Câncer

Saúde

25% dos sarcomas, tipos raros de câncer, são diagnosticados incorretamente

Os sarcomas representam cerca de 1% dos tumores diagnosticados anualmente e possuem cerca de 100 subtipos; faltam no Brasil centros especializados para o tratamento desses pacientes 

 

Por Fernanda Bassette, da Agência Einstein

“Eu tinha uma vida comum e ela passou a ser extraordinária após a descoberta do sarcoma.” Foi com essas palavras que a auxiliar em contabilidade Patrícia Figueiredo, 35 anos, descreveu como foi receber o diagnóstico de sarcoma – o termo utilizado para definir um conjunto de tipos raros de câncer, com cerca de 100 subtipos, que atingem especialmente ossos e partes moles, como músculos, células de gordura, cartilagens e vasos sanguíneos. Eles representam cerca de 1% dos casos de tumores sólidos descobertos anualmente.

Os sarcomas são tumores das células mesenquimais, que são as de apoio e suporte físico e estrutural ao nosso corpo, como músculo, gordura e ossos. Em geral, eles surgem nas extremidades (pernas e braços), no retroperitônio (entre os órgãos abdominais) e nas paredes torácica ou do abdômen. A doença pode acometer pessoas de qualquer idade. Alguns subtipos que afetam os ossos são mais comuns na infância e adolescência, enquanto outros subtipos, especialmente os sarcomas de partes moles, em sua maioria, atingem mais os adultos acima de 50 anos.

A doença é tão incomum e difícil de ser diagnosticada que sua incidência não é registrada pelo Globocan (Global Cancer Observatory), pelo Cancer Incidence in Five Continents (CI5) e nem pelo Instituto Nacional de Câncer (Inca). As estimativas de casos novos são baseadas em registros de câncer de países desenvolvidos, como os Estados Unidos e algumas nações da Europa, o que complica ainda mais o controle epidemiológico da doença. A literatura estima que até um quarto dos diagnósticos (25%) sofrem atrasos ou estão errados por causa da dificuldade de identificação correta do subtipo do tumor – e isso tem um impacto direto no tratamento do paciente.

A auxiliar em contabilidade é um exemplo de dificuldade diagnóstica inicial, o que afetou a conduta do seu tratamento. O seu primeiro sintoma foi um sangramento menstrual intenso, com a perda de coágulos, que não cessava e lhe causava dores fortes. Após consultar seu ginecologista, ela foi diagnosticada com miomas no útero e recebeu a recomendação de retirada do órgão. Depois da cirurgia, as dores passaram e ela conta que ficou aliviada por poder retomar a rotina. Como de praxe, um fragmento do útero foi enviado para biópsia e a conclusão do material surpreendeu a todos: ela tinha um sarcoma, que foi classificado inicialmente como de baixo grau.

“Quando perguntei se isso era câncer, o médico balançou a cabeça dizendo que sim. Nesse momento, eu soube que aos 34 anos, com dois filhos pequenos, que tinha um câncer raro, que representa menos de 1% dos casos. Não conhecia ninguém com a mesma doença e meu médico não sabia muito bem como conduzir o tratamento, por ser algo extremamente raro. Comecei a chorar. Mas minha fé é inabalável, independente do que o papel diga”, conta Patrícia. O ginecologista a encaminhou para iniciar o tratamento com um oncologista no sistema público de saúde, em um hospital de referência em câncer no interior de São Paulo.

Mas foi justamente a classificação equivocada do tipo de sarcoma dela que atrapalhou a conduta médica e fez o câncer avançar rapidamente. De acordo com Roberto Pestana, oncologista clínico do Hospital Israelita Albert Einstein e pesquisador da Equipe de Sarcoma do Grupo Cooperativo Latino-Americano de Oncologia (Lacog), como são tumores muito raros e há poucos dados disponíveis sobre esse tipo de câncer no Brasil e no mundo, ainda existem dificuldades para o diagnóstico.

“Isso faz com que a história desses pacientes envolva, em geral, um tempo longo entre os sintomas iniciais e até ele procurar um médico. Depois disso, pela raridade dos tumores, muitas vezes o diagnóstico de sarcoma não é considerado. E, por serem tumores raros, quando o exame é enviado para biópsia, há o risco de erro: são mais de 100 tipos, muitas vezes semelhantes entre si no microscópio. O diagnóstico final ainda pode depender de testes moleculares adicionais, que nem todo lugar faz”, explica o oncologista.

Segundo Pestana, a demora na identificação correta da doença pode fazer o paciente perder um tempo que é extremamente importante para o controle da doença. “Cada passo da jornada desse paciente é um desafio. Muitas pessoas nunca ouviram falar de sarcoma, então é difícil até saber onde elas podem receber o tratamento”, ressalta.

Com o diagnóstico de sarcoma de baixo grau, Patrícia foi orientada a apenas monitorar a evolução da doença. Entre idas e vindas, ela voltou a sentir fortes dores abdominais e novos exames mostraram um pequeno nódulo no pulmão, outro no abdômen, outro no retroperitônio, o que indicava metástases. Ela foi encaminhada então para o serviço de cuidados paliativos do hospital e começou a usar uma medicação hormonal oral. “Após o início da medicação, os nódulos dobraram de tamanho e eu continuei com dores absurdas.”

Diante da piora do quadro clínico, a jovem resolveu ouvir uma segunda opinião, repetiu os exames, refez a análise patológica do tumor e descobriu que tinha sim um sarcoma, mas ele não era de baixo grau – era um tumor de alto grau, estágio 4 (mais agressivo e já avançado). Um PET scan mostrava mais de 20 nódulos somente no pulmão. “Eu parecia um dálmata, de tantos pontos pretos”, diz. Foi preciso mudar completamente a conduta do tratamento, com o início imediato de ciclos de quimioterapia a cada 21 dias. Cinco dias após o início, já havia a melhora dos sintomas. No terceiro ciclo, o PET scan já mostrava a redução significativa de todos os nódulos.

 

Poucos centros especializados 

Pestana e outros oncologistas fizeram uma ampla revisão de estudos sobre sarcomas publicados nos últimos 30 anos e constataram que existem vários obstáculos que levam ao diagnóstico tardio e à falta de cuidados adequados para o paciente. O trabalho foi publicado na revista médica The Lancet Regional Health Americas.

A pesquisa aponta que, de 1.941 estudos clínicos sobre sarcomas, somente 29 deles estavam disponíveis em países da América do Sul. Considerando os 632 ensaios em andamento atualmente, somente oito incluíam países da América do Sul – menos de 2% do total de pesquisas. Segundo o oncologista do Einstein, essa limitação dificulta o acesso a novos tratamentos e o desenvolvimento de abordagens personalizadas para o tratamento desses pacientes nessa região.

Outro ponto destacado pelo médico é que a literatura mostra que esses pacientes recebem um tratamento melhor e vivem mais se forem tratados e acompanhados em centros especializados em sarcoma, o que praticamente não existe no Brasil e em outros países da América Latina. “Ainda é incipiente essa organização da rede de cuidado, de forma a garantir que os pacientes sejam encaminhados para centros especializados. Em alguns países, especialmente na Europa, existem redes diagnósticas e de tratamento que organizam a jornada desses pacientes e centralizam em locais específicos, o que melhora o desfecho”, reforça.

A auxiliar em contabilidade terminou os seis ciclos de quimioterapia e atualmente faz o acompanhamento do câncer com exames de rotina a cada dois meses. “Entendi o meu propósito por meio da dor. Mas nada seria possível sem a minha rede de apoio familiar e a minha fé. Hoje minha vida é uma folha em branco e escrevo cada página diariamente. Assim como tenho um câncer raro, que representa menos de 1% dos casos, posso dizer que sou o 1% que sobreviveu a ele”, finaliza.

Fonte: Agência Einstein

COMPARTILHE NAS REDES

Saúde

América Latina tem a segunda maior taxa de mortalidade por câncer de colo do útero   

No Brasil, as diferenças regionais são um desafio para o rastreamento da doença. Um exame molecular essencial para diagnosticar e prevenir a doença é incorporado no SUS 

 

Por Gabriela Cupani, da Agência Einstein

Menos da metade das latino-americanas (48%) fizeram o papanicolau, exame para a prevenção do câncer de colo do útero, nos últimos três anos. E a desigualdade entre os países e regiões é um desafio para as metas de eliminação da doença da Organização Mundial da Saúde (OMS), o que se reflete na diferença de incidência e mortalidade desse tumor. A América do Norte, por exemplo, tem a menor taxa de mortalidade do mundo e a América Latina a segunda maior, só perdendo para a África. Os dados são de um estudo publicado no The Lancet.

O Brasil, com uma incidência de 15,38 a cada 100 mil mulheres/ano, ainda está longe do objetivo da OMS de quatro casos para cada 100 mil mulheres/ano até 2030. Mas, segundo os autores do estudo, a falta de dados consolidados em um único registro – considerando inclusive o sistema público e a saúde suplementar – pode gerar distorções nos números do rastreamento.

Atualmente a doença é o terceiro tipo de câncer mais incidente em mulheres no Brasil, excluídos os tumores de pele não melanoma, e a quarta causa de morte por tumores em mulheres. Mas há grandes diferenças regionais: no Norte e Nordeste, está em segundo lugar, enquanto no Sul e Sudeste, ocupa o quarto e o quinto lugares, respectivamente, de acordo com dados do Instituto Nacional do Câncer (Inca). “Quanto maior a interiorização, menos acesso ao diagnóstico e tratamento precoce”, diz o ginecologista e obstetra Mariano Tamura, do Hospital Israelita Albert Einstein.

De fato, a taxa de mortalidade na Região Norte, por exemplo, é o dobro da nacional – 9,07 contra 4,51. Embora um relatório recente do Inca estime que 80% das mulheres na faixa dos 25 aos 64 anos façam o rastreamento, há uma disparidade muito grande no acesso – tanto que 35% dos tumores ainda são diagnosticados em fase avançada. Cerca de 6% das brasileiras nunca fizeram o exame – e esse número chega a 15% em estados como Paraíba e Alagoas.

Recentemente, o exame molecular para detectar o HPV, considerado o padrão ouro para a prevenção e o rastreamento do câncer de colo de útero, foi incorporado pelo SUS. Esse teste coleta material genético do vírus e é capaz de apontar sua presença mesmo antes de qualquer sintoma ou lesão e, segundo a OMS, faz parte das estratégias para a redução dos casos.

 

Um câncer altamente prevenível

Causado pelo papilomavírus humano (HPV), o câncer de colo de útero pode ser evitado e normalmente tem uma progressão lenta a partir de lesões com potencial maligno. Para evitar o desenvolvimento da doença é preciso fazer o rastreamento e o diagnóstico precoce de lesões suspeitas.

Hoje recomenda-se que as mulheres entre 25 e 64 anos façam o papanicolau anualmente. Após dois exames seguidos (com um intervalo de um ano) apresentando resultado normal, o preventivo pode passar a ser feito a cada três anos. Esse exame é capaz de apontar alterações suspeitas nas células, mas pode apresentar falhas. Já o teste molecular que detecta o HPV tem uma sensibilidade muito maior e ajuda a traçar o perfil de risco da paciente.

Vale lembrar que a prevenção da doença envolve o uso de preservativos nas relações sexuais e a vacinação contra o HPV, disponível na rede pública para meninas e meninos de 9 a 14 anos e pessoas imunossuprimidas entre 9 e 45 anos.

“É um câncer que costuma afetar mulheres entre 30 e 50 anos, que estão em idade reprodutiva e numa fase muito ativa da vida, muitas ainda não têm filhos ou têm filhos pequenos”, explica Tamura.

Quando diagnosticado em estágio inicial, o tratamento é mais fácil e pode ser feito de forma ambulatorial, com o uso de ácidos, laser e mesmo remoção cirúrgica, preservando o colo do útero, as funções uterinas e a fertilidade.

A iniciativa da OMS para a eliminação da doença ou a redução da incidência até 2030 inclui ter 90% das garotas vacinadas contra o HPV até os 15 anos de idade, garantir que 70% das mulheres entre 35 e 45 façam pelo menos dois exames de rastreio e tratar 90% das lesões pré-cancerosas e tumores invasivos.

Fonte: Agência Einstein

COMPARTILHE NAS REDES

Saúde

Ferida que sangra e não cicatriza pode sinalizar um câncer de pele 

O carcinoma basocelular é o tipo mais comum de câncer de pele e o tratamento precoce resolve o problema definitivamente; visita ao dermatologista deve ser anual 

 

Por Fernanda Bassette, da Agência Einstein

Sabe aquela feridinha no seu rosto que parece simples, que não incomoda em nada, mas insiste em sangrar e não cicatriza? Cuidado. Ela pode indicar um carcinoma basocelular – o tipo de câncer de pele mais comum na população e o de menor mortalidade. Apesar disso, se não tratado adequadamente, ele pode aumentar de tamanho e deixar mutilações significativas e indesejadas. A Organização Mundial da Saúde (OMS) estima que sejam diagnosticados de 2 a 3 milhões de novos casos de câncer de pele não melanoma todos os anos no mundo.

“O câncer de pele, independentemente do tipo, é o mais comum no ser humano. Não existe outro câncer que chegue próximo do número de casos de câncer de pele, nem mesmo de próstata ou de mama, que são os mais falados. Pode parecer esquisito, mas uma hora ou outra, provavelmente, a gente vai descobrir um câncer de pele”, alertou o dermatologista Andrey Malvestiti, do Hospital Israelita Albert Einstein. 

De acordo com o médico, os adultos que hoje têm por volta de 40 anos são de uma geração que na infância foi muito exposta à radiação solar sem proteção – quando viajava para a praia, por exemplo, “trocava” de pele (descascavam) com frequência. “Somos de uma geração que foi chumbada pelo sol ao longo da vida, numa época em que pouco se falava sobre os efeitos danosos do sol para a pele e menos ainda sobre a importância do uso de protetor solar. Por isso é tão comum esse tipo de câncer”, disse o dermatologista.

Existem muitos tipos de câncer de pele, sendo os mais comuns o carcinoma basocelular (que representa cerca de 80% dos casos), o carcinoma espinocelular (cerca de 15%) e o melanoma (que corresponde a aproximadamente 5% dos casos). Segundo o Instituto Nacional de Câncer (Inca), os cânceres de pele não melanoma representam 30% de todos os tumores malignos registrados no país, ou seja: três em cada dez casos de cânceres diagnosticados aqui são de pele. “O lado bom dessa história é que a maioria, especialmente o basocelular, não é agressiva e é altamente tratável e curável com a cirurgia”, disse Malvestiti.

Como desconfiar? 

Todo câncer de pele começa por causa da reprodução desordenada de alguma célula da pele. O carcinoma basocelular – como o próprio nome diz – tem origem na camada basal da epiderme, que é mais fina e mais externa. Trata-se de uma lesão maligna de crescimento muito lento, por isso, pode ser que as pessoas passem anos da vida sem saber que têm um câncer de pele.

Em geral, o carcinoma basocelular costuma afetar mais os homens do que as mulheres, atinge mais comumente as pessoas de pele mais clara e é mais frequente em adultos com mais de 40 anos, com exceção dos que já possuem alguma doença de pele. Ele costuma aparecer nas áreas mais expostas à radiação solar, especialmente no rosto, nas orelhas e nos membros (braços e pernas).

Segundo Malvestiti, o sangramento aparentemente sem importância é o principal sinal de alerta e costuma ser o motivo que leva as pessoas a procurarem o dermatologista. Isso acontece porque as células cancerígenas precisam de sangue para se nutrir e continuar crescendo – então a região do tumor costuma ser mais vascularizada. Além disso, o tecido que recobre o tumor após o sangramento é mais frouxo do que o tecido da pele saudável, por isso, qualquer toque mais forte faz com que ele sangre.

“Se uma feridinha na pele não cicatrizou completamente em duas ou três semanas e sangra com facilidade, procure um médico. É muito raro um machucado que não cicatrize em um mês”, alertou o dermatologista. 

O diagnóstico é confirmado por meio da biópsia, mas um dermatologista experiente costuma identificar durante a consulta quando se trata de um carcinoma basocelular por meio das características clínicas e da análise da lesão com o uso do dermatoscópio – uma lente que aumenta dez vezes a imagem.

“Após a biópsia, se for confirmado que é um tumor, eu sempre digo aos meus pacientes que tenho duas notícias. A notícia ruim é que é um câncer de pele e precisa ser tratado. A boa notícia é que o carcinoma basocelular não dá metástase (ela pode acontecer muito raramente, em menos de 0,01% dos casos), o que significa que ele não se espalha para outras partes do corpo. Porém ele não para de crescer. Se a pessoa não tirá-lo, ele pode aumentar e causar problemas funcionais, como atrapalhar a visão. Sem falar do risco estético, pois, quanto maior o tumor, mais complexa é a cirurgia para removê-lo e mais cicatrizes existirão”, alertou o médico do Einstein.

O tratamento de escolha padrão ouro do carcinoma basocelular é cirúrgico – normalmente feito em consultório, com anestesia local. O objetivo é retirar completamente a lesão e o tecido ao redor, como uma margem de segurança. Outros recursos terapêuticos menos usados são a criocirurgia (também conhecida como crioterapia) com nitrogênio líquido, laserterapia, curetagem, eletrocoagulação e radioterapia – eles são indicados para casos específicos.

A prevenção, ressalta Malvestiti, inclui proteger a pele da exposição solar com o uso do filtro solar diariamente e evitar ficar no sol entre 10 e 14 horas, além de tomar outras medidas de barreira, como usar óculos de sol, boné, chapéu, blusas de manga comprida e proteção ultravioleta.

Também é importante que as pessoas incluam a visita de rotina ao dermatologista pelo menos uma vez ao ano, mesmo sem sintoma nenhum. “Na consulta, o ideal é que elas tirem a roupa para que o médico possa avaliar o corpo todo, incluindo as costas e as pernas. Pode ser que o paciente tenha um câncer e nem saiba simplesmente porque não consegue enxergá-lo”, finalizou o médico.

Fonte: Agência Einstein

COMPARTILHE NAS REDES

Saúde

Saiba como se preparar para a colonoscopia  

Cercado de tabus, o exame avalia a saúde do intestino e previne o câncer. Saiba como é feito o preparo dessa avaliação, que deve ser realizada por todos após os 45 anos 

Por Gabriela Cupani, da Agência Einstein

Não tem como escapar: mais cedo ou mais tarde, todo mundo vai se deparar com a colonoscopia, o exame que avalia a saúde do intestino e é essencial para diagnosticar doenças – desde as inflamatórias até os tumores. Por ser rodeada de tabus e preconceitos, muitas pessoas adiam essa avaliação, que pode ser solicitada em um check-up de rotina após os 45 anos ou antes se o paciente tiver algum sintoma – como perda de peso sem motivo aparente e/ou sangramento nas fezes –, ou ainda algum fator de risco para o câncer.

Se houver casos de câncer de intestino na família, a colonoscopia deve ser feita dez anos antes da idade com que o familiar mais jovem foi diagnosticado. Portadores de síndromes genéticas que elevem o risco desse tumor devem fazer um primeiro exame precocemente, muitas vezes ainda na infância.

O exame é rápido, indolor e salva vidas, principalmente agora, quando se tem notado o aumento dos casos de câncer colorretal, inclusive entre os mais jovens. A boa notícia é que a colonoscopia, dependendo do histórico do paciente e do resultado da colonoscopia anterior, pode ser repetido somente a cada dez anos. A periodicidade do exame poderá ser menor – alguns pacientes fazem anualmente –, dependendo dos fatores de risco desse paciente.

Segundo o Instituto Nacional do Câncer (Inca), o câncer de intestino é o segundo mais incidente no Brasil, atrás apenas dos de próstata e de mama. Estima-se que 46 mil novos casos surgirão no triênio 2023-2025. O Inca também registrou o aumento da incidência nos mais jovens, na faixa dos 20 aos 49, e naqueles entre 50 e 69 anos no período de 2000 a 2015. A doença está muito associada à alimentação pobre em fibras e com excesso de ultraprocessados e carne vermelha, além de sedentarismo e obesidade.

 

Por que fazer? 

O câncer de intestino tem altíssima chance de cura se for detectado precocemente. A grande vantagem é que ele normalmente leva anos para se desenvolver e costuma surgir a partir de pólipos, que são lesões benignas que se formam na parede do órgão. Na colonoscopia, é possível visualizá-los e retirá-los ao mesmo tempo, muito antes de virarem câncer.

“É um exame de baixo risco, que ajuda tanto a diagnosticar precocemente quanto a prevenir a doença. Quando bem indicado, o benefício é muito maior do que os riscos”, diz o gastroenterologista Rafael Ximenes, do Hospital Israelita Albert Einstein, em Goiânia. “Com o avanço da técnica e a melhoria dos equipamentos, o risco de complicações é raro”, ressalta o médico, que enfatiza que o exame deve ser feito por profissionais experientes, principalmente para os casos que exigem algum tratamento, como a ressecção de lesões maiores.

 

Como é feito o exame? 

O exame em si é bastante simples: um tubo bem fino, com uma câmera na ponta, é inserido no paciente via anal. Com o auxílio desse equipamento, chamado colonoscópio, o médico consegue explorar todo o intestino grosso e uma parte do delgado e reto, fazendo imagens e retirando as lesões quando for o caso. Tudo é feito sob sedação, portanto a pessoa não sente nada. Dura em torno de meia hora ou 40 minutos – mas pode ser um pouco mais, dependendo das lesões a tratar.

 

O preparo para o exame 

Essa é a parte que assusta muita gente, pois requer uma restrição alimentar rigorosa na véspera do exame. O sucesso da colonoscopia, explica o médico, depende do preparo adequado, o que significa que o intestino deve estar completamente limpo de qualquer resíduo. Estima-se que algo em torno de 20% dos exames não podem ser realizados porque o preparo foi incorreto, o que muitas vezes só é percebido na hora. Além disso, essa falha leva a maior demora e maior taxa de complicações, além da possibilidade de não detectar as lesões. Por isso, a orientação é seguir rigorosamente as instruções do local onde ele será feito para não ter que repetir a dose.

Como explica Ximenes, o preparo correto começa quando o médico pede o exame. “É a horar de conversar sobre a indicação, os benefícios e os riscos. Essas informações são essenciais para tranquilizar o paciente”, diz o médico.

Os cuidados com a alimentação começam um ou dois dias antes, dependendo das orientações. Normalmente, na véspera você não vai poder ingerir absolutamente nada sólido, apenas líquidos claros, para evitar que a coloração seja confundida com sangue. São liberados sucos de frutas sem resíduos, como laranja e maçã, água de coco, chá de camomila, picolés de fruta, como limão (sem leite), e gelatinas claras. No almoço e no jantar, apenas um caldo ralo e coado. Dependendo do caso e das orientações médicas, pode ser considerado um suplemento alimentar líquido.

Além da dieta especial, é preciso tomar remédios com efeitos laxativos para auxiliar na eliminação dos resíduos. A partir daí, a pessoa evacua várias vezes durante algumas horas, até que a limpeza esteja completa. Ao final, as fezes devem estar completamente líquidas e claras, com o aspecto similar ao de urina ou guaraná.

Por envolver diarreia, é essencial se hidratar muito bem. Mas duas horas antes do exame não se pode tomar absolutamente nada. Pacientes com maior risco de desidratação podem precisar de preparo hospitalar para receber a hidratação endovenosa.

Ao agendar o exame, procure tirar todas as dúvidas e mencionar qualquer medicamento de uso contínuo. Alguns, como os que afetam a coagulação, devem ser suspensos.

A colonoscopia pode ser feita em qualquer horário, mas tenha em mente que, ao fazer no período da manhã, a parte mais difícil do preparo acontece de noite e pode atrapalhar o sono. Também leve em conta que são dois dias em que as atividades normais estarão um pouco mais limitadas.

 

E após o exame? 

Ao acordar completamente da sedação, já se pode comer algo leve e ir para casa. Normalmente não há nenhum desconforto, mas podem surgir dores leves e gases, que somem em poucas horas. Nesse dia, não se deve fazer atividade física nem dirigir, e nem se recomendam tarefas que exijam muita atenção. Se foi feito algum tratamento em lesões, pode haver um leve sangramento nas fezes no dia seguinte.

Fonte: Agência Einstein

COMPARTILHE NAS REDES

Saúde

Perder peso sem um motivo aparente está associado ao maior risco de câncer

Um estudo dos EUA mostra que emagrecer de forma não intencional está associado a maior risco de ter um diagnóstico de tumores; avaliação médica e essencial  

Por Gabriela Cupani, da Agência Einstein

A perda de peso sem nenhuma razão deve ser um sinal de alerta e pode estar associada ao diagnóstico de tumores, reforça um novo estudo do Dana-Farber Cancer Institute, nos Estados Unidos, que foi publicado no Journal of the American Medical Association (Jama).

Sabe-se que os pacientes com câncer costumam perder peso, mas os autores queriam entender se a taxa de diagnósticos da doença era maior entre quem havia emagrecido recentemente de forma não intencional. Para isso, avaliaram dados de mais de 150 mil profissionais de saúde, que foram monitorados por 28 anos. A cada dois anos, os voluntários responderam questionários sobre atividade física e alimentação, o que permitiu aos cientistas analisarem comportamentos que poderiam ser responsáveis pelo impacto na balança. Aqueles que apresentaram uma perda acima de 10% do peso corporal tiveram maior risco de ter um diagnóstico de câncer no período de 12 meses após o emagrecimento. No estudo, a perda foi associada a doenças em estágio precoce e avançado.

Segundo Ludmila Koch, oncologista do Hospital Israelita Albert Einstein, a perda de peso pode ser o primeiro sintoma perceptível do câncer. “Ela está presente em até 40% das pessoas ao serem diagnosticadas, e mais de 80% dos pacientes com câncer avançado perdem peso.”

A médica explica que isso acontece porque a doença provoca a liberação de citocinas pró-inflamatórias e substâncias como a interleucina 6, que são compostos que fazem com que as células do corpo se destruam. Isso pode ocorrer em estágios iniciais, mas é mais comum nos avançados.

 

Quando a perda de peso deve ser uma preocupação? 

A perda de peso saudável envolve a intenção de perder peso, ou uma mudança de hábitos, como o aumento da atividade física e a redução da ingestão de calorias. Ela é considerada preocupante quando há a perda de 4,5 kg, ou 5% do peso corporal, entre seis e 12 meses, e sem motivo aparente.

“A perda de peso, somada ao aparecimento de algum sintoma novo e persistente, como tosse, dor, sangramento vaginal ou retal, cansaço não habitual, dor de cabeça e dor epigástrica (dor na boca do estômago), deve ser um motivo de alerta”, explica a médica.

Ela ressalta que a atenção deve ser ainda maior se a pessoa tiver algum fator de risco para câncer, como tabagismo, obesidade, histórico familiar de câncer, exposição a substâncias tóxicas e ao vírus HPV (papilomavírus humano).

Vale lembrar que há várias condições que podem levar à perda de peso e somente o médico é capaz de avaliar as causas. É o caso de alterações que promovem o chamado estresse catabólico ou inflamatório e um maior gasto energético, como certas doenças pulmonares, hipertireoidismo, doença inflamatória intestinal, doenças infecciosas e parasitárias, diabetes e depressão.

 

Fonte: Agência Einstein

COMPARTILHE NAS REDES

Saúde

Entenda como funciona o novo imunoterápico do SUS para tratar leucemia mais comum em crianças

O blinatumomabe, incorporado à rede pública em dezembro de 2023, demonstrou alta eficácia em ‘zerar’ a doença, aumentando a chance de os pacientes realizarem o transplante de medula.

 

Por Gabriela Cupani, da Agência Einstein

O blinatumomabe, novo imunoterápico utilizado no tratamento da leucemia linfoblástica B (LLA B), apresentou resultados mais eficazes que a quimioterapia enquanto os pacientes aguardam por um transplante de medula óssea. Em junho 2022, a Comissão Nacional de Incorporação de Tecnologias no Sistema Único de Saúde (Conitec), vinculada ao Ministério da Saúde, recomendou a incorporação do medicamento pelo SUS. Agora, em dezembro de 2023, a mesma comissão aprovou o Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas (PCDT) para tratamento da doença em pacientes de até 18 anos (19 incompletos) que sofreram recidiva da doença, ou seja, quando ela reaparece.

Para passar pelo transplante de medula óssea, um procedimento que pode levar à cura, pacientes com LLA B precisam entrar em remissão, ou seja, “zerar” a doença. Enquanto a quimioterapia apresenta uma taxa de sucesso de 54%, o imunoterápico elevou a chance para aproximadamente 90%.

“O medicamento possibilita que esses pacientes possam realizar o transplante que não aconteceria em outro cenário”, diz o oncologista Neviçolino Pereira de Carvalho Filho, presidente da Sociedade Brasileira de Oncologia Pediátrica.

Como funciona?

O medicamento, que já é usado amplamente no exterior, é um anticorpo monoclonal que age estimulando o sistema imunológico. Ele se liga tanto às células cancerosas quanto aos linfócitos T, facilitando o trabalho de reconhecer e destruir o tumor. A droga também tem menos efeitos colaterais que a quimioterapia.

“Vamos poder oferecer para os pacientes pediátricos um tratamento extremamente avançado e eficiente para essa condição na recidiva”, diz o hematologista Fabio Pires de Souza Santos, do Hospital Israelita Albert Einstein.

Novos estudos também já vêm demonstrando bons resultados do blinatumomabe quando usado como medicamento de primeira linha. Um deles, publicado em abril, testou o medicamento associado à quimioterapia em crianças que tinham um tipo muito agressivo de LLA, e constatou um aumento da sobrevida nesses pacientes.

“No Brasil, ele já é usado no setor privado e instituições públicas já vinham usando graças a parcerias com Organizações Não Governamentais (ONGs)”, afirma Carvalho Filho.

A LLA é o tipo mais comum de câncer pediátrico e tem altas chances de cura, mas exige um tratamento agressivo e rápido. Ela ocorre quando há uma mutação nos linfócitos, um tipo de glóbulo branco, que não amadurecem corretamente dando origem a uma célula anômala, chamada blastos leucêmicos. Essas células se multiplicam rapidamente e se acumulam na medula óssea, prejudicando o desenvolvimento das células saudáveis. Alguns dos sintomas são aumento dos gânglios, hematomas pelo corpo, sangramentos nas gengivas e no nariz, entre outros.

Fonte: Agência Einstein 

COMPARTILHE NAS REDES

Saúde

Brasil mapeia atendimento ao câncer infantil para detectar gargalos que impedem assistência adequada

Faltam dados sobre condições de assistência a pacientes de até 19 anos; iniciativa vai trazer informações precisas de todas as instituições que atendem crianças com a doença no país para identificar como melhorar diagnóstico, acesso a exames e tratamento adequado.

Por Gabriela Cupani, da Agência Einstein

Apesar de o câncer ser a principal causa de morte por doença entre crianças e adolescentes até 19 anos no Brasil, ainda não se sabe exatamente qual o padrão de atendimento que esses pacientes recebem. Um panorama preliminar mostrou que há escassez de oncologistas e dificuldades no acesso a medicamentos, além da fragilidade na atuação de algumas instituições de apoio que acolhem as famílias durante o tratamento.

Esses são alguns dos primeiros resultados de um levantamento inédito, conduzido pela Sociedade Brasileira de Oncologia Pediátrica (Sobope) e pela Confederação Nacional de Instituições de Apoio e Assistência à Criança e ao Adolescente com Câncer (Coniacc). O projeto busca novas informações para compreender o cenário nacional do câncer infantil, a partir da avaliação da situação do diagnóstico, do tratamento e do suporte ao paciente e a sua família.

“Observamos que muitas crianças chegam com a doença avançada, ou não conseguem realizar os exames e o tratamento no tempo certo. Também há dificuldade de acesso a exames essenciais para estabelecer o estadiamento da doença, essencial para definir a melhor terapia”, afirma o oncologista presidente da Sobope, Neviçolino Pereira de Carvalho Filho.

O câncer infantil representa cerca de 3% do total de tumores, sendo que os mais comuns são leucemias e linfomas e tumores do sistema nervoso, e tem algumas características distintas das observadas em adultos. Segundo o Instituto Nacional do Câncer (Inca), são estimados 8.460 casos novos e 2.425 mortes de pacientes com até 19 anos para 2024. Com diagnóstico precoce e tratamento correto, a chance de cura pode chegar a 85%.

Apesar disso, o levantamento mais recente, publicado em 2021 pelo Instituto Desiderata, mostra que quase metade dos adolescentes (43%) é atendida em hospitais não habilitados em oncologia pediátrica. O mesmo ocorre com cerca de um terço dos bebês menores de um ano (30%) e com 24% das crianças e adolescentes até 14 anos – algo que está em desacordo com todas as orientações nacionais e internacionais. Entre os pacientes que não iniciam o tratamento, 40% alegam ser por falta de informação.

“A maior parte dos serviços de saúde não está estruturada com uma equipe especializada, incluindo patologistas, radiologistas, psicólogos, entre outros, nem capacitada para lidar com as intercorrências específicas do tratamento do câncer”, explica Carvalho Filho. Segundo o oncologista, a distribuição dessas instituições é muito desigual pelo país, com maior concentração no Sul e no Sudeste.

Comparação com os EUA

Este cenário contribui para que a taxa de mortalidade por câncer infantil no Brasil seja o dobro da registrada nos Estados Unidos. Nos últimos 20 anos, a taxa americana diminuiu para 20 casos por milhão, enquanto a brasileira permaneceu estável em torno de 44.

“O levantamento trará um relatório minucioso para que possamos gerar ações de melhorias de curto, médio e longo prazo, num movimento tripartite vinculado com políticas públicas”, explica a oncologista pediátrica Carolina Camargo Vince, do Hospital Israelita Albert Einstein e do Instituto do Tratamento do Câncer Infantil, uma das responsáveis pelo projeto.

A primeira fase do levantamento visitou seis centros de tratamento e cinco instituições de apoio. A partir de abril de 2024, o objetivo é ir a todas as instituições do país – 76 centros de tratamento habilitados pelo Sistema Único de Saúde (SUS) e 14 não habilitados, além de uma centena de instituições de apoio, que são fundamentais para evitar o abandono do tratamento.

Fonte: Agência Einstein

COMPARTILHE NAS REDES