O engenheiro Cristiano de Souza Borges e sua esposa, Adriana, planejaram a família de uma certa forma. Mas a vida, com seus desafios e surpresas, os levou por um caminho diferente, revelando um tipo de amor que eles não imaginavam. O casal, que sonhava em ter filhos, descobriu a infertilidade. Em vez de desistir, eles abraçaram a possibilidade da adoção. O processo, que inicialmente parecia complexo, culminou em uma decisão que mudou tudo: adotar seis irmãos. Hoje, Cristiano e Adriana são pais de Lucas, Ana Laura, Luís, Maria Valentina, Maria Eduarda e Cauê. A rotina, antes tranquila, se tornou uma alegre e caótica miniempresa, movida à base de dedicação e, acima de tudo, muito amor. Nesta entrevista exclusiva à Folha de Valinhos, Cristiano, que celebra seu primeiro Dia dos Pais com sua nova família, fala sobre os desafios, as alegrias e o significado da paternidade.
FOLHA DE VALINHOS A decisão de adotar surgiu de um sonho de ser pai. Poderia nos contar um pouco sobre o momento em que você e sua esposa decidiram seguir esse caminho e o que isso representou para vocês?
Cristiano Resumindo, nos casamos abertos à vida. Após dois anos sem a vinda de filhos, começamos a suspeitar de infertilidade e iniciamos investigações. Foi um médico de São Paulo, Dr. José Monteiro Jr., quem me diagnosticou com fibrose cística. Ambos concordamos em não seguir pelas vias da fertilização artificial e vivemos juntos o luto da infertilidade, além de lidar com esse diagnóstico. Sempre sonhei em ser pai e sempre amei as crianças e meus sobrinhos. Sentia essa vocação latente em mim e não entendia por que ela me era negada.
Quem trouxe a possibilidade da adoção foi minha esposa, que abraçou minha infertilidade e considerou também como sua. Eu nunca havia pensado em adotar e fui resistente no início, por causa de alguns preconceitos. Precisei pesquisar, digerir e, enfim, decidir entrar no processo.
FV O processo de adoção é, muitas vezes, longo e complexo. Quais foram os maiores desafios que vocês enfrentaram até chegar ao momento da visita ao abrigo?
Cristiano O processo burocrático correu bem e relativamente rápido, durando 9 meses, o que foi necessário para o amadurecimento da nossa decisão e também para conhecermos melhor o universo da adoção através dos grupos de apoio à adoção (GAAs). O maior desafio, porém, foi não termos uma data para a chegada dos filhos. A “gestação” do coração pode durar desde algumas horas até mais de uma década, e, quando chega, é sempre de repente. Muitas vezes, durante a nossa espera, sentimos angústia e uma sensação de que isso nunca aconteceria.
FV Quando vocês conheceram as seis crianças, a ideia inicial não era adotar todos os irmãos. O que mudou e qual foi o estalo que fez vocês decidirem não separar a família?
Cristiano Estávamos habilitados para até três crianças de até 7 anos. Como a Vara da Infância não encontrou pessoas habilitadas para adotarem os seis irmãos, a Justiça os separou em dois grupos. Um desses grupos estava dentro do nosso perfil, e por isso fomos contatados. Desde o primeiro contato, fomos informados de que as três crianças que estavam no nosso perfil tinham mais três irmãos. Nossa primeira reação foi dizer não a esses três, pois não nos sentíamos confortáveis em separá-los. Uma psicóloga nos ajudou a perceber que não seríamos nós que os separaríamos, mas que a própria justiça já tinha tomado essa decisão. Isso nos ajudou a tirar o peso de uma possível culpa, e pedimos para conhecer os seis irmãos. Ao conhecê-los, vimos que todos eram muito unidos. Contudo, a angústia voltou, e, após muita oração, decidimos, mesmo sem imaginar essa possibilidade, pedir à Justiça a adoção do grupo todo. Essa decisão nos trouxe paz, confirmando que era a vontade de Deus para nossas vidas.
FV Como foi a experiência de, de um dia para o outro, se tornarem pais de seis crianças, e como essa transição, de não ter filhos para formar uma família grande, transformou a rotina e a dinâmica da sua casa?
Cristiano A vida mudou absolutamente e de forma radical da noite para o dia. Vendi minha caminhonete para comprar um carro maior, saí de um apartamento que vivia arrumado para uma casa mais viva e dinâmica, ajustamos toda a nossa rotina de horários e trabalho, e emagrecemos bastante. Contamos com a ajuda de toda a família e amigos nessa preparação, e foi tudo muito intenso e divertido. Com a chegada das crianças, foi preciso muita disciplina para impor a rotina e essa nova dinâmica familiar. Graças a Deus, a Dri é muito organizada e as crianças são dóceis. Todos nós, os oito, queríamos muito isso, e isso foi fundamental para tudo funcionar desde o início.
FV O que a paternidade, especialmente de forma tão grandiosa, ensinou a você sobre o amor e a resiliência?
Cristiano Quando eu sonhava com a paternidade, mesmo ciente dos desafios, sempre vinha à minha cabeça as cenas de propagandas de margarina. A paternidade real me mostrou que o amor nos torna mais fortes do que imaginávamos. Aliás, o amor desabrochou e continua desabrochando exatamente nos meus pontos fracos, quando decido amar a todo momento. Lembro-me, ainda na fase de aproximação, da primeira vez que cheguei em casa sem eles e senti uma dor de saudade no peito, uma vontade de chorar. No final do dia, quando termina meu expediente, sou eu quem busca as crianças na escola, e me lembro de um antigo orientador meu (que tinha 11 filhos!) falando sobre o “terceiro tempo”. Antigamente, nesse horário, eu estava exausto. Hoje, ao ver meus filhos sorrindo em cada escola, sou invadido por uma energia que não sei explicar.
Chego em casa e faço tudo com eles e para eles. Depois que eles vão dormir, ainda passo algumas vezes pelos quartos para vê-los dormindo. Me emociono e agradeço a Deus por eles.
Também nesse processo, passei a conhecer melhor meu pai. Quantas lições escondidas tenho tirado das memórias com ele! Graças a Deus, tive uma boa referência de pai em casa e busco fazer o mesmo com meus filhos.
FV Quais são as principais alegrias e os desafios de ser pai de seis filhos, cada um com sua história e personalidade?
Cristiano Definitivamente, não há tédio em casa. Sempre tem alguma coisa acontecendo! Se são seis vezes mais trabalho, também são seis vezes mais demonstrações de carinho. O tempo que levei para ser chamado de pai já foi superado pelo tanto de vezes que ouço isso nesses poucos meses. Sempre há alguém por perto, e acho muito gostoso observar as diferenças de personalidade e incentivá-los a desenvolver suas melhores qualidades. Acompanhar esse desenvolvimento gradativo é muito gratificante. Buscamos criar momentos em família, como leituras ou pequenos saraus, que me enchem de alegria. Basta estarmos só nós para que já seja uma mini-festa. Também gosto muito dos nossos jantares diários, pois a mesa está sempre cheia.
O maior desafio é ser pai de primeira viagem com seis filhos em diferentes estágios. Apesar de terem chegado juntos, eles não formam um bloco de seis crianças, mas são tratados como seis filhos únicos. Sempre buscamos criar oportunidades de estar a sós com cada um deles, o que é um grande desafio. A logística e a parte financeira também não são simples. Tudo é pensado de forma macro, como uma mini-empresa, e precisa estar totalmente organizado para funcionar bem.
FV A adoção de seis irmãos demonstra um amor e um altruísmo que inspiram. Para você, qual é a virtude mais importante para construir uma família, independentemente de como ela é formada?
Cristiano Penso que seja a generosidade. O estilo de vida moderno, com seus celulares e seu consumismo, muitas vezes rouba essa virtude de nós. De repente, julgamos que merecemos isso ou aquilo, e não percebemos que a verdadeira felicidade mora na simplicidade e na generosidade. Nascemos para deixar rastro e para servir, e ficamos genuinamente felizes quando fazemos isso. Como pano de fundo, colocaria a resiliência. A vida em família deve ser tratada com seriedade, requer tempo, estratégias e dedicação. O improviso faz parte, mas não podemos só improvisar.
FV Este será o seu primeiro Dia dos Pais vivenciado com seus seis filhos. Qual é a emoção de celebrar essa data agora como pai?
Cristiano Eu nem sei bem dizer. Lembro-me dos dias passados, quando eu ainda era só filho e visitava meu pai. Eram dias agradáveis, mas que expunham uma ausência. No Dia dos Pais do ano passado, eu tinha acabado de conhecer deles, mas ainda não os tinha conhecido de verdade. Este ano, estou muito feliz por poder visitar meu pai junto com meus filhos. Essa semana, sem querer, vi meu filho mais velho preparando um cartão. Meu coração acelerou. Só de pensar nisso, meus olhos lacrimejam.
FV Se você pudesse dar um conselho para outros casais que consideram a adoção, qual seria?
Cristiano A paternidade pela via da adoção requer uma vocação específica. Isso significa que nem todos que não podem ter filhos precisam recorrer à adoção, e que muitos que têm filhos biológicos também deveriam considerá-la. O processo jurídico não é tão complicado quanto se pensa; há todo um suporte por trás e é gratuito. Recomendo que entrem em contato com a Vara da Infância para obter informações e façam o curso preparatório oferecido por eles. Esse caminho ajuda a discernir, e não é necessário ter certeza antes de iniciar o processo. Hoje, há muitas crianças em abrigos, especialmente as mais velhas. Quem sabe uma delas não possa ser o(a) seu(sua) filho(a)?
FV O que significa para você, hoje, a palavra ‘pai’?
Cristiano Vocação. É um sacrifício de amor que preenche e completa. Só pude entender o quanto meus pais se preocuparam, se dedicaram e torceram por mim ao ter meus próprios filhos. É algo inexplicável.