas corpus protocolado pela defesa de Pedro Turra. Com isso, ele deve continuar preso preventivamente no presídio da Papuda, em Brasília.

A vice-governador do DF, Celina Leão, também lamentou a morte do adolescente.

“A partida precoce de um jovem fere não apenas quem o amava, mas toda a sociedade”, comentou em uma rede social.

No pedido de habeas corpus, a defesa de Turra contestou a decretação da prisão pela primeira instância e afirmou que o piloto tem residência fixa, não tentou fugir e colaborou com as investigações.

Segundo os advogados, Turra foi preso a partir de vídeos publicados na internet, sem contraditório e validação judicial. Além disso, a defesa disse que o acusado teme por sua segurança diante da exposição midiática do caso.

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Brasil e Mundo

Mesmo com queda, Brasil é o país que mais mata trans e travestis

Manifesto realizado na praia de Copacabana lembra as vítimas da transfobia no Brasil. (Tomaz Silva/Agência Brasil)© Tomaz Silva/Agência Brasil

Número de assassinatos em 2025 chegou a 80

O Brasil segue em primeiro lugar no ranking de países que mais matam pessoas transexuais e travestis no mundo, com 80 assassinatos registrados em 2025. Os dados são da última edição do dossiê feito pela Associação Nacional de Travestis e Transexuais (Antra), lançado nesta segunda-feira, dia 26.

O resultado representa queda de cerca de 34% em relação ao ano anterior, que registrou 122 crimes desse tipo, porém não tira o país do topo do ranking, posição que ocupa há quase 18 anos.

Para a presidente da Antra, Bruna Benevides, os dados são resultado de um sistema inteiro que naturaliza a opressão contra pessoas trans.

“Não são mortes isoladas, revelam uma população exposta à violência extrema desde muito cedo, atravessada por exclusão social, racismo, abandono institucional e sofrimento psicológico contínuo.”

Estatísticas de violência
Os dados para o dossiê foram coletados a partir do monitoramento diário de notícias, denúncias diretas feitas às organizações trans e registros públicos. Para Benevides, essa situação já evidencia uma violência: se a sociedade civil não fizer esse trabalho, as mortes simplesmente não existem para o Estado.

Em 2025, Ceará e Minas Gerais foram os estados com o maior número de assassinatos, sendo oito cada. Ao todo, a violência segue concentrada na Região Nordeste que registrou 38 assassinatos, seguido pelo Sudeste com 17, o Centro-Oeste com 12, o Norte com sete e o Sul com seis.

Levantamento feito pela Antra, que contabilizou o período de 2017 a 2025, mostrou o estado de São Paulo como o mais letal, registrando 155 mortes. O estudo revelou que a maioria das vítimas é de travestis e mulheres trans, predominantemente jovens, com maior incidência na faixa etária entre 18 e 35 anos, sendo pessoas negras e pardas as principais atingidas.

O dossiê aponta ainda que, por mais que os assassinatos tenham diminuído, houve aumento no número de tentativas de homicídio, o que significa que a queda de 34% em relação a 2024 não se traduz de fato em regressão da violência.

Em análise no dossiê, a Antra diz que esse cenário é explicado por um conjunto de fatores como subnotificação, descrédito nas instituições de segurança e justiça, retração da cobertura da mídia e ausência de políticas públicas específicas para o enfrentamento da transfobia – crime de preconceito, discriminação e hostilidade direcionados a pessoas transgênero.

Políticas públicas
Além do diagnóstico, o dossiê apresenta diversas recomendações dirigidas ao poder público, ao sistema de justiça, à segurança pública e às instituições de direitos humanos, buscando diálogo e propostas concretas para romper com a lógica de impunidade e escassez que marca a realidade das pessoas trans no Brasil.

Bruna Benevides, também autora do dossiê, acredita que o relatório da Antra “constrange o Estado”, informa a sociedade e impede o silêncio.

“É preciso reconhecer que as políticas de proteção às mulheres precisam estar acessíveis e disponíveis para as mulheres trans por exemplo. Pensar sobre tornar acessível o que existe e implementar o que ainda não foi devidamente alcançado. Há muita produção, inclusive de dados, falta ação por parte de tomadores de decisão”, completou.

A nona edição do Dossiê: Assassinatos e Violências Contra Travestis e Transexuais Brasileiras será apresentada em cerimônia no auditório do Ministério dos Direitos Humanos, com entrega oficial a representantes do governo federal.

Mortes violentas
Os dados divulgados nesta segunda-feira pela Antra reforçam o cenário evidenciado no último dia 18 pelo Grupo Gay da Bahia (GGB), no Observatório de Mortes Violentas de LGBT+ no Brasil, atualizado anualmente.

Os dados, que incluem além da população trans, pessoas gays, lésbicas e bissexuais, entre outras, mostram que, em 2025, foram documentadas 257 mortes violentas, 204 homicídios, 20 suicídios, 17 latrocínios (roubo seguido de morte) e 16 casos de outras causas, como atropelamentos e afogamentos.

Em relação a 2024, quando foram documentados 291 casos, houve redução de 11,7%. Mas ainda significa uma morte a cada 34 horas no Brasil.

Também de acordo com o GGB, o Brasil permaneceu no ano passado como o país com maior número de homicídios e suicídios de pessoas LGBT+ em todo o mundo, seguido pelo México, com 40, e os Estados Unidos, com 10.

*Estagiária sob a supervisão de Mariana Tokarnia

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Valinhos

Polícia Civil investiga caso de adolescente atingida por disparo na virada de ano em Valinhos

Jovem de 15 anos estava acompanhando a queima de fogos no bairro Ponte Alta quando foi ferida na cabeça; marca de tiro foi encontrada na caminhonete da família

A celebração da virada de ano no bairro Ponte Alta, em Valinhos, foi marcada por um susto e um episódio de violência ainda sob investigação. Uma adolescente de 15 anos ficou ferida na cabeça após ser atingida por um disparo de arma de fogo na madrugada desta quinta-feira, dia 1º. O incidente ocorreu na Rua Adélino Venturine, enquanto a jovem assistia à queima de fogos ao lado de seu pai.

De acordo com o boletim de ocorrência registrado pela Polícia Civil, a vítima estava encostada no veículo da família, uma caminhonete, quando sentiu um impacto e percebeu que sua cabeça estava sangrando. Ao socorrer a filha, o pai notou uma marca de perfuração na lataria do automóvel, indicando a trajetória de um projétil.

Um ponto que chama a atenção nas investigações é que nem a vítima, nem o pai ou vizinhos próximos relataram ter ouvido o barulho característico de um tiro, possivelmente devido ao ruído causado pelos fogos de artifício no momento da virada.

Atendimento e Investigação

A adolescente foi socorrida imediatamente pelo pai e levada à Unidade de Pronto Atendimento (UPA) de Valinhos. Segundo o relatório médico, as lesões foram superficiais e o quadro de saúde da jovem permaneceu estável. Após passar por exames e procedimentos de limpeza, ela recebeu alta hospitalar ainda na manhã de quinta-feira.

A Guarda Civil Municipal foi acionada para dar apoio à ocorrência. A autoridade policial requisitou perícias técnicas ao Instituto de Criminalística (IC) para analisar o veículo e o local do incidente, além de um exame de corpo de delito no Instituto Médico Legal (IML) para a vítima. Fotos do automóvel e da área foram anexadas ao inquérito. O caso agora segue sob investigação da Delegacia de Polícia de Valinhos, que trabalha para identificar a origem do disparo e o responsável pelo crime.

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RMC

Feminicídio em Campinas termina com morte do autor na fuga

Segundo a Rota das Bandeiras, o homem correu até o km 143 da Rodovia Dom Pedro I após o crime. Testemunhas relataram que ele se atirou na frente de uma carreta. A morte foi constatada no local

Uma mulher foi morta a facadas dentro de casa em Campinas, na tarde desta quarta-feira, dia 10, em um caso que chocou moradores do Jardim São Marcos. Minutos após o crime, o agressor — companheiro da vítima — fugiu e morreu atropelado por uma carreta na Rodovia Dom Pedro I.

O caso, confirmado pela Polícia Militar e pela concessionária Rota das Bandeiras, reforça o alerta sobre o avanço da violência contra mulheres na região.

A PM informou que equipes foram acionadas por vizinhos e encontraram Andreza, 29 anos, já sem vida. Ela apresentava 15 golpes de faca e sinais de forte violência.

O casal tinha um filho de 1 ano, que estava na creche no momento do ataque.

Segundo a Rota das Bandeiras, o homem correu até o km 143 da Rodovia Dom Pedro I após o crime. Testemunhas relataram que ele se atirou na frente de uma carreta. A morte foi constatada no local.

Vizinhos afirmaram que o casal vivia um histórico de brigas. Andreza já teria sido agredida outras vezes.

Embora morassem juntos, ela havia pedido para que o companheiro saísse da residência. Segundo relatos, os pertences dele foram colocados para fora pouco antes da discussão que terminou em feminicídio.

A Polícia Civil confirmou que o caso está sendo registrado na 1ª Delegacia de Defesa da Mulher (DDM).

Um segundo boletim, referente à morte do agressor, deve ser registrado no 3º Distrito Policial como suicídio.

A investigação seguirá para esclarecer as circunstâncias e ouvir testemunhas.

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Brasil e Mundo

Em meio a protestos, SP registra mais dois casos de feminicídio

© Marcelo Camargo/Agência Brasil
Assassinatos ocorreram no último fim de semana em São Paulo
Agência Brasil

A cidade de São Paulo registrou a morte de duas mulheres dentro de suas casas, ambas vítimas de feminicídio, neste final de semana.

Uma mulher de 27 anos foi morta a golpes de faca em uma casa na rua Yayá, no bairro Canhema, na cidade de Diadema, região metropolitana de São Paulo. O crime aconteceu no último sábado, dia 6, por volta das 22h15.

Segundo nota da Polícia Civil, um vizinhou ouviu o pedido de socorro da vítima e chamou a Polícia Militar, que chegou quando a mulher e seu agressor já estavam mortos. Segundo a perícia feita na hora nos corpos, ficou constatado que o homem se matou após assassinar sua companheira. A polícia encontrou no local a faca usada no crime. O caso foi registrado como feminicídio e suicídio no 3º Distrito Policial de Diadema.

O outro caso aconteceu no domingo (7), no Jardim do Estádio, bairro de Santo André, também na região metropolitana de SP. Uma mulher de 38 anos foi morta a golpes de faca dentro de uma casa, por volta das 8h15.

A PM foi acionada para atender um caso de violência doméstica e, quando chegou ao endereço, encontrou a vítima caída no chão. Seu marido, de 38 anos, estava ao lado do corpo e confessou o crime. Ela chegou a ser levada com vida a um hospital próximo, mas não resistiu aos ferimentos. A mulher foi esfaqueada e a arma foi apreendida pelas autoridades. Este ataque foi registrado como feminicídio. O homem está preso.

Protestos

O domingo foi marcado por protestos de mulheres em algumas capitais do Brasil contra a onda crescente de feminicídios. O movimento foi convocado por várias organizações após casos recentes de ataques a mulheres na semana passada.

São Paulo (SP), 07/12/2015 - Ato nacional pelo fim da violência contra as mulheres, com o tema Basta de feminicídio. Queremos as mulheres vivas!, na Avenida Paulista. Foto: Rovena Rosa/Agência Brasil
Ato nacional pelo fim da violência contra as mulheres, com o tema Basta de feminicídio. Queremos as mulheres vivas!, na Avenida Paulista. Foto: Rovena Rosa/Agência Brasil

O mais emblemático foi a tentativa de feminicídio contra Tainara Souza Santos, que foi atropelada e arrastada embaixo de um carro por cerca de um quilômetro. Ela teve as duas pernas amputadas e está internada em estado grave. O criminoso, Douglas Ales da Silva, foi preso.

Nos protestos foram denunciados ataques contra a mulher e entidades cobraram do Estado a proteção e prevenção da violência de gênero.

No Distrito Federal, o evento contou com a participação de seis ministras, deputadas federais e também da primeira-dama Janja Lula da Silva.

São Paulo e Rio de Janeiro também reuniram centenas de pessoas na Avenida Paulista e na Praia de Copacabana, respectivamente.

Segundo uma pesquisa do Mapa Nacional da Violência de Gênero, 3,7 milhões de mulheres brasileiras viveram um ou mais episódios de violência doméstica nos últimos 12 meses.

Em 2024, 1.459 mulheres foram vítimas de feminicídios. Uma média de quatro mulheres foram assassinadas por dia em 2024. Em 2025, o Brasil já registrou mais de 1.180 feminicídios.

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Esportes

Academia de Futebol do Palmeiras sofre ataque com bombas

Clube promete punição aos responsáveis e disponibilizará imagens das câmeras de segurança à Polícia Civil

A Academia de Futebol do Palmeiras sofreu um ataque na madrugada de domingo, dia 10. Criminosos arremessaram bombas e rojões contra o centro de treinamento. Entretanto, o clube informou que, embora atletas e funcionários estivessem concentrados para o jogo contra o Ceará, ninguém se feriu.

O Palmeiras publicou uma nota oficial, afirmando que não se intimidará com os atos violentos. O clube também garantiu que vai agir para que os responsáveis sejam punidos. A diretoria já contatou a Polícia Civil e vai registrar um Boletim de Ocorrência. Assim, o Palmeiras disponibilizará todas as imagens das câmeras de monitoramento aos investigadores.

O clube considera inaceitável que o futebol se torne um “ambiente cada vez mais tóxico”. A diretoria lamenta a conivência de veículos de imprensa que, segundo o clube, dão publicidade a ameaças desde o último Derby. A Secretaria de Segurança Pública (SSP-SP) ainda não tem dados sobre o ocorrido.

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Alternativa

Personal Trainer leva 45 pontos no rosto após defender vítimas de assédio em bar

Em Águas de Lindoia (SP), o personal trainer Thiago Medeiros foi brutalmente agredido com um copo de vidro quebrado ao intervir em situação de importunação sexual; agressor ainda não foi identificado.

Um personal trainer de 32 anos precisou de 45 pontos no rosto após ser agredido com um copo de vidro quebrado em um bar em Águas de Lindoia, no interior de São Paulo. O ataque ocorreu porque o rapaz tentou defender mulheres que estavam sendo importunadas e assediadas por um homem no local.

O incidente aconteceu em 21 de junho, e a Polícia Civil está investigando o caso, mas, até esta terça-feira, 8 de julho, nenhum suspeito havia sido identificado ou preso.

Thiago Medeiros, que é morador da Barra da Tijuca, no Rio de Janeiro, estava em Águas de Lindoia acompanhando amigos que participaram de um encontro nacional de carros antigos. Após o evento, eles foram a um bar onde Thiago percebeu um homem assediando uma conhecida de 30 anos e tentando beijá-la. Quando uma amiga tentou defender a jovem e foi xingada, Thiago decidiu intervir. No momento da agressão, ele estava sozinho, pois seus amigos já haviam deixado o bar.

O agressor atingiu Thiago com um soco, quebrou um copo e o golpeou repetidamente no rosto. O personal trainer foi socorrido e levado de ambulância para o hospital municipal, onde recebeu a sutura com 45 pontos. No dia seguinte, ele sofreu uma convulsão e foi transferido para um hospital particular em Piracicaba. Em 22 de junho, Thiago retornou ao Rio de Janeiro e passou por exame de corpo de delito.

Em depoimento ao g1 da Rede Globo, Thiago Medeiros expressou sua esperança de que o agressor seja encontrado e punido.

“Quero uma punição, que ele pague por isso, por essa covardia. Foi tentativa de homicídio. Ele pegar o copo, bater a taça quebrada e enfiar mais de dez vezes no meu rosto, com chance de pegar uma carótida, pegar minha vista, eu desacordado após o soco na nuca. Foi tentativa de homicídio”, desabafou.

Thiago, que trabalha como autônomo, ainda não conseguiu retomar suas atividades profissionais. Imagens divulgadas nas redes sociais mostram seu rosto com múltiplos cortes e pontos cirúrgicos.

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Atos contra LGBTQIAPN+ cresceram 1 mil%, diz Atlas da Violência

© Fernando Frazão/Agência Brasil
De 2022 para 2023 casos contra homossexuais e bissexuais atingiram 35%
Isabela Vieira – Repórter da Agência Brasil
A violência contra pessoas LGBTQIAPN+ cresce continuamente no país e, em uma década, saltou 1.111% contra homossexuais e bissexuais, o mesmo patamar contra mulheres trans, 1.607% contra homens trans e 2.340% contra travestis. Os dados são do Atlas da Violência, referente ao período de 2014 a 2023 e foram divulgados na última semana, no Rio.

Somente de 2022 para 2023, os casos de violência contra homossexuais e bissexuais aumentaram 35% e contra transsexuais e travestis cresceram 43%, sendo maior entre homens transsexuais, mesmo que, numericamente, o volume de registros de mulheres transsexuais vítimas “permaneça em um patamar bastante superior”, mostra pesquisa.

Apesar de já altos, os dados podem estar aquém da realidade, impactados pela subnotificação, alertam os pesquisadores e, como se tratam de informações coletadas pelo sistema de saúde, eles pedem cautela na interpretação. Explicam que não é possível afirmar que os casos de violência se tratam de LGBTfobia, pois, essa informação não consta dos boletins médicos computados no estudo. Desde que a LGBTfobia foi equiparada ao racismo, em 2019, a legislação oferece um arcabouço sólido de proteção às vítimas desse grupo social.

De acordo com o Atlas da Violência, os números podem refletir três fatores: aumento real da vitimização, aumento de pessoas autoidentificadas e expansão dos centros de saúde que passaram a fazer parte do banco de dados da Saúde, embora o estudo reforce que os números indicam “aumento na prevalência de violências” sofrida pelo LGBTQIAPN+.

“Com o setor de saúde se tornando um espaço consideravelmente mais seguro para isso, na última década houve um crescimento de autoidentificados dissidentes sexuais e de gênero, fato que contribui para o aumento de registros contra essas pessoas, mesmo considerando a inespecificidade do dado no que tange à motivação da agressão”, diz o relatório.

O texto também chama atenção para mudanças culturais importantes em uma década e que deram maior visibilidade para as reivindicações LGBTQIAPN+, “possibilitando que as pessoas se identificassem, com menos medo de represálias quando questionadas”.

A violência vivida nas ruas por esta população também é uma realidade no ambiente virtual. Apesar de o Atlas da Violência não ter tratado do tema, os cartórios chamam atenção para o aumento do recurso da ata notarial como forma de registrar as ofensas na internet.

A ata é um recurso jurídico para comprovar na Justiça ataques LGBTfóbicos em redes sociais, e-mails e aplicativos de mensagens, por exemplo. Trata-se um documento lavrado em cartório, com fé pública, que registra o conteúdo apresentado pela vítima. Em alguns casos, pode ser o único meio de comprovar os atos criminosos cometidos na internet.

 

“Tem sido comum recebermos pessoas que chegam ao cartório emocionalmente abaladas, mas com muita clareza de que precisam registrar o que viveram. Muitas trazem links ou perfis com mensagens ofensivas. A partir disso, fazemos a coleta do conteúdo da internet em tempo real, com acesso direto às redes e mensagens, e redigimos a ata ali mesmo”, explicou, em nota, a tabeliã do 15º Ofício de Notas do Rio de Janeiro, Fernanda Leitão.

 

Apesar de ter um custo médio de R$ 534,34, com valor adicional de R$ 245,55 por folha extra, o procedimento é mais bem aceito pela Justiça do que um print de tela. Sem outros elementos, o print pode ser questionado nos tribunais. Ao ser validado por um cartório, porém, na ata, o ataque virtual é registrado com links, perfis e por meio de um escrevente passando a ter fé pública. O procedimento vale mesmo que o ator apague a postagem depois.

No caso de agressão física, a atuação do cartório é limitada, pois, o escrevente precisara ter presenciado o ato. Mesmo assim, existe a possibilidade de a vítima fazer uma Escritura Pública Declaratória, com base no relato da agressão. O documento tem menos força, pois, se trata de declaração, mas pode contribuir para reforçar outras evidências em um processo judicial.

De acordo com a tabeliã Fernanda, é importante que as pessoas LGBTQIAPN+ conheçam todos esses mecanismos para buscar responsabilização de agressores, de acordo com a nova lei. “Um print, um relato, uma ata, tudo pode fortalecer uma denúncia”, disse.

“Estamos falando de uma ponte entre a violência sofrida e a possibilidade real de justiça”, reforçou.

A ata notarial pode ser obtida de duas maneiras: presencialmente, em um cartório de notas, ou pela plataforma eletrônica e-Notariado.

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Brasil e Mundo

SP registrou, em 2024, uma ameaça contra a mulher a cada 5 minutos

Violência contra a mulher, criança e adolescente. Violência doméstica. Foto: Freepick© Freepick

Até novembro, foram 97.434 boletins de ocorrência

Camila Boehm – Repórter da Agência Brasil

Em 2024, uma ameaça contra a mulher foi registrada a cada 5 minutos no estado de São Paulo, segundo dados divulgados pela Secretaria da Segurança Pública (SSP). De janeiro a novembro, foram registrados 97.434 boletins de ocorrência de ameaça contra mulheres. Os dados de dezembro não foram divulgados até o momento.

No mesmo período de 2023, foram 97.920 registros de ameaça contra mulheres. Em todo o ano, o número chegou a 114.083 boletins.

Os números não só refletem a gravidade dos casos de violência contra a mulher, mas servem ainda como um alerta para todas as autoridades de segurança pública e do sistema de justiça, segundo análise da advogada Ianca Santos, especialista nos direitos das mulheres e integrante do Projeto Justiceiras.

“É lamentável que ainda tenhamos um número assustador como esse. Sabemos que existem muitas mulheres que não denunciam. Então, o número é ainda maior do que isso”, ressaltou a advogada, em entrevista à Agência Brasil.

Ianca Santos disse que é comprovado que o crime de ameaça é um dos mais praticados no âmbito da violência contra a mulher. “É importante mencionar que o crime de ameaça é uma forma que o agressor tem para tentar intimidar a mulher, para que ela se sinta com medo, seja a ameaça em relação aos filhos, seja em relação ao trabalho, e a questões financeiras, à família”.

“Eles usam dos pontos fracos da mulher para intimidá-la e minar a autoestima dessa mulher, deixando-a com medo”, acrescentou.

Por causa da intimidação, ainda há mulheres que sofrem caladas e não denunciam por medo das consequências e de que essas ameaças sejam concretizadas, alerta a advogada.

Conscientização

Ianca Santos avalia que, para solucionar e diminuir os crimes praticados contra as mulheres, não só o de ameaça, são necessárias ações de prevenção, conscientização e educação da população.

“Nós precisamos da contribuição dos órgãos públicos, das escolas, das empresas, que são formadores de opinião, para levar conhecimento a toda a sociedade”, defendeu.

A especialista citou como exemplo os dias de jogos de futebol, quando há um aumento significativo de violência contra as mulheres. Isso porque, em caso de insatisfação com o resultado do jogo, há homens que descontam em suas companheiras, com gritos, ameaças e, por vezes, agressões físicas.

“Nós precisamos acabar com essa visão estrutural, que ainda é predominante, de tratar a mulher como propriedade do homem e que ele pode fazer o que quiser com ela. Isso reflete nesses casos de ameaça, pois deixam as mulheres com medo, e a maioria paralisada, e não procuram ajuda. Portanto, o investimento em conhecimento, em educação é de suma importância”, disse a advogada.

Importância em denunciar

A advogada ressalta a importância de se denunciar casos de ameaças contra mulheres, inclusive como forma de interromper o ciclo de violência. “Nós sabemos que não é fácil denunciar uma pessoa muito próxima, como um marido, um namorado, mas é importante essa denúncia justamente para que isso não se escale para um crime mais grave, como o crime de feminicídio.”

Os casos de feminicídio tiveram aumento de 15,89%, de 2023 para 2024. Até novembro de 2024, foram 226 boletins de ocorrência do crime. No mesmo período de 2023, foram 195 registros. Ainda que os dados de dezembro não tenham sido divulgados, os feminicídios cometidos em 2024 já ultrapassaram o número total do ano imediatamente anterior, com 221 registros.

Para denunciar uma ameaça, a mulher deve ir a uma delegacia de polícia mais próxima para registrar um boletim de ocorrência. Ianca recomenda que as vítimas deem preferência a delegacias de defesa da mulher. “Ela precisa juntar as provas, indicar suas testemunhas, sejam testemunhas diretas ou indiretas”, orientou.

“Nos crimes de violência contra a mulher, que geralmente acontecem entre quatro paredes, não tem testemunha [direta]. Mas a testemunha indireta vale. Por exemplo, a mulher que foi agredida contou para uma amiga. Essa amiga é sim uma testemunha dos fatos”, explicou a advogada sobre as testemunhas indicadas quando o boletim de ocorrência é registrado.

Segundo Ianca, além de conscientizar para que as mulheres registrem as denúncias, é preciso que os casos sejam investigados a fim de evitar que crimes como ameaças se desdobrem em feminicídio.

“Ainda enfrentamos uma questão de contingente para averiguar essas demandas. É necessário um maior investimento nas delegacias de defesa da mulher para ter um atendimento mais célere e rápido, com maior deferimento de medidas protetivas, visando sempre a proteção dessa mulher”, defende.

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Saúde

CFM: a cada três horas, um médico é vítima de violência no Brasil

© Marcelo Leal/Unsplash

Registro de casos passou de 2,7 mil em 2013 para 3,9 mil em 2023

Dados do Conselho Federal de Medicina (CFM) indicam que, a cada três horas, um médico é vítima de violência enquanto trabalha em um estabelecimento de saúde público ou privado no Brasil.

O levantamento, divulgado nesta terça-feira (22), foi feito com base em boletins de ocorrência registrados em delegacias de polícia civil de todos os estados brasileiros entre 2013 e 2024.

Atualmente, o país registra média de nove casos de violência contra médicos em ambiente de trabalho por dia, de acordo com a entidade.

“Os dados mostram que a situação fica cada vez mais fora de controle, uma vez que o volume de queixas vem aumentando ano após ano. O recorde foi batido em 2023, mas os dados completos de 2024 somente serão conhecidos ano que vem”, avaliou o CFM em nota.

Ocorrências

Foram contabilizados, ao todo, 38 mil boletins de ocorrência em que médicos aparecem como vítimas de ameaça, injúria, desacato, lesão corporal e difamação dentro de unidades de saúde, hospitais, consultórios, clínicas, prontos-socorros e laboratórios. Segundo o levantamento, 47% desses registros são contra mulheres. Há, inclusive, registros de mortes suspeitas de médicos dentro de estabelecimentos de saúde.

Recorde

Em 2013, foram registrados pouco mais de 2,7 mil boletins de ocorrência desse tipo no país. Dez anos depois, em 2023, o número alcançou a marca de 3,9 mil casos, a maior da série histórica.

“Isso significa dizer que, em média, apenas no ano passado, foram contabilizados 11 boletins de ocorrência por dia no país por conta de situações de violência contra médicos no local onde atuam”, destacou o CFM.

Autores

Os números mostram ainda que 66% dos casos ocorrem em municípios do interior do Brasil. Os autores dos atos violentos são, em grande parte, pacientes, familiares de pessoas atendidas e desconhecidos. Há ainda casos minoritários de ameaça, injúria e até lesão corporal cometidos por colegas de trabalho, incluindo enfermeiros, técnicos, servidores e outros profissionais da saúde.

Estados

São Paulo, que responde atualmente como a unidade federativa com o maior número de registros médicos do país (26% do total), registrou quase a metade dos casos de violência em termos absolutos – 18 mil dos 38 mil contabilizados no Brasil. No estado, a média de idade dos médicos que sofrem algum tipo de violência é 42 anos e cerca de 45% dos registros foram contra médicas.

De acordo com os dados, 45% dos ataques a médicos em São Paulo (8,4 mil casos) ocorreram dentro de hospitais (pronto-socorro, unidade de terapia intensiva, centro cirúrgico e consultório). Em seguida, entre as maiores ocorrências, estão postos de saúde (18%), clínicas (17%) e consultório (9%). O restante ocorreu em laboratórios, casas de repousos e outros tipos de estabelecimentos.

Já o Paraná, que aparece como o quinto estado com a maior quantidade de médicos, figura em segundo lugar no ranking de violência contra profissionais em estabelecimentos de saúde. A unidade federativa responde por, pelo menos, 3,9 mil casos de ameaça, assédio, lesão corporal, vias de fato, injúria, calúnia, difamação, desacato e perturbação do trabalho contra médicos registrados entre 2013 e 2024. Curitiba concentra 12% dos registros.

Em terceiro lugar está Minas Gerais, segundo estado com o maior número de médicos do Brasil. A Polícia Civil do estado registrou 3.617 boletins de ocorrência envolvendo esse tipo de violência, sendo 22% deles na capital Belo Horizonte.

De acordo com o CFM, o Rio Grande do Norte não encaminhou as informações solicitadas a tempo e o Acre informou não ter os dados em sua base. Já Mato Grosso e Paraná informaram dados relativos à violência em hospitais e clínicas médicas contra qualquer profissão – a partir daí, o conselho elaborou uma estimativa mínima de 10% que envolveria apenas médicos.

Estimativa semelhante foi feita com o Rio de Janeiro, onde a maioria das ocorrências não tem a profissão da vítima; e com as informações prestadas pelo Rio Grande do Sul, que forneceu apenas dados de violência contra médicos sem definir o local onde ocorreu o fato.

Orientações

Em casos de ameaça, o CFM orienta que o médico:

  • registre ocorrência na delegacia mais próxima ou online;
  • informe, por escrito, às diretorias clínica e técnica da unidade hospitalar sobre o ocorrido;
  • apresente dados dos envolvidos e testemunhas;
  • encaminhe o paciente a outro colega, se não for caso de urgência e/ou emergência.

Se a ocorrência envolver agressão física, a entidade indica que o profissional:

  • compareça à delegacia mais próxima e registre boletim de ocorrência (haverá necessidade de exame do corpo de delito);
  • apresente dados dos envolvidos na agressão e de testemunhas;
  • comunique o fato imediatamente às diretorias clínica e técnica da unidade hospitalar para que seja providenciado outro médico para assumir suas atividades.
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