SAÚDE DO HOMEM

Saúde

Por que os homens também precisam cuidar do assoalho pélvico

Musculatura é responsável por sustentar a bexiga, a uretra, o reto e a próstata; sinais de alerta incluem escapes de urina e desconforto durante a ereção ou ejaculação

Por Fernanda Bassette, da Agência Einstein

Quando se fala em saúde do assoalho pélvico, a maioria das pessoas pensa que essa é uma preocupação apenas das mulheres. Durante décadas, os estudos se concentraram nos efeitos da gravidez, do parto e da menopausa sobre essa musculatura essencial, responsável por sustentar órgãos como a bexiga, o útero e o reto. No entanto, há um grupo cuja saúde pélvica ainda é negligenciada: os homens.

O assoalho pélvico é tão importante para a saúde masculina quanto para a feminina. Neles, essa musculatura sustenta a bexiga, a uretra, o reto e a próstata. Estima-se que cerca de um em cada cinco homens sofra com algum tipo de disfunção pélvica, número bem mais alto do que se imaginava até pouco tempo atrás.

O problema começa com a falta de informação sobre o tema. Enquanto as mulheres aprendem sobre o assoalho pélvico desde cedo, os homens geralmente só descobrem sua existência quando surgem sintomas e, muitas vezes, recebem diagnósticos imprecisos.

Entre os principais sinais de alerta de problemas nessa região estão escapes de urina, dificuldade para iniciar ou manter o jato urinário, dor na região perineal (entre o ânus e os testículos), desconforto durante a ereção ou ejaculação, constipação e sensação de evacuação incompleta. Muitos desses sintomas acabam sendo atribuídos a infecções, problemas prostáticos ou até questões emocionais.

“A musculatura do assoalho pélvico é essencial para a continência urinária e fecal, além de estar diretamente ligada à função erétil, ejaculatória e ao bom funcionamento intestinal. Quando está enfraquecida, tensa demais ou descoordenada, surgem sintomas que podem comprometer seriamente a qualidade de vida do homem”, explica o urologista Leonardo Borges, do Einstein Hospital Israelita.

Segundo ele, muitos homens convivem com esses sintomas por meses ou até anos sem buscar ajuda — seja por desconhecimento, vergonha ou por acharem que o problema não tem solução. “Isso leva a atrasos no diagnóstico e no início do tratamento”, diz Borges.

Não é problema só de idosos

Um estudo publicado no Journal of Women’s & Pelvic Health Physical Therapy evidencia a falta de informações sobre o tema. Feita com 479 homens, a pesquisa revela que 32% dos participantes com idades entre 25 e 34 anos relataram algum tipo de disfunção urinária. Esse achado contraria o senso comum de que problemas no assoalho pélvico são exclusivos de homens mais velhos.

O trabalho também identificou uma ligação entre disfunções pélvicas e fatores como tabagismo, saúde mental e nível socioeconômico. “Historicamente, os estudos focaram nas mulheres. Mas já está claro que homens também sofrem com disfunções no assoalho pélvico, inclusive os mais jovens, especialmente em contextos de estresse, sedentarismo ou no pós-operatório”, analisa o urologista do Einstein.

A maioria das disfunções pélvicas masculinas ocorre quando há um desequilíbrio muscular: ou os músculos estão frouxos demais (como no caso de homens que passaram por cirurgia de próstata) ou estão excessivamente tensionados, como resultado de estresse crônico, sedentarismo, má postura ou atividades de impacto.

“O estresse emocional pode gerar tensão muscular crônica na pelve, o que dificulta funções básicas como urinar, evacuar ou manter uma ereção. Já o sedentarismo, principalmente em quem passa longos períodos sentado, pode comprometer a circulação e favorecer a fraqueza ou encurtamento muscular. Por esse motivo, uma boa avaliação física e o estímulo a hábitos mais ativos devem ser encorajados nesses pacientes”, orienta o médico.

Atividades como o ciclismo, quando praticadas sem os devidos cuidados, também podem afetar a região pélvica ao gerar compressão constante nos nervos e músculos locais. “Não é preciso evitar o esporte, mas sim praticá-lo com orientação profissional”, frisa Leonardo Borges.

Diagnóstico e tratamento

O diagnóstico de uma disfunção no assoalho pélvico é principalmente clínico, feito com base na anamnese e no exame físico do paciente. Em alguns casos, exames complementares como estudo urodinâmico, ultrassonografia perineal ou ressonância magnética da pelve podem ser solicitados para confirmar a suspeita clínica.

Embora o urologista seja geralmente o primeiro profissional a ser procurado, o sucesso do tratamento muitas vezes depende do trabalho multiprofissional, feito com fisioterapeutas especializados. “A fisioterapia pélvica masculina é uma das principais aliadas nesse processo. O tratamento pode incluir exercícios para fortalecer músculos enfraquecidos e técnicas de relaxamento para estruturas excessivamente tensionadas. Quanto mais cedo for iniciado, melhores os resultados. O segredo está em identificar corretamente o tipo de disfunção, o que exige uma avaliação especializada”, observa o especialista.

Também é possível prevenir problemas com pequenas mudanças no estilo de vida. Entre elas, não reter a urina por longos períodos, tratar constipações crônicas, corrigir a postura, fazer pausas após ficar muito tempo sentado, manter um peso adequado e evitar esforços excessivos ao levantar peso. Sempre que possível, vale praticar exercícios pélvicos específicos, como os de Kegel, que basicamente consistem em contrair e relaxar voluntariamente os músculos do assoalho pélvico. Para isso, busque orientação profissional.

Novas diretrizes

A importância do tema vem ganhando reconhecimento. Em abril deste ano, a Associação Americana de Urologia publicou novas diretrizes recomendando que médicos fiquem atentos às disfunções pélvicas em homens e encaminhem os pacientes para fisioterapia quando necessário. O documento mostra uma mudança na forma como a saúde masculina vem sendo abordada.

Para Leonardo Borges, o alerta mais importante é que os homens deixem de sofrer em silêncio. “Quando um homem sente dor, perde urina ou tem disfunção sexual, isso afeta diretamente sua autoestima, sua identidade e sua qualidade de vida. O aumento de informações sobre o tema é muito importante para que ele entenda que cuidar da saúde do assoalho pélvico também faz parte do autocuidado. Ações nesse sentido devem ser encorajadas e vistas positivamente”, conclui o urologista.

Fonte: Agência Einstein

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Saúde

Por que homens jovens devem se preocupar com a varicocele

Também conhecida como varizes do escroto, a condição pode afetar a quantidade e qualidade dos espermatozoides, prejudicando a fertilidade masculina

 

Por Arthur Almeida, da Agência Einstein

Presente em cerca de 15% a 25% dos homens, segundo estimativa da Sociedade Brasileira de Urologia (SBU), a varicocele é uma ameaça silenciosa à saúde sexual. Ela começa a se manifestar ainda na puberdade, mas costuma ser diagnosticada somente na idade adulta, quando as complicações já são aparentes — e a infertilidade é a principal delas.

A condição caracteriza-se por um inchaço das veias testiculares em razão de um mau funcionamento das válvulas venosas, o que gera refluxo sanguíneo. É um mecanismo semelhante ao que leva à formação das varizes nas pernas, daí porque a varicocele também é popularmente chamada de varizes do escroto.

Estudos sugerem que o problema é responsável por até 40% dos casos de infertilidade primária (quando ainda não se tem um filho concebido naturalmente) e 80% dos quadros de infertilidade secundária (quando a pessoa já teve um filho concebido naturalmente). Isso torna a doença conhecida entre especialistas como a principal causa de infertilidade masculina tratável no país.

Com o envelhecimento, a qualidade seminal realmente tende a piorar. “Mas a varicocele aparece como um fator determinante que faz com que a curva dessa perda seja ainda mais acelerada na comparação com outros indivíduos”, explica Ricardo Bertolla, orientador da pós-graduação em Urologia da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) e professor da Wayne State University, nos Estados Unidos. “Os exames iniciais em adolescentes são importantes para evitar que eles cruzem a linha para a infertilidade de maneira precoce.”

Mau funcionamento

Para conseguirem dar o devido suporte à proteção dos espermatozoides, os testículos precisam permanecer a 2°C ou 3°C abaixo da temperatura do resto do organismo, cuja média varia de 36°C a 37°C. O mecanismo natural do corpo humano para possibilitar esse resfriamento se dá por meio das veias testiculares, que se enrolam na artéria testicular, reduzindo a temperatura do sangue arterial que carrega oxigênio e nutrientes aos testículos.

Na varicocele, as veias testiculares apresentam válvulas disfuncionais ou ausentes, o que leva a refluxo sanguíneo e dilatação, prejudicando o mecanismo de troca de temperatura. Como consequência, esses órgãos ficam mais quentes, comprometendo a produção adequada de espermatozoides.

“A temperatura aumentada acelera o metabolismo das células testiculares, e essa atividade excessiva as cansa e exige delas um maior consumo de oxigênio. Tal estresse faz com que o sistema se desequilibre e comece a falhar, levando a uma diminuição na qualidade de produção dos espermatozoides. É o famoso estresse oxidativo”, explica o urologista Daniel Zylbersztejn, do Einstein Hospital Israelita.

Em 85% dos casos, a doença afeta as veias do testículo esquerdo, já que esses canais são mais longos e se conectam à veia renal em um ângulo reto, o que aumenta a pressão sanguínea e dificulta sua passagem. Mas vale lembrar que os dois testículos têm canais de comunicação entre si, portanto, os sintomas apresentados de um lado podem se manifestar no outro também.

Ameaça silenciosa

Os sintomas da varicocele podem incluir dor no testículo (que piora ao ficar em pé por longos períodos ou durante atividade física), sensação de peso anormal na região escrotal, inchaço visível no escroto e diminuição do tamanho do testículo. Só que, no geral, muitos homens não relatam esses episódios, sendo totalmente assintomáticos.

A varicocele começa a ser detectável a partir do início da adolescência, que é quando ocorrem transformações hormonais, ganho de peso e musculatura, além de um aumento do fluxo sanguíneo para os testículos. A doença pode ser dividida em três graus principais, que variam conforme a severidade.

No grau 1, ela é detectável apenas durante a manobra de Valsalva, uma técnica para identificar veias dilatadas em que o indivíduo prende a respiração e faz força para expelir o ar enquanto o urologista apalpa o escroto acima do testículo. Já no grau 2, o inchaço pode ser verificado apenas pelo toque. O grau 3 é caracterizado por uma dilatação tão grande que é visível através da pele do escroto.

“Isso significa que nem todo mundo que tem varicocele consegue perceber a varicocele só de olhar o próprio corpo”, observa Bertolla. “Como o homem não tem o mesmo incentivo que as mulheres de visitar regularmente um especialista, muitas vezes, a varicocele passa despercebida durante grande parte da vida dos indivíduos, sendo identificada apenas durante a investigação clínica para a infertilidade, por exemplo.”

Um homem com varicocele pode apresentar diminuição de volume testicular e menor concentração e motilidade dos seus espermatozoides. A condição também pode causar alteração morfológica e fragmentação dessas células. Todos esses fatores contribuem para a redução da capacidade reprodutiva.

“A varicocele é uma doença tempo-dependente: quanto mais tempo ela está presente no organismo, maior é o risco de causar prejuízos nos testículos”, diz Zylbersztejn, que é coordenador da campanha #VemProUro, da Sociedade Brasileira de Urologia (SBU), cujo objetivo é incentivar os jovens a visitarem o consultório regularmente desde cedo. “Nem todo homem com varicocele vai ser infértil. Calculamos que essa condição reprodutiva pode atingir cerca de 20 a cada 100 indivíduos diagnosticados nos graus 2 ou 3.”

Impacto do diagnóstico precoce

A SBU alerta que a baixa frequência de jovens do sexo masculino em consultas é um dos principais entraves para a detecção precoce da varicocele. A campanha #VemProUro reforça que os cuidados especializados devem começar logo após a entrada na puberdade, por volta dos 13 anos.

Idealmente, o jovem deve passar por consultas anuais com urologista, clínico geral, médico de família, hebiatra ou pelo próprio pediatra. Exames como o ultrassom de bolsa testicular e o espermograma são recomendados para diagnosticar a varicocele, desde que com a anuência prévia dos responsáveis.

Quanto antes o diagnóstico, melhor. Em casos leves, a condição é benigna e não demanda intervenção cirúrgica. Em geral, é necessário apenas o acompanhamento regular com o urologista. Já casos avançados podem exigir cirurgia, que consiste na ligadura das veias testiculares.

Com isso, as veias “defeituosas” são cortadas e amarradas, de modo que outros mecanismos do corpo assumem o protagonismo do controle de temperatura. Isso inclui a produção de suor e a presença do cordão espermático, estrutura que afasta os testículos do resto do corpo quando está quente e os aproxima no frio, sempre buscando manter a temperatura mais adequada para o bom funcionamento testicular.

“Nosso objetivo com a campanha é mudar a concepção de que os homens não precisam de cuidados médicos. Desde muito cedo, as mulheres são incentivadas a irem ao ginecologista e cuidarem da própria saúde. Não à toa, os dados mostram que elas vivem, em média, quase sete anos a mais do que os homens”, afirma o urologista do Einstein. “Mais do que apenas avaliar o jovem em relação a doenças, acredito que cabe ao profissional da saúde orientá-lo quanto a outras questões do seu desenvolvimento, como a importância da prática de exercícios físicos, da alimentação saudável, do sexo protegido e de tantas outras situações que possam prejudicar a saúde geral do adolescente.”

Fonte: Agência Einstein

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Opnião

Um olhar revolucionário sobre o diagnóstico do Câncer de Próstata

Em meio à evolução dos tratamentos diagnósticos, sou testemunha, como médico radiologista, dos desafios enfrentados pelo sexo masculino em relação ao câncer de próstata. Esta doença, tão traiçoeira em seu desenvolvimento silencioso, demanda métodos de diagnóstico cada vez mais precisos.

Como segundo câncer mais comum entre os homens, sua detecção precoce é essencial para um prognóstico favorável. Para isso, é de extrema importância a consulta regular a um urologista a partir dos 50 anos ou mais cedo em caso de fatores de risco; como o histórico dessa doença na família . Essa prática, muitas vezes, inclui exames como o toque retal, PSA e ressonância magnética da próstata, fundamentais para detectar os primeiros sinais dessa condição.

Em caso de suspeita de neoplasia, o paciente deve ser submetido a uma biópsia, procedimento em que são retirados fragmentos do tecido prostático para detectar possível malignidade. Em relação a este último procedimento, a evolução tecnológica nos trouxe uma maneira revolucionária para realizá-lo: a Biópsia Transperineal de Próstata com Fusão de Imagens. Este método não apenas representa uma abordagem mais avançada, mas também proporciona um diagnóstico mais preciso e menos invasivo.

Consiste na remoção de fragmentos representativos de toda a superfície da próstata e da lesão suspeita, utilizando uma agulha de biópsia introduzida pela região do períneo do paciente e guiada por imagens obtidas por uma fusão de Ultrassonografia com Ressonância Magnética. O ultrassom fornece imagens que são combinadas em um software específico com as imagens da ressonância, gerando uma visualização em alta definição, em diversos planos e em tempo real, possibilitando a punção dirigida da área com extrema precisão.

Este é também um exemplo de como a tecnologia pode transformar a experiência do paciente, pois o procedimento não só é minimamente invasivo, mas também reduz significativamente os riscos de infecção quando comparado ao método tradicional, o transretal – que pode apresentar complicações infecciosas, pois a agulha da biópsia pode levar bactérias da região retal para a próstata e causar uma infecção conhecida como prostatite. Em minha experiência na realização da biópsia transperineal, pude testemunhar a rápida recuperação dos pacientes e a incidência quase nula de infecções.

Além de minimizar riscos, também maximiza a eficácia do diagnóstico. Ao alcançar áreas da próstata não acessíveis pela via transretal, essa técnica eleva a taxa de detecção tumoral e, consequentemente, a precisão diagnóstica. Não é surpresa que esta biópsia já seja considerada o novo padrão-ouro em muitas sociedades urológicas ao redor do mundo, e vem ganhando cada vez mais destaque no Brasil. A tendência é que se torne padrão também em nosso país, em médio e longo prazos, em razão dos benefícios trazidos ao paciente em relação ao método tradicional.

Em vista do bem-estar proporcionado, encorajo a discussão aberta entre médico e paciente sobre as opções de biópsia. Oferecer essa nova abordagem, quando indicada, é uma oportunidade valiosa para melhorar a precisão do diagnóstico e a experiência de quem precisa se submeter ao procedimento.
A evolução na detecção do câncer de próstata é um testemunho do compromisso contínuo da medicina em proporcionar métodos menos invasivos e mais precisos, eficazes e seguros. Vejo essa inovação como uma promessa de um futuro em que o diagnóstico precoce do câncer de próstata será não apenas acessível, mas também altamente eficiente.

Dr. João Vitor Bacarin é Médico Radiologista Intervencionista da Quanta Diagnóstico por Imagem. Possui Residência Médica em Radiologia e Diagnóstico por Imagem pelo Hospital de Clínicas da Universidade Federal do Paraná – UFPR e em Radiologia Intervencionista e Angiorradiologia pelo Hospital A.C Camargo Câncer Center. É membro da Sociedade Brasileira de Radiologia Intervencionista e Angioradiologia (SoBRICE).

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