CARDIOLOGIA

Saúde

Restringir açúcar no início da vida reduz risco cardiovascular no futuro

Estudo mostra que menor exposição ao ingrediente nos primeiros dois anos de vida pode reduzir em até 31% o risco de doenças cardiovasculares na idade adulta

Por Gabriela Cupani, da Agência Einstein

A restrição do consumo de açúcar nos primeiros mil dias de vida pode proteger contra vários problemas cardiovasculares, como infarto, insuficiência cardíaca e acidente vascular cerebral (AVC), além de atrasar o aparecimento dessas doenças. Os dados são de um estudo publicado recentemente no British Journal of Medicine.

Já se sabe que o período que vai da concepção até por volta dos 2 anos de idade (que soma os primeiros mil dias de vida) é uma janela capaz de modelar o risco cardiometabólico futuro. Para avaliar o impacto do açúcar nessa fase, os autores se basearam em uma política de racionamento do ingrediente doce vigente no Reino Unido entre 1942 e 1953, como parte de um programa para prevenir a escassez de alimentos durante e logo após a Segunda Guerra Mundial (1939-1945).

Para isso, selecionaram 63.433 participantes do levantamento britânico UK Biobank, nascidos entre outubro de 1951 e março de 1956. Eles foram separados em dois grupos, a fim de comparar os indivíduos expostos ao racionamento ainda no útero e aqueles nascidos após o fim da política.

A análise revelou que, quanto maior a duração da restrição de açúcar, maior a proteção cardiovascular. Para se ter uma ideia, aqueles menos expostos ao ingrediente tiveram uma queda de 25% no risco de infarto e de 31% na chance de um AVC na idade adulta. Além disso, desenvolveram doenças cardiovasculares mais tardiamente, cerca de dois anos depois que os demais.

No entanto, o trabalho tem algumas limitações metodológicas. Por ser um estudo observacional, baseado em dados históricos, não se pode afirmar que existe uma relação de causa e efeito entre o consumo de açúcar e essas doenças. “O fim do racionamento também coincide com uma maior disponibilidade de outros alimentos, como gorduras, e mudanças no estilo de vida da população, que são fatores que podem confundir os resultados”, avalia a cardiologista Juliana Soares, do Einstein Hospital Israelita.

Ainda assim, os achados sugerem que a restrição precoce de açúcar contribui para a formação de um metabolismo mais saudável. “Apesar das ressalvas, [o estudo] aponta de forma clara que a recomendação de reduzir açúcar para gestantes e crianças pequenas pode ser benéfica para a saúde em geral, favorecendo uma programação metabólica que reduz risco de doenças como diabetes e hipertensão”, observa Soares. “A mensagem central é que os primeiros mil dias são um período muito importante, uma oportunidade de prevenir doenças cardiovasculares na vida adulta.

A Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP) não recomenda a oferta de açúcar e doces para crianças menores de 2 anos. A orientação faz parte das diretrizes de alimentação saudável na infância e se baseia em evidências de que o consumo precoce do ingrediente está associado a maior risco de obesidade, cáries, alterações metabólicas e formação de preferências alimentares voltadas para produtos ultraprocessados. Mesmo após essa idade, a ingestão deve ser eventual e moderada.

Fonte: Agência Einstein

COMPARTILHE NAS REDES

Saúde

Correr maratona não prejudica o coração a longo prazo, aponta estudo

Pesquisa com corredores amadores mostra que alterações cardíacas e aumento da troponina após a prova são transitórios e não evoluem para disfunção permanente

Por Fernanda Bassette, da Agência Einstein

Correr maratonas não prejudica o coração a longo prazo. Essa é a principal conclusão de um estudo que acompanhou 152 corredores amadores durante dez anos e traz novas evidências para uma discussão que há décadas acompanha as provas de longa distância: até que ponto levar o corpo ao limite repetidamente poderia afetar o músculo cardíaco?

Publicada em janeiro no periódico JAMA Cardiology, a pesquisa aponta que, embora haja alterações transitórias no coração logo após a prova, incluindo aumento da troponina (marcador usado para detectar lesão cardíaca), não houve sinais de dano permanente na função cardíaca ao longo do tempo.

A preocupação com o coração não surgiu por acaso. Durante muito tempo, exames de sangue realizados logo após as maratonas mostravam que muitos corredores saudáveis apresentavam níveis elevados de troponina, proteína liberada na circulação quando há lesão nas células do coração. Como esse marcador é amplamente usado para diagnosticar infarto, esse aumento gerava apreensão entre médicos e atletas. Além disso, exames de imagem indicavam que o ventrículo direito, responsável por bombear sangue para os pulmões, podia apresentar dilatação e redução temporária da capacidade de contração logo após provas longas.

No novo estudo — conduzido por pesquisadores da Suíça, da Alemanha e dos Estados Unidos —, corredores foram avaliados antes da maratona, imediatamente após a prova, nos dias seguintes e novamente dez anos depois. Depois da corrida, os pesquisadores observaram uma queda temporária na capacidade de bombeamento do ventrículo direito. Em até três dias, porém, os parâmetros voltaram ao normal e mantiveram-se estáveis no acompanhamento de dez anos, dentro dos limites considerados normais.

Segundo a cardiologista e médica do esporte Luciana Janot, do Einstein Hospital Israelita, a preocupação não é com a corrida em si, e sim com quem está correndo uma maratona e em quais condições físicas. “São horas de esforço contínuo, com aumento de adrenalina, alterações de eletrólitos, desidratação e grande sobrecarga do sistema cardiovascular”, analisa. “O ventrículo direito, em especial, pode sofrer uma queda transitória de função porque passa a trabalhar contra uma resistência maior na circulação pulmonar.”

Essa câmara do coração foi “projetada” para operar sob pressões mais baixas. “Ele tem parede mais fina e trabalha em um sistema de menor pressão”, explica Janot. Durante atividades de endurance, aquelas que exigem esforço contínuo e prolongado, junto ao grande volume de sangue que chega à câmara direita do coração, há aumento na pressão na artéria, elevando o esforço necessário para ejetar o sangue. Isso pode levar a uma dilatação temporária e redução momentânea da eficiência. “Mas, na maioria dos corredores saudáveis, esse quadro é reversível”, afirma a médica.

Alteração esperada

Os pesquisadores não encontraram associação entre o aumento da troponina após a maratona e piora da função cardíaca no período de 10 anos. “Quando há dano ao coração, ela é liberada no sangue. Por isso, em ambiente hospitalar, níveis elevados levantam a suspeita de infarto”, relata a cardiologista. No contexto do exercício, essa alteração é esperada. “Após provas longas, é relativamente comum observar elevação da troponina mesmo em atletas sem doença aparente. Ela sobe, atinge um pico em poucas horas e tende a cair em cerca de 24 horas.”

Sem contar que a troponina sozinha não significa diagnóstico de infarto. “É preciso avaliar sintomas como dor no peito opressiva, falta de ar desproporcional, alterações no eletrocardiograma e a evolução da curva do marcador, o contexto clínico é fundamental”, explica.

Acompanhamento médico

Apesar disso, a corrida não é totalmente isenta de riscos e é preciso um acompanhamento médico especializado ao decidir começar no esporte. Em corredores com mais de 35 anos, a principal causa de eventos graves durante provas costuma ser a doença coronariana não diagnosticada. Em jovens, cardiomiopatias e doenças elétricas hereditárias podem aumentar o risco de arritmias potencialmente fatais. “O risco maior está em quem tem uma doença de base não diagnosticada ou não se preparou adequadamente para essa exigência”, alerta a médica do esporte.

Sinais como dor no peito que não melhora ao reduzir o ritmo, falta de ar desproporcional, desmaio, palpitações intensas ou queda abrupta de desempenho nunca devem ser ignorados. “Atletas estão acostumados a desconforto e fadiga, mas precisam estar atentos a sintomas fora do padrão habitual”, orienta Luciana Janot.

Para quem corre por lazer, a recomendação é fazer avaliação clínica regular e prestar atenção aos sinais do corpo. “História clínica, exame físico e eletrocardiograma são o mínimo. Entre os 35 e 59 anos, especialmente em pessoas com fatores de risco como hipertensão, diabetes ou colesterol alto, é indicado teste funcional, como o teste cardiopulmonar. Acima dos 60 anos, ele é recomendado independentemente do nível de treino”, orienta a especialista do Einstein.

Fonte: Agência Einstein

COMPARTILHE NAS REDES

Saúde

Por que a “barriga de chope” pode ser tão perigosa para a saúde do coração

Pesquisa indica que excesso de gordura abdominal pode espessar o músculo cardíaco mesmo em pessoas sem doença cardiovascular — e o risco é maior para homens

Por Fernanda Bassette, da Agência Einstein

A distribuição da gordura corporal pode ser mais determinante para a saúde do coração do que o peso indicado pela balança, especialmente entre homens. Essa é a principal conclusão de um estudo apresentado no final de 2025, durante o congresso da Sociedade Radiológica da América do Norte (RSNA), nos Estados Unidos. O trabalho analisou o impacto do acúmulo de gordura abdominal, popularmente conhecida aqui no Brasil como “barriga de chope”, sobre a estrutura cardíaca de adultos sem diagnóstico prévio de doença cardiovascular.

A pesquisa avaliou mais de 2.200 homens e mulheres com idades entre 46 e 78 anos, que foram submetidos a exames detalhados de ressonância magnética do coração. Os pesquisadores compararam duas medidas usadas na prática clínica: o índice de massa corporal (IMC), que reflete o peso total, e a relação cintura-quadril, que indica a concentração de gordura na região abdominal. Eles observaram que esse acúmulo esteve associado a alterações cardíacas consideradas mais preocupantes do que aquelas relacionadas apenas ao excesso de peso global.

A obesidade abdominal merece atenção especial porque está diretamente ligada ao acúmulo de gordura visceral, aquela que se deposita profundamente no abdômen, ao redor de órgãos como o fígado. “Diferentemente da gordura subcutânea, que fica logo abaixo da pele e conseguimos apertar com os dedos, a gordura visceral é metabolicamente ativa e libera substâncias conhecidas como adipocinas ou citocinas inflamatórias na circulação”, explica a cardiologista Juliana Soares, do Einstein Hospital Israelita. Esse processo cria um estado de inflamação crônica de baixo grau e favorece manifestações como resistência à insulina, alterações no colesterol e aumento da pressão arterial, fatores que sobrecarregam o coração ao longo do tempo.

No estudo, os resultados dos exames de imagem mostraram um remodelamento do músculo cardíaco à medida que a relação cintura-quadril aumentava. Significa que havia um espessamento do músculo cardíaco, especialmente no ventrículo esquerdo, acompanhado de uma redução do espaço interno das cavidades. Vale lembrar que o coração funciona como uma bexiga elástica, que precisa de espaço para se encher de sangue e de flexibilidade para esvaziar a cada batida.

“Com a obesidade e o estado inflamatório crônico, o coração passa a trabalhar contra uma pressão maior. Como qualquer músculo submetido a esforço contínuo, suas paredes se tornam mais espessas ao longo do tempo. O problema é que esse espessamento reduz o espaço interno das cavidades e deixa o músculo mais rígido, fazendo com que o coração acomode menos sangue a cada batimento”, detalha a cardiologista.

No início, o órgão tenta compensar batendo mais rápido. Mas, com o passar do tempo, essa sobrecarga compromete sua capacidade de relaxamento. O resultado pode ser um tipo de insuficiência cardíaca em que o coração ainda consegue contrair, mas não se enche adequadamente, prejudicando a circulação de oxigênio e nutrientes pelo corpo. Com isso, perde eficiência de forma gradual, mesmo antes do aparecimento de sintomas.

No estudo, essas alterações cardíacas foram identificadas em pessoas aparentemente saudáveis, sem histórico de doença cardiovascular. “Devido a essa característica silenciosa, as medidas preventivas, baseadas em mudanças do estilo de vida, devem ser adotadas precocemente, antes que a lesão cardíaca se torne irreversível”, alerta a médica.

Quando o peso total do paciente foi avaliado isoladamente pelo IMC, o padrão observado diferiu. Indivíduos com IMC elevado, mas sem grande concentração de gordura abdominal, apresentaram aumento do tamanho das câmaras cardíacas, sem o mesmo espessamento da musculatura. Isso ajuda a explicar por que duas pessoas com o mesmo peso ou até com IMC semelhante podem ter riscos cardiovasculares diferentes. “O IMC não diferencia massa muscular de gordura nem mostra onde essa gordura está localizada”, observa Juliana Soares. “Já a relação cintura-quadril direciona o olhar para a gordura central, que é a mais associada ao remodelamento cardíaco deletério.”

Diferenças entre homens e mulheres

Outro achado é a diferença do risco cardíaco entre homens e mulheres. Embora ambos apresentem alterações associadas à obesidade abdominal, os efeitos são mais intensos nos participantes do sexo masculino. Uma das explicações está no padrão de distribuição de gordura, já que homens tendem a acumular gordura do tipo androide, concentrada no abdômen, o que favorece maior proporção de gordura visceral. Já as mulheres, especialmente antes da menopausa, costumam apresentar um padrão ginoide, com maior depósito de gordura subcutânea em quadris e coxas, metabolicamente menos agressiva.

Além disso, fatores hormonais parecem exercer papel importante. O estrogênio tem efeito cardioprotetor e influencia o metabolismo da gordura, direcionando seu armazenamento para regiões menos nocivas. Com a queda desse hormônio após a menopausa, essa proteção diminui, aproximando o risco feminino ao masculino. Diferenças na resposta inflamatória também contribuem: homens tendem a apresentar níveis mais elevados de inflamação sistêmica associada à gordura visceral, o que pode acelerar as alterações estruturais do coração.

Na prática, os resultados reforçam a necessidade de ampliar como o risco cardiovascular é avaliado. Medidas simples, como a circunferência da cintura e a relação cintura-quadril, podem ser obtidas com uma fita métrica e fornecem informações relevantes sobre o risco. De acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS), valores de circunferência da cintura acima de 90 cm para homens e 85 cm para mulheres indicam maior risco cardiovascular.

Também é essencial que o processo de emagrecimento aconteça a partir de hábitos saudáveis, que sejam mantidos a longo prazo. “Atividade física regular e alimentação equilibrada são fundamentais, especialmente porque a gordura visceral responde melhor ao exercício e pode ser reduzida mesmo sem grande perda de peso”, avisa a cardiologista do Einstein.

Fonte: Agência Einstein

COMPARTILHE NAS REDES

Saúde

Riscos cardíacos nas férias: o que muda quando a rotina relaxa

Cardiologista explica como cuidar da saúde cardiovascular nos períodos de descanso e aponta alguns dos principais erros que podem afetar o coração

Com 400 mil mortes por ano no Brasil, as doenças cardiovasculares continuam entre os principais desafios de saúde pública, de acordo com a Sociedade Brasileira de Cardiologia (SBC). Nesse contexto, o período de férias merece atenção, já que, embora traga momentos de lazer, mudanças de rotina e hábitos mais flexíveis podem aumentar o risco cardíaco, especialmente entre pessoas com hipertensão, colesterol alto, diabetes ou histórico familiar. O relaxamento excessivo, seja da alimentação ou do uso de medicação, pode favorecer desequilíbrios que muitas vezes passam despercebidos.

A professora de Cardiologia da Afya Brasília, Dra. Rosangeles Konrad, explica que, mudanças bruscas de rotina, como horários irregulares, alimentação diferente, noites mal dormidas, calor intenso e até exercícios fora do habitual exigem maior adaptação do sistema cardiovascular.  “O corpo trabalha mais para se adaptar a essa nova dinâmica, e nem sempre esse esforço é percebido”, explica a médica.

Para quem já tem alguma doença cardíaca ou fator de risco, essas adaptações ficam ainda mais difíceis. O excesso de álcool, viagens longas, desidratação e o abandono de medicamentos, por exemplo, podem sobrecarregar o organismo e aumentar as chances de descompensações. Por isso, a especialista reforça que a combinação entre mudanças de rotina e comportamentos despretensiosos pode, sim, aumentar o risco cardiovascular nas férias.

Nesse sentido, a médica lista 6 erros comuns que impactam diretamente a saúde cardíaca:

  1. Abandonar a rotina de medicamentos

Um dos erros mais comuns é “dar férias” também aos remédios. Segundo a professora, muita gente esquece ou reduz as doses por conta da mudança na rotina. O que pode descompensar quadros de pressão alta e arritmias, elevando o risco de eventos cardíacos. Ela reforça que medicações como anti-hipertensivos, estatinas, anticoagulantes e antidiabéticos não podem ser interrompidos.

  1. Exagerar no álcool e nos alimentos gordurosos

A cardiologista alerta que, nas confraternizações, os exageros no prato e no copo podem trazer riscos importantes ao coração: o consumo excessivo de gorduras, sal e álcool eleva a pressão arterial, aumenta a liberação de catecolaminas, acelerando os batimentos, favorecendo arritmias como a fibrilação atrial, e ainda pode causar retenção de líquidos, piorar o refluxo e descompensar quem tem insuficiência cardíaca. Ela ressalta que o problema não é consumir, e sim consumir sem limite. “Não é preciso cortar tudo, mas manter o equilíbrio faz toda a diferença para proteger a saúde cardiovascular”.

  1. Ignorar sinais de cansaço durante atividades físicas

Dra. Rosangela Konradexplica que, nas férias, muitas pessoas tentam “compensar” o sedentarismo com caminhadas longas, trilhas ou esportes aquáticos, mas esse esforço súbito, ainda mais sob calor intenso, acelera demais o coração, aumenta a pressão e eleva a demanda de oxigênio pelo músculo cardíaco. Isso pode desencadear falta de ar, arritmias e até dor no peito, especialmente em quem tem doença coronariana, mesmo sem diagnóstico. Por isso, ela reforça que pausas, hidratação e respeito ao próprio ritmo são essenciais para evitar riscos.

  1. Desidratação por clima quente e excesso de sol

A especialista da Afya alerta que o calor do verão, somado ao suor, baixo consumo de água e ao álcool, favorece a perda de líquidos e minerais, reduzindo o volume de sangue em circulação. Esse desequilíbrio aumenta a frequência cardíaca, desestabiliza a pressão arterial e pode causar tontura, mal-estar e palpitações, e, em casos mais graves, até síncope ou piora de doenças cardiovasculares já existentes. Por isso, ela reforça que hidratar-se regularmente é tão essencial quanto usar protetor solar.

  1. Dormir mal

Dormir pouco ou em horários irregulares é comum nas férias, mas esse hábito desequilibra o organismo, eleva os níveis de estresse e impacta diretamente o sistema cardiovascular. O sono inadequado aumenta o cortisol e a adrenalina, desorganiza o controle da pressão arterial e reduz a capacidade do corpo de lidar com esforços,  um risco ainda maior para quem tem hipertensão ou arritmias. Dessa forma, mesmo fora da rotina, manter uma boa higiene do sono é fundamental para proteger o coração.

  1. Estresse e nervosismo durante o deslocamento

Pouco se fala sobre isso, mas situações comuns das férias, aeroportos lotados, atrasos, longas viagens de carro, noites mal dormidas na véspera e toda a organização de família e malas,  ativam o sistema nervoso simpático, responsável pelas respostas de “alerta”. Como consequência, a pressão arterial sobe, a frequência cardíaca aumenta e o corpo fica mais reativo tanto emocional quanto fisicamente.

COMPARTILHE NAS REDES

Saúde

Colesterol tem papel decisivo na saúde do cérebro, apontam estudos

Pesquisas recentes revelam que essa gordura é essencial para o bom funcionamento do cérebro, mas o excesso pode acelerar o declínio cognitivo e aumentar o risco de Alzheimer

Por Bruno Pereira, da Agência Einstein

Você certamente já ouviu falar que existe o colesterol considerado bom (HDL) e o ruim (não HDL ou LDL). Mas sabia que um dos lugares do corpo onde essa dicotomia fica mais evidente é no cérebro? Estudos recentes revelam o papel do colesterol tanto para manter a saúde do órgão como para acelerar seu declínio. E a composição da gordura tem tudo a ver com esses efeitos diferentes.

Durante muito tempo, o papel do colesterol no cérebro foi visto apenas como vilão, especialmente por sua associação com acidentes vasculares no órgão. No entanto, ao longo da última década, estudos mostraram que o cérebro depende dele para funcionar bem. O órgão é composto por cerca de 60% de gordura e precisa de lipídios para manter a estrutura das células nervosas e a transmissão de sinais elétricos. Isso, porém, não quer dizer qualquer gordura.

“É uma divisão complexa e depende da qualidade desse colesterol”, explica o neurologista Marco Túlio Pedatella, coordenador de Neurologia do Einstein Hospital Israelita em Goiânia. “Não é só pensar em níveis gerais, até a proporção de proteínas associadas ao colesterol HDL tem impactos nos efeitos que ele trará ao cérebro.”

O equilíbrio, portanto, é delicado. Se por um lado as gorduras boas são essenciais para a formação e manutenção das funções dos neurônios, de outro ponto de vista, o excesso de lipídios, especialmente dos tipos LDL que se acumulam em forma de gotículas no órgão, está relacionado à inflamação e ao declínio cognitivo.

Quando o colesterol protege ou prejudica

Vários estudos têm sido conduzidos para entender os impactos desse papel distinto do colesterol no cérebro. Um deles, feito por pesquisadores da Universidade do Texas, nos Estados Unidos, e publicado no Journal of Clinical Medicine em outubro de 2024, revelou que o HDL pode até ter um efeito neuroprotetor.

Exames de imagem feitos em 1.800 adultos mostram que aqueles com níveis mais altos de HDL tinham, em média, maior volume de matéria cinzenta no cérebro, o que pode ser associado a uma melhor preservação da cognição com o envelhecimento. Essa associação benéfica se manteve até em pacientes que tinham o gene ApoE4, ligado ao Alzheimer.

Outra pesquisa, divulgada na revista Immunity em julho de 2025, se dedicou ao colesterol “ruim”, o LDL. A pesquisa revelou que ter níveis altos desse tipo de gordura entre 40 e 65 anos de idade aumenta significativamente o risco de Alzheimer e outras formas de demência nas décadas seguintes. Segundo a investigação de neurocientistas da Universidade de Purdue, também nos EUA, o excesso de gordura pode paralisar as microglias, células de defesa cerebrais.

Eles descobriram que uma enzima lipídica, a DGAT2, se acumula nessas células e reduz a capacidade de elas eliminarem as placas amiloides, acúmulos de proteínas altamente associados ao Alzheimer. O estudo também descobriu, em células in vitro, que ao acabar com as enzimas de gordura, a função celular dessas “faxineiras” do cérebro se recuperou integralmente.

“Esses achados reforçam a importância de manter um metabolismo lipídico equilibrado para preservar a saúde cerebral ao longo da vida”, ressalta a cardiologista Fabiana Hanna Rached, especialista em aterosclerose, do Einstein Hospital Israelita. “O desequilíbrio do colesterol no cérebro afeta a comunicação entre os neurônios, prejudica a função sináptica e pode contribuir para o declínio cognitivo.”

A boa notícia é que manter o colesterol sob controle — especialmente o LDL — pode reduzir o risco de declínio cognitivo. Estudos indicam que o uso de estatinas e mudanças na dieta ajudam não só a proteger o coração, mas também a retardar ou até prevenir a demência.

Um colesterol só do cérebro

Embora o corpo produza colesterol em vários tecidos, o do cérebro é “particular”. Ele é sintetizado ali e não atravessa livremente a barreira hematoencefálica, que isola o sistema nervoso, por isso seus níveis podem ser diferentes do restante do corpo. “O colesterol cerebral tem metabolismo próprio, e apenas derivados como a 24S-hidroxicolesterol conseguem atravessar essa barreira”, explica Pedatella. Essa separação ajuda a proteger o sistema nervoso de variações bruscas na gordura circulante.

Apesar disso, distúrbios sistêmicos do corpo associados aos níveis lipídicos, como a síndrome metabólica, podem afetar indiretamente o metabolismo de colesterol cerebral. Indivíduos com obesidade abdominal, hipertensão e baixos níveis de HDL no sangue, por exemplo, costumam apresentar volume cerebral reduzido.

“Embora as gorduras saudáveis sejam cruciais para a função cognitiva e saúde cerebral, ter baixos níveis de HDL associados a outros problemas metabólicos já foi até ligado a um desempenho cognitivo menor em testes, então precisamos investigar mais a fundo se a reversão ou melhora da síndrome metabólica pode beneficiar a saúde cerebral e de que formas”, observa Rached.

Além disso, o momento da vida em que o colesterol se eleva parece determinar o risco futuro de demência. “O impacto dos níveis de colesterol sobre o risco de demência é mais significativo quando a exposição ocorre na meia-idade”, alerta o neurologista. Após os 70 anos, essa associação enfraquece, e níveis mais altos podem até se relacionar a melhor prognóstico em alguns estudos.

Essas contradições indicam que ainda há muito para entender.

“Faltam estudos longitudinais capazes de distinguir causa e efeito do colesterol no cérebro. Também é necessário investigar como intervenções precoces, como dietas equilibradas e controle metabólico, podem preservar a função cerebral”, destaca a cardiologista do Einstein.

Enquanto isso, vale seguir a máxima: cuidar do colesterol com boa alimentação, tratamentos medicamentosos quando necessário e prática de atividades físicas não é só questão de coração; é também um investimento na saúde como um todo, inclusive do cérebro.

Fonte: Agência Einstein

COMPARTILHE NAS REDES

Saúde

Síndrome do coração partido: conheça a doença que simula um infarto

Mais comum em mulheres, condição geralmente tem evolução benigna, mas precisa de tratamento adequado para evitar complicações; veja o que causa e como prevenir

Por Fernanda Bassette, da Agência Einstein

Dizem que ninguém morre de coração partido — mas não é bem assim. A síndrome de Takotsubo, também chamada de síndrome do coração partido, é provocada por situações de estresse intenso (físico ou emocional) e afeta diretamente o funcionamento do músculo cardíaco, como se fosse um infarto. Apesar de geralmente ter evolução benigna, se não for tratada adequadamente, pode causar complicações e até levar à morte.

Essa síndrome é uma cardiomiopatia induzida por estresse, caracterizada pela perda temporária da capacidade de contração do músculo cardíaco, sem obstrução significativa das artérias coronárias — ao contrário do que ocorre em um infarto clássico.

“É uma condição clínica que mimetiza um infarto do miocárdio, em que ocorre disfunção segmentar do músculo cardíaco, geralmente transitória, na ausência de obstrução das artérias coronarianas”, explica o cardiologista Marcelo Franken, gerente de Cardiologia do Einstein Hospital Israelita.

O nome curioso não é por acaso: a síndrome costuma surgir após fortes abalos físicos ou emocionais, como a perda de alguém querido, situações traumáticas, cirurgias, infecções graves e até o uso de drogas estimulantes.

“Ela é considerada uma doença cardíaca real, que aparece após situações de estresse físico ou emocional intenso”, ressalta a cardiologista Salete Nacif, diretora da Sociedade de Cardiologia do Estado de São Paulo (Socesp) e integrante da Socesp Mulher, departamento focado na saúde feminina.

Sintomas parecidos

Um dos maiores desafios no diagnóstico correto da síndrome do coração partido é que os sintomas são praticamente idênticos aos de um infarto agudo do miocárdio. Dor súbita no peito, falta de ar, palpitações, sudorese fria e desmaios podem ocorrer, o que leva muitos pacientes ao pronto-socorro. “Inclusive, há alterações no eletrocardiograma e nos exames laboratoriais, assim como acontece no infarto”, observa Franken.

Essa semelhança exige investigação detalhada para confirmar a causa do quadro. Por isso, o diagnóstico envolve exames clínicos e laboratoriais, eletrocardiograma, ecocardiograma e o cateterismo, essencial para descartar a obstrução coronária típica do infarto. Em alguns casos, a ressonância magnética cardíaca também pode ser indicada.

“Clinicamente, os sintomas são quase idênticos. A diferença só fica clara com exames. No infarto, há obstrução de uma artéria coronária, visível no cateterismo. Na síndrome de Takotsubo, não há obstrução; observa-se uma alteração típica no movimento do coração, especialmente no ventrículo esquerdo”, detalha Nacif.

A causa exata da síndrome ainda não é totalmente conhecida, mas sabe-se que ela está relacionada a uma descarga excessiva de hormônios do estresse, como a adrenalina, que afeta o músculo cardíaco e altera sua função temporariamente.

Cerca de 90% dos casos descritos ocorrem em mulheres. Entre elas, o problema é mais comum após a menopausa, quando há alterações hormonais que parecem aumentar a vulnerabilidade do coração ao estresse. Segundo Marcelo Franken, a faixa etária mais atingida são mulheres por volta dos 60 anos. “Estima-se que ocorram cerca de 30 mil casos por ano no Brasil, por volta de 1% dos infartos”, relata.

Mas idosos e pessoas com histórico de estresse intenso ou doenças neurológicas também parecem mais suscetíveis. Estudos recentes mostram que a incidência em homens tem aumentado, sobretudo quando o gatilho é um evento de estresse físico, como cirurgias ou infecções graves.

No último congresso da Socesp, realizado em junho, o cardiologista intervencionista Davide Di Vece, um dos coordenadores do Registro Internacional de Takotsubo, apresentou dados de um estudo que chamou atenção. Segundo essa pesquisa, a proporção de casos masculinos passou de 10% para 15% entre 2004 e 2021. E embora os homens ainda representem a minoria, a doença costuma ser mais grave nesse grupo, com maior risco de complicações e morte.

O tratamento costuma ser de suporte, semelhante ao indicado para insuficiência cardíaca. “Envolve geralmente medidas para reduzir a carga de trabalho do coração, como o uso de betabloqueadores e inibidores da ECA [Enzima Conversora de Angiotensina]”, explica Nacif. É fundamental que o paciente permaneça internado com monitorização contínua, especialmente devido ao risco de arritmias. Em geral, a recuperação ocorre em poucas semanas ou meses, e a função cardíaca costuma voltar ao normal. A síndrome pode se repetir em cerca de 5% a 10% dos casos.

Tem como prevenir?

Não há uma forma específica de evitar a síndrome, mas medidas de promoção do bem-estar ajudam a reduzir o risco. “Técnicas para diminuir o estresse, sono regular, atividade física e tratamento adequado de ansiedade e depressão podem ajudar”, orienta a cardiologista da Socesp. Mas a recomendação principal é: procure ajuda médica imediata diante de qualquer sintoma suspeito. “Na presença de dor no peito ou falta de ar, é fundamental procurar um serviço de emergência”, avisa o médico do Einstein.

Fonte: Agência Einstein

COMPARTILHE NAS REDES

Saúde

Manjericão e orégano ajudam a evitar danos às artérias, indica estudo

Pesquisa brasileira mostra que o uso dessas ervas contribui para reduzir processos nocivos capazes de aumentar o risco de inflamações que servem de estopim para problemas cardiovasculares

 

Por Regina Célia Pereira, da Agência Einstein

Não bastasse acrescentar sabores e aromas aos pratos, os temperos naturais incrementam as preparações com substâncias benéficas. Um estudo brasileiro, publicado em dezembro no periódico científico International Journal of Gastronomy and Food Science, mostra que manjericão e orégano ajudam a reduzir a formação de compostos que estão por trás de processos inflamatórios capazes de prejudicar as artérias.

“Eles são bastante utilizados Brasil afora e essa popularidade foi um dos fatores para a escolha [de estudá-los]”, diz a engenheira de alimentos Vanessa Sales de Oliveira, da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ) e autora principal do trabalho, realizado em parceria com pesquisadores da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e Universidade de São Paulo (USP).

Os efeitos protetores da dupla foram avaliados durante a preparação de omelete – outro alimento comum em todos os cantos no país. No laboratório da UFRRJ, a pesquisadora reproduziu o que se passa no cotidiano de qualquer cozinha. Foram testadas duas formas de preparo: uma de omelete feita em frigideira antiaderente, sem uso de óleo; e a outra em uma fritadeira a ar, a air fryer.

Quando os ovos passam por aquecimento, o calor dispara processos oxidativos que alteram a composição das gorduras. “Essas reações contribuem para a formação dos chamados produtos de oxidação do colesterol (COPs)”, comenta Tatiana Saldanha, professora do Departamento de Tecnologia de Alimentos da UFRRJ e orientadora do estudo.

Há indícios de que, se ingeridos em excesso, os COPs favorecem inflamações e estão envolvidos com o aumento do risco cardiovascular, propiciando a aterosclerose, entre outros males.

Embora as duas ervas tenham mostrado bons efeitos no combate a essa oxidação, observou-se que o orégano foi mais eficaz durante o preparo na air fryer. Por trás dessa atuação está uma soma de compostos com propriedades antioxidantes, que neutralizam os radicais livres, um grupo de moléculas oxidativas. Entre os benfeitores, o destaque vai para os ácidos fenólicos que aparecem em grande quantidade em ambos os temperos.

As ervas no dia a dia

Para a nutricionista Gabriela Mieko, do Espaço Einstein de Reabilitação e Esporte, do Hospital Israelita Albert Einstein, o estudo reforça a importância da utilização de temperos naturais. “Além de acrescentar essas substâncias protetoras, as ervas tornam a comida mais saborosa e atrativa”, comenta.

Ela ressalta o valor das experiências sensoriais, já que comer envolve aspectos biopsicossociais, que vão muito além de nutrir o organismo. Vale conhecer esses ingredientes, assim como tantos outros, e se lançar às artes culinárias.

O orégano é natural da costa mediterrânea e foi apelidado como “a alegria das montanhas” por crescer em lugares rochosos. Forma boa dupla com o azeite de oliva, pois em ambiente oleoso tanto seu gosto quanto seu aroma ficam mais pronunciados. Além de fazer bonito na omelete, combina com macarrão, pizzas e queijos, por exemplo.

O manjericão, vindo da Índia, também incrementa as mesmas preparações e ainda é estrela no molho pesto, que acompanha massas, grelhados, torradas e afins.

Ambos os temperos são encontrados frescos ou desidratados. No estudo, aliás, foram usadas as versões frescas e orgânicas. “Mas, para quem não tem acesso, há bons produtos disponíveis no mercado”, comenta Saldanha. A dica da professora é optar por marcas conhecidas e atentar para o prazo de validade.

Outras ervas também são bem-vindas no cotidiano. Afinal, ao afastar a monotonia alimentar, se garante maior variedade de substâncias benéficas. Segundo a nutricionista do Einstein, são muitas as vantagens associadas ao hábito de cozinhar. “Um dos benefícios é o controle na dosagem de sal, açúcar e gordura, que devem ser usados de forma moderada”, afirma Mieko.

Ter conhecimento sobre os ingredientes e as quantidades usadas no preparo das receitas costuma resultar em refeições mais saudáveis. E tem ainda os ganhos emocionais. “A culinária pode funcionar como uma espécie de terapia e ajuda a melhorar a relação com a comida”, defende a nutricionista.

Fonte: Agência Einstein

COMPARTILHE NAS REDES

Saúde

Mulheres e pessoas abaixo de 60 anos vivem menos após infarto, mostra estudo

Resultados mostram que esses grupos têm um risco relativo mais alto de morte ao sofrer um ataque cardíaco e, portanto, maior perda de expectativa de vida em anos

Por Gabriela Cupani, da Agência Einstein

Mulheres perdem mais anos de vida após um infarto do que homens, mostra um estudo publicado no periódico científico Circulation, feito por pesquisadores do Instituto Karolinska, na Suécia. Segundo a pesquisa, um ataque cardíaco aos 50 pode encurtar a vida da mulher em até 11 anos, já um homem que infarta aos 80 pode viver apenas cinco meses a menos do que sua expectativa de vida.

Os autores chegaram ao resultado após analisar dados de cerca de 335 mil suecos que sofreram infarto no período de 1991 a 2022, a partir de um registro nacional chamado SWEDEHEART. Eles foram separados em grupos de acordo com o sexo e a idade (abaixo de 60 anos, entre 60 e 75 anos e acima de 75 anos). Os autores também compararam os participantes com mais de 1,5 milhão de pessoas que não tiveram problemas cardíacos. Uma análise estatística cruzou as informações considerando ainda fatores como renda, educação e comorbidades.

Os resultados mostram que pessoas com menos 60 anos e mulheres no geral têm um risco relativo mais alto de morte ao sofrer um ataque cardíaco e, portanto, maior perda de expectativa de vida em anos.

O infarto é uma consequência de várias condições que envolvem doenças crônicas (diabetes, hipertensão e obesidade), estilo de vida (consumo de álcool, tabagismo, sedentarismo e sono de má qualidade) e aspectos pessoais e genéticos (como sexo, idade e antecedentes familiares). Ele afeta a expectativa de vida tanto pela presença dos fatores de risco em si quanto pelas sequelas que pode gerar, como insuficiência cardíaca e arritmias.

O fator da idade

Para a cardiologista Juliana Soares, do Hospital Israelita Albert Einstein, o estudo reforça o que as evidências mostram. “Sabe-se que um infarto em um paciente jovem tende a ser mais grave e, consequentemente, com maior impacto na mortalidade e expectativa de vida”, afirma.

Ela explica que isso acontece, em parte, porque pessoas com menos de 50 anos ainda não desenvolveram uma proteção conhecida como “circulação colateral”, que são pequenos vasos sanguíneos formados no coração para compensar a falta de irrigação causada por uma artéria entupida. Essa circulação auxiliar tende a se formar ao longo da vida em quem tem fatores de risco e aterosclerose – a formação de placas que entopem as artérias.

Além disso, infartos pessoas mais novas também podem decorrer de condições genéticas, como a miocardiopatia hipertrófica, e do uso e abuso de substâncias como a cocaína, o que também impacta negativamente o prognóstico.

Segundo a especialista, atualmente os números sugerem um aumento de problemas cardíacos em jovens em relação a décadas passadas devido, principalmente, a questões como má alimentação, sedentarismo e estresse. “Os jovens não estão imunes a um infarto, mas muitos ainda pensam que essa é uma doença de pessoas mais velhas”, diz Soares. Por isso, manter os fatores de risco sob controle pode atenuar esse impacto na mortalidade.

Particularidades femininas

Nas mulheres — principalmente as mais novas — costuma haver uma sucessão de erros na cadeia de prevenção, diagnóstico e tratamento de doenças cardiovasculares agudas. Isso acontece porque elas têm com maior frequência fatores de risco como estresse, depressão, doenças autoimunes (como lúpus e artrite reumatoide, que são mais frequentes no sexo feminino) e ainda podem sofrer com sequelas de tratamentos para condições como o câncer de mama.

Além disso, as mulheres não costumam apresentar os sintomas clássicos de um infarto, a exemplo da dor no peito. Nelas, as manifestações incluem cansaço, falta de ar e uma dor de difícil caracterização, o que pode retardar o diagnóstico e o tratamento adequado, agravando o quadro.

Muitas vezes, os próprios profissionais de saúde podem acabar ignorando os sintomas e subdiagnosticando determinadas comorbidades e mulheres, deixando de prescrever o tratamento adequado. Isso contribui para aumento de mortalidade e queda de expectativa de vida entre elas.

“De um modo geral, as mulheres têm menos acesso a exames de rotina do coração que permitiriam diagnosticar e tratar fatores de risco como diabetes, colesterol alto e hipertensão arterial. Esses problemas ficam, então, escondidos por décadas, até que desembocam em uma síndrome coronariana aguda, o infarto”, analisa a cardiologista. “Naquelas em situação de vulnerabilidade social, isso é ainda mais intenso.”

De fato, as condições socioeconômicas fazem toda a diferença nos desfechos das doenças cardíacas agudas. “Isso significa ter mais acesso ao tratamento de condições crônicas de saúde, a uma boa alimentação, maior conscientização sobre benefícios da atividade física, mais atenção acerca de sintomas e maior acesso a serviços de saúde, tanto para o controle dos fatores de risco quanto para o manejo de condições graves”, explica a Juliana Soares.

 Fonte: Agência Einstein

COMPARTILHE NAS REDES

Saúde

Coração na menopausa: nova diretriz reforça segurança da reposição hormonal

Documento salienta, porém, que terapia não serve para prevenir eventos cardiovasculares; conheça as indicações e contraindicações   

 

Por Gabriela Cupani, da Agência Einstein

A terapia de reposição hormonal é segura, mesmo para portadoras de alguns fatores de risco, mas não serve para prevenir eventos cardiovasculares. Essas são algumas das recomendações da nova diretriz sobre saúde do coração na menopausa, que acaba de ser atualizada.

O documento — assinado pela Sociedade Brasileira de Cardiologia (DCM/SBC), a Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia (Febrasgo) e a Sociedad Interamericana de Cardiología (SIAC) — foi elaborado a partir de uma revisão minuciosa dos últimos estudos sobre o tema e traz também as contraindicações.

“Sabe-se que o risco cardiovascular da mulher aumenta muito após a menopausa, ficando igual ou até maior que o dos homens”, diz a cardiologista Glaucia Moraes, professora da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e uma das autoras da nova diretriz. Isso acontece devido às mudanças na fisiologia do sistema cardiovascular que afetam a vascularização, como alterações no perfil lipídico, na rigidez vascular, entre outros. Segundo Moraes, nos últimos 13 anos surgiram muitos estudos que justificam uma atualização das recomendações.

O documento enfatiza que a terapia hormonal é recomendada para qualquer mulher que tenha sintomas que afetem sua qualidade de vida, como os vasomotores (que levam aos famosos “fogachos”, por exemplo), geniturinários (como secura vaginal e infecções urinárias) ou em casos de perda de massa óssea, alterações no sono e perda cognitiva, por exemplo. “A mulher vai viver muitos anos após a menopausa, trabalhando, tendo uma vida ativa, e não precisa sofrer, tem que ter qualidade de vida”, destaca a cardiologista.

Por outro lado, a reposição não serve para prevenir doenças cardiovasculares, nem para proteger quem já teve algum evento. “Embora contribua tanto para a melhora dos sintomas quanto para um efeito protetor associado aos problemas decorrentes da queda do estrogênio, como acúmulo de gordura visceral, aumento dos níveis de colesterol, resistência insulínica e hipertensão arterial, não há evidências científicas que suportem seu uso como estratégia para prevenção de problemas cardiovasculares”, reforça a cardiologista Juliana Soares, do Hospital Israelita Albert Einstein.

Portadoras de algumas condições — como hipertensão, diabetes, obesidade e síndrome metabólica — podem fazer terapia hormonal, desde que essas doenças estejam bem controladas. Ainda assim, nesses casos, as melhores vias de reposição seriam a transdérmica ou a transvaginal. “Durante uma consulta no climatério e menopausa, recomenda-se a avaliação individual do risco cardiovascular antes de implementar a terapia”, diz Soares.  Se a paciente tiver um risco alto ou muito alto, há contraindicação de reposição hormonal.

A terapia hormonal deve ser iniciada nos primeiros dez anos após a menopausa, marcada pela última menstruação, ou até os 60 anos de idade. “Após essa janela, há um aumento do risco de mortalidade por eventos cardiovasculares”, diz a cardiologista do Einstein. “Isso ocorre provavelmente porque as pacientes já eram portadoras de disfunção vascular antes do início do tratamento.”

A via de administração, a dosagem e a duração do tratamento devem ser personalizadas de acordo com cada caso. O novo documento também recomenda não usar os chamados medicamentos bioidênticos, aqueles manipulados em farmácia. “Existe a preocupação de que as terapias hormonais manipuladas possam apresentar inconsistência de dosagens, controle de qualidade e absorção”, afirma a diretriz.

Além disso, é essencial adotar um estilo de vida saudável, com atividade física, dieta equilibrada, não fumar e não beber, para controle dos fatores de risco cardiovascular e prevenção das doenças associadas à aterosclerose, como infarto e acidente vascular cerebral (AVC).

Quando a reposição é contraindicada?

Embora a terapia seja segura e traga benefícios quando bem indicada, há alguns riscos associados ao câncer de mama e à formação de coágulos no sangue, principalmente para aquelas feitas exclusivamente via oral e por tempo prolongado.

Por isso é contraindicada para mulheres com histórico de câncer de mama ou neoplasias hormônio dependentes, trombofilias (condições que favorecem a formação de coágulos) ou eventos tromboembólicos prévios, ou ainda naquelas com história familiar para essas condições.

Quem já teve infarto, AVC e as portadoras de algumas doenças hepáticas, porfirias, lúpus, meningiomas, entre outras, tampouco podem fazer a reposição. Essas mulheres devem receber medicamentos não hormonais para alívio dos sintomas na menopausa.
Fonte: Agência Einstein

Clique aqui para seguir o Canal FV Conecta da Folha de Valinhos 

COMPARTILHE NAS REDES

Saúde

Brasil registra um atendimento de emergência cardíaca por minuto

A cada minuto, uma pessoa dá entrada em um pronto-socorro do Sistema Único de Saúde (SUS) com crises agudas causadas por doenças que afetam o coração, como a insuficiência cardíaca e o infarto agudo do miocárdio. Em 2023, as internações decorrentes desse tipo de quadro totalizaram 641.980. O alerta é da Associação Brasileira de Medicina de Emergência (Abramede).

A entidade mapeou os principais problemas cardiovasculares registrados em hospitais públicos brasileiros, incluindo a doença reumática crônica do coração; o infarto agudo do miocárdio; as doenças isquêmicas do coração; os transtornos de condução e arritmias cardíacas; e a insuficiência cardíaca.

Para a associação, os números demonstram ser fundamental fortalecer a infraestrutura hospitalar e capacitar continuamente equipes de emergência para lidar com o volume crescente e a complexidade dos casos. Ao longo desta semana, a Abramede reúne cerca de 1,6 mil especialistas para tratar do tema durante o 9º Congresso Brasileiro de Medicina de Emergência.

Pressão sobre o SUS

Na avaliação da entidade, os números revelam “forte pressão” sobre emergências em todo o país. O Sudeste, região mais populosa, concentrou o maior número absoluto de internações por doenças cardíacas, com mais de 241 mil atendimentos desse tipo. Estados como São Paulo e Minas Gerais lideraram o número de casos, com 120.142 e 80.191, respectivamente.

No Nordeste, a pressão sobre as emergências também é classificada como significativa, sobretudo em estados como Ceará e Pernambuco, que registraram, respectivamente, 20.374 e 24.331 atendimentos de urgência. Os números correspondem a mais de 90% das internações por doenças cardíacas nesses estados.

No Norte, o total de atendimentos de urgência foi de 27.460. Dentre as unidades federadas, o estado do Amazonas se destaca, com 5.899 atendimentos do tipo.

O cenário mais crítico, segundo a Abramede, está em Mato Grosso do Sul, onde 97% das internações por doenças cardíacas foram de urgência. O estado contabilizou 10.590 internações desse tipo, de um total de 10.963 atendimentos registrados em 2023 – maior percentual em todo o país.

Caráter emergencial

Ainda de acordo com o levantamento, no ano passado mais de 85% das internações relacionadas a doenças cardíacas foram de caráter emergencial. O infarto agudo do miocárdio, por exemplo, respondeu por 152 mil internações de urgência, representando 88% do total de internações para essa condição.

Já a insuficiência cardíaca, uma das condições cardíacas mais comuns, registrou 194,5 mil hospitalizações de emergência – 94% do total de casos da doença. O quadro ocorre quando o coração não consegue bombear sangue de forma eficiente, exigindo intervenção emergencial para evitar desfechos graves.

Perfil

Os homens aparecem como público mais afetado entre pacientes internados em caráter de urgência, respondendo por 57% das internações em 2023, enquanto as mulheres representaram 43% dos atendimentos.

O levantamento mostra também que o risco de doenças cardíacas aumenta consideravelmente conforme a idade avança – 67% das internações ocorreram em pacientes com 60 anos ou mais. Em seguida aparecem os grupos de 70 a 79 anos; de 50 a 59 anos; e de 80 anos ou mais.

“Embora as doenças cardíacas sejam majoritariamente associadas ao envelhecimento, há um número considerável de casos de atendimentos entre adultos jovens, que frequentemente estão expostos a hábitos de vida prejudiciais à saúde cardiovascular”, alerta a Abramede.

COMPARTILHE NAS REDES