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Saúde

Avanço da doença de Chagas evidencia falhas de diagnóstico e tratamento

Relatório revela que a condição tem se espalhado para outras partes do mundo, e o Brasil segue entre os países com maior incidência e casos não identificados

Por Arthur Almeida, da Agência Einstein

Causada pelo parasita Trypanosoma cruzi e transmitida principalmente pelas fezes do inseto conhecido como barbeiro, a doença de Chagas é considerada um dos maiores desafios parasitários do continente americano. No Brasil, políticas públicas robustas e décadas de pesquisa ajudaram a controlar a transmissão aguda, hoje restrita a áreas endêmicas do Norte e do Nordeste. Mas a melhora nos métodos diagnósticos revela um segundo problema: a quantidade de casos crônicos que permanecem sem assistência clínica e tratamento.

Até 2023, foram diagnosticados 17.049 casos crônicos de doença de Chagas no Brasil, segundo o Sistema de Informação de Agravos de Notificação (SINAN), do Ministério da Saúde. Mas esse dado provavelmente não reflete a realidade, já que ilustra apenas os episódios detectados e submetidos em formulário eletrônico ao sistema de saúde. Uma pesquisa publicada no início de novembro na revista The Lancet Infectious Diseases, baseada no último levantamento Global Burden of Disease (GBD), revela o tamanho dessa lacuna. O documento estima que, há dois anos, havia cerca de 10,5 milhões de pessoas com a doença de Chagas no mundo. Desse total, quase 4 milhões (38%) estavam do Brasil.

Esse fenômeno pode estar relacionado ao fato de a condição clínica da doença de Chagas não ser abordada com profundidade nos cursos de medicina mais generalistas, dificultando seu reconhecimento em consultório.

“A doença de Chagas é traiçoeira”, afirma a parasitologista Marta de Lana, professora emérita da Universidade Federal de Ouro Preto (UFOP), em Minas Gerais. “Para olhares não treinados em doenças tropicais, a maioria dos seus sintomas na fase aguda ou inicial pode ser confundida com infecções agudas causadas por vários outros agentes, tais como bactérias, vírus e parasitas, já que incluem febre, dor de cabeça, mal-estar, edema e fraqueza.”

Um dos únicos sinais clínicos que difere a doença de Chagas de outras condições agudas iniciais é a presença do “sinal de Romaña”, um edema indolor que se forma ao redor de um ou dos dois olhos. Esse inchaço ocorre quando o contato com o protozoário Trypanosoma cruzi ocorre na mucosa ocular. Outra evidência visível é a manifestação do chagoma de inoculação, uma formação cutânea saliente, endurecida e avermelhada, sem pus, que surge onde o vetor transmissor, o barbeiro, picou a pele e o parasita foi eliminado nas fezes ou na urina durante a sucção sanguínea do inseto.

“O médico que nunca teve contato com um sinal de Romaña pode achar que se trata de uma conjuntivite bacteriana, cujo tratamento não ajuda a conter o quadro de Chagas”, aponta Marta de Lana. “O perigo está no fato de que, assim como o chagoma de inoculação, ele tende a desaparecer após cerca de 10 dias e, a essa altura, a infecção pode já ter se multiplicado e migrado para outras partes do corpo.”

Os riscos da doença crônica

Quando não tratada corretamente na fase aguda, a doença evolui para um quadro crônico. Nesses casos, durante três décadas ou mais, a maioria dos indivíduos deixa de apresentar sintomas, mas ainda pode transmitir o parasita via transfusão de sangue, transplante de órgãos e até na gestação ou durante o parto.

Na fase crônica ou tardia, assintomática, o protozoário pode não aparecer nos exames de laboratório mais comuns. Daí a importância do diagnóstico precoce. “Com o avanço dos métodos diagnósticos, tornou-se mais fácil detectar a fase aguda da doença, que antes passava despercebida com maior frequência”, observa o infectologista Luis Fernando Aranha Camargo, do Einstein Hospital Israelita.

O diagnóstico pode ser feito a partir de exames de sangue pesquisando anticorpos anti-Trypanosoma cruzi. Eles incluem o teste imunoenzimático (ELISA), o teste de imunofluorescência indireta (IFI) e o teste de hemaglutinação indireta (HAI). Outra opção é o exame de Reação em Cadeia da Polimerase (RCP), que pesquisa o DNA do parasita no sangue do paciente, é mais sensível e tem sido cada vez mais empregado.

“Os testes de RCP não estão disponíveis em todos os centros de saúde, sendo restritos a laboratórios especializados”, pontua Camargo. “Por sua vez, a sorologia encontra-se amplamente acessível na rede pública e privada, e é o recurso de diagnóstico recomendado pela Organização Mundial da Saúde (OMS).”

Quanto mais rápido o diagnóstico, melhores são as chances de cura da doença de Chagas. Isso ainda evita complicações no coração (insuficiência cardíaca, arritmia, parada cardíaca e morte súbita); megacólon, dilatação e alongamento anormais do intestino grosso, que causa prisão de ventre; e megaesôfago, dilatação do esôfago, que causa o estreitamento da passagem do alimento para o estômago e dificulta comer alimentos sólidos.

Os tratamentos existentes não mudaram desde a década de 1970. Ainda hoje, o antiprotozoário benznidazol, que está disponível no Sistema Único de Saúde (SUS), é considerado o medicamento mais eficaz, quando comparado a novos compostos e substâncias. O princípio ativo é transformado por enzimas do próprio parasita e forma radicais livres tóxicos que danificam o DNA do agente infeccioso, levando-o à morte.

“Numerosos estudos têm demonstrado que tratar pacientes com o benznidazol na fase crônica tardia assintomática também pode curar e trazer benefícios clínicos, reduzindo a ocorrência de alterações cardíacas, melhorando a qualidade de vida e aumentando a sobrevida”, destaca Lana. O Consenso Brasileiro em Doença de Chagas de 2015 recomenda que o tratamento seja administrado a todo paciente com diagnóstico confirmado.

Problema para além da América Latina

Embora a doença de Chagas seja historicamente associada à América Latina, ela tem se tornado mais comum em outras partes do mundo. Um estudo publicado em agosto no periódico Emerging Infectious Diseases aponta que barbeiros infectados com T. cruzi já foram identificados em 32 estados do sul dos Estados Unidos. Em oito deles, confirmou-se a ocorrência de casos autóctones.

Mas como áreas que, até então, não eram endêmicas passaram a ser atingidas por esse parasita? A resposta esbarra em fatores sociais, políticos e ambientais. “As mudanças climáticas têm papel importante nesse cenário, pois alteram o comportamento dos vetores e favorecem a expansão do barbeiro para novas áreas”, analisa o infectologista do Einstein.

O aumento da temperatura acelera o metabolismo dos barbeiros, o que aumenta sua necessidade de alimentação ou repasto sanguíneo. Na prática, isso provoca a aceleração do ciclo de vida desses insetos e uma maior oviposição (depósito de ovos para reprodução), ou seja, sua população aumenta.

“Além disso, o desmatamento, os incêndios florestais e a urbanização desordenada também contribuem para a reemergência e disseminação da doença”, aponta Luis Camargo.

Quando desalojados, os barbeiros tendem a se aproximar das habitações humanas. Esses insetos costumam se abrigar em galinheiros, engenhos e moinhos, por serem atraídos pelo sangue dos animais domésticos. Com isso, galinhas, cachorros, gatos e outras espécies podem se tornar hospedeiros ou reservatórios dos protozoários.

Outro fato que ajuda a explicar a disseminação do parasita para áreas não endêmicas e o aumento de casos em regiões da Bacia Amazônica é a popularização do açaí. Os barbeiros costumam viver nos troncos e nas folhas das palmeiras de onde esse fruto é extraído. Os insetos podem ser amassados no processo de preparo da polpa. Se o produto não for devidamente pasteurizado, o protozoário não morre e pode ser transmitido durante o consumo. O fato de a polpa ser congelada tampouco evita a contaminação.

Por fim, também entram na conta os fluxos migratórios de pessoas de países endêmicos para não endêmicos. “Os Estados Unidos foram uma das primeiras nações a se preocuparem com a transmissão da doença de Chagas em seu território, e um dos motivos para isso está justamente no seu grande volume de imigrantes latinos”, destaca a docente da UFOP.

Atualmente, vários países da Europa também têm casos de Chagas, bem como da Ásia e Oceania. Uma preocupação é que, em territórios não endêmicos, a infecção se propaga por mecanismos de transmissão que não dependem dos insetos vetores. Além disso, as autoridades de saúde nessas regiões tendem a não executar as mesmas medidas de controle do que em nações já acostumadas a esses casos. O Brasil, portanto, tem muito a compartilhar.

Exportação de conhecimento

Com o cenário global de disseminação da doença de Chagas, o Brasil pode ajudar no combate ao problema. “Já não vivemos a situação precária de tempos atrás. Ao longo dos anos, reunimos um conjunto de estratégias de controle do T. cruzi, muitas das quais já se provaram eficientes”, frisa a parasitologista.

A mudança nas condições de moradia nas áreas endêmicas foi decisiva para esse cenário. Um exemplo prático foi registrado em um estudo publicado em 2009 na Revista da Sociedade Brasileira de Medicina Tropical, que avaliou a efetividade do Programa de Controle da Doença de Chagas na cidade de Berilo (MG), no Vale do Jequitinhonha, após oito anos de vigilância epidemiológica iniciada em 1997.

O levantamento inspecionou 5.242 casas e 7.807 anexos, e verificou que apenas 391 desses espaços apresentavam condições propícias à presença do barbeiro. Graças a investimentos públicos em programas habitacionais, onde outrora encontravam-se construções em alvenaria ou adobe com reboco, passaram a existir residências com paredes lisas e pintadas, telhados adequados e estruturas mais modernas.

Para Marta de Lana, a combinação de urbanização e vigilância contínua é uma das principais lições que países afetados pela expansão recente da doença podem tirar. Por aqui, a atenção atualmente se concentra menos no interior das casas e mais no seu entorno, onde ainda podem existir esconderijos para o vetor. Na ocorrência de qualquer detecção do inseto, seja pelo morador ou pelos agentes de saúde, uma nova borrifação de inseticida deve ser realizada.

A orientação é manter os quintais limpos e livres de entulho. Esse cuidado também é eficiente contra outros tipos de doenças transmitidas por insetos, como dengue, zika e chikungunya, além de pragas como escorpiões.

Fonte: Agência Einstein

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Saúde

Mudar hábitos pode prevenir até 60% dos casos de câncer de fígado

Documento internacional alerta para crescimento alarmante da doença e defende ações urgentes de prevenção e tratamento

Por Gabriela Cupani, da Agência Einstein

Um relatório recente da Lancet Commission sobre carcinoma hepatocelular, principal tipo de câncer de fígado, revela que até 60% dos casos da doença poderiam ser prevenidos com o controle de fatores de risco como obesidade, hepatites B e C e consumo excessivo de álcool.

O câncer de fígado é hoje o sexto tipo de tumor mais comum no mundo, mas já ocupa a terceira posição entre as principais causas de morte por câncer. Segundo o levantamento, o número de novos casos deverá quase dobrar até 2050, saltando dos atuais 870 mil diagnósticos anuais para cerca de 1,5 milhão nas próximas décadas.

Diante desse cenário, o relatório propõe metas globais para conter o avanço da doença. Entre as recomendações estão a ampliação de campanhas de conscientização sobre os fatores de risco, o fortalecimento de programas de vacinação e diagnóstico precoce para hepatites virais, além da melhoria no acesso a tratamentos eficazes.

Atualmente, as principais causas do câncer de fígado são as hepatites virais B e C, o consumo excessivo de álcool e a esteatose hepática, condição caracterizada pelo acúmulo de gordura no fígado.

Esse câncer costuma surgir, em sua maioria, em pacientes que já têm ou tiveram outras condições hepáticas.

“No passado, a maioria dos casos estava relacionada à hepatite C ou à cirrose causada pelo consumo excessivo de álcool. No entanto, com a ampliação dos programas de prevenção — como a testagem de sangue antes de transfusões — e a incorporação de tratamentos altamente eficazes contra a hepatite C no SUS, esses casos têm se tornado menos frequentes”, explica o oncologista Diogo Bugano, do Einstein Hospital Israelita.

Em contrapartida, os diagnósticos associados à esteatose hepática vêm aumentando, impulsionados principalmente pela alta nos índices de obesidade. O estilo de vida não é o único fator determinante, mas também influencia. “Sabemos que obesidade, diabetes, tabagismo e consumo de álcool aumentam o risco de sua ocorrência”, adverte o gastroenterologista e hepatologista Guilherme Felga, também do Einstein.

Segundo Felga, com tratamentos altamente eficazes para a hepatite C e vacinas disponíveis para a hepatite B, a tendência é de que essas doenças percam relevância nos próximos anos como causas de cirrose e câncer de fígado. Por outro lado, é provável que a esteatose hepática passe a ser a principal causa desses tumores.

Sintomas e prevenção

O câncer de fígado surge geralmente de forma lenta, a partir de doenças hepáticas crônicas que podem evoluir para cirrose. Por isso, há uma importante janela para prevenção, com medidas como vacinação contra hepatite B, tratamento da hepatite C, além de hábitos saudáveis — principalmente evitar álcool e tabaco, praticar atividade física e manter alimentação equilibrada.

Por ser uma doença silenciosa, e muitas vezes assintomática até fases avançadas, o diagnóstico precoce depende do reconhecimento dos fatores de risco e da realização periódica de exames de rastreamento, especialmente em pessoas com cirrose ou hepatite B.

“O grande problema é que essas doenças também são silenciosas até fases avançadas, por isso é fundamental ficar atento a pequenos sinais de sua presença ao longo do tempo, quer seja por sintomas às vezes inespecíficos, quer seja por alterações em exames de rotina”, diz Felga.

O diagnóstico precoce do câncer depende da identificação antecipada da cirrose.

“Pacientes com história de consumo frequente de álcool, infecção pelo vírus da hepatite B ou C ou síndrome metabólica devem fazer ao menos uma ultrassonografia de fígado para avaliar risco de cirrose”, orienta Bugano.

Algumas alterações nos exames de sangue podem servir de alerta, como o aumento dos níveis das enzimas hepáticas TGO e TGP e a queda dos níveis de plaquetas. “Em um paciente que sabidamente tem cirrose, o recomendado é realizar ultrassom do fígado a cada seis meses”, adverte Bugano. Quando o diagnóstico é feito em fases iniciais, há possibilidade de cura com a retirada ou destruição completa dos nódulos.

O tratamento do câncer de fígado varia conforme o grau de comprometimento do órgão e o estágio do tumor — considerando tamanho, número de lesões e localização. As opções vão desde procedimentos minimamente invasivos até cirurgia, terapias sistêmicas (como imunoterapia e terapia molecular) e, em alguns casos, transplante. “O desafio é que a maioria dos pacientes tem cirrose e, por isso, o fígado não tolera uma cirurgia ou outros procedimentos agressivos. Para esses, a opção curativa é o transplante hepático”, afirma o oncologista.

Fonte: Agência Einstein

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Saúde

Pela primeira vez em 20 anos, número de fumantes cresce no Brasil

© Divulgação Ministério da Saúde
Proporção de adultos fumantes saltou de 9,3% para 11,6%
Josy Braga – Repórter da Rádio Educadora FM
Pela primeira vez em quase duas décadas, o número de fumantes no Brasil aumentou, quebrando uma tendência histórica de queda. De acordo com uma pesquisa divulgada pelo Ministério da Saúde, a proporção de adultos fumantes nas capitais brasileiras saltou de 9,3% em 2023 para 11,6% em 2024. Um crescimento de 25% em apenas um ano.

Os dados alarmantes reacenderam o alerta entre autoridades de saúde. Para o médico da família e comunidade, Felipe Bruno da Cunha, essa crescente pode estar relacionada à popularização de novos produtos, a exemplo dos cigarros eletrônicos, que atraem, especialmente os mais jovens:

“Eu acredito que tem muita relação direta com as novas formas associadas ao fumo. Porém, na última década, nós vemos um aumento expressivo, principalmente por conta do cigarro eletrônico, o vape. A partir de outros tipos de cigarro, o cigarro de palha, por exemplo. Então, por isso o aumento expressivo”, diz.

A Organização Mundial da Saúde considera o tabagismo uma pandemia, pois é a principal causa de morte evitável no mundo, com aproximadamente 8 milhões de óbitos por ano. O especialista ressalta que mais de 50 tipos de doenças podem ser causadas pelo cigarro, principalmente as cardiovasculares, as respiratórias e também cerca de 10 tipos de cânceres.

“Existem riscos inúmeros associados ao cigarro, não só a dependência química, mas também as complicações físicas”, reitera o médico.

O médico também esclarece sobre os riscos do tabagismo para os fumantes passivos.

“Porque aquelas pessoas que convivem com aquele fumante, têm um risco associado também a doenças crônicas, principalmente, a gente fala da própria correlação, inclusive, de neoplasias, o câncer de pulmão. Então, é muito importante procurar ajuda”, aponta.

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Saúde

Dia Mundial da Saúde Mental expõe crise entre médicos brasileiros

Burnout, depressão e estresse crônico atingem níveis alarmantes entre profissionais da saúde. Pesquisa revela que 45% dos médicos brasileiros já enfrentaram transtornos mentais, índice sobe para 55% no Sudeste

No dia em que é comemorado o Dia Mundial da Saúde Mental (10 de Outubro), uma nova pesquisa acende um alerta sobre a saúde emocional de quem está na linha de frente dos cuidados. Um estudo realizado pela Afya Research & Innovation Center aponta que 45% dos médicos brasileiros apresentam ou já receberam diagnóstico de algum transtorno de saúde mental.

A situação é ainda mais crítica na região Sudeste, onde o índice chega a 55% dos profissionais. Entre as principais condições temos a síndrome de burnout, caracterizada pelo esgotamento físico e mental relacionado ao trabalho, atingindo patamares críticos. Nos últimos 12 meses, cerca de 50% dos médicos em todo o Brasil relataram sintomas da síndrome. O Sudeste segue com um cenário igualmente alarmante, registrando que metade dos médicos da região foi acometida pelo burnout no mesmo período.

A psicóloga da Afya Contagem, Dra. Amanda Alves Ramos Piacente, destaca que o exercício da medicina é uma experiência emocionalmente intensa, que exige preparo técnico, equilíbrio emocional e um elevado senso ético. E que por sua própria natureza, coloca o profissional em contato direto com a dor, o sofrimento, as incertezas e decisões difíceis, sempre sob a responsabilidade de zelar pela vida de outras pessoas.

“Com o tempo, essa pressão se soma a outros fatores: jornadas extensas, plantões longos, múltiplos vínculos, pressão por resultados e um ambiente de trabalho que ainda pode ser bastante competitivo e hierarquizado. Tudo isso contribui para uma sobrecarga física e emocional significativa”.

A especialista ainda ressalta que o burnout é um tipo de esgotamento emocional que se instala aos poucos e que ele não surge de um dia para o outro. É o resultado de uma exposição constante a altos níveis de estresse, sem tempo ou espaço para recuperação.

“É fundamental entender que o burnout não é uma falha individual. Ele é uma resposta humana a um contexto de sobrecarga e de falta de suporte. Por isso, o enfrentamento precisa acontecer em dois níveis: o pessoal, com estratégias de autocuidado, autoconhecimento e equilíbrio e o institucional, garantindo que existam pausas, apoio entre colegas, espaços de escuta e reconhecimento”.

Estresse, depressão e baixa adesão à prevenção

A vulnerabilidade emocional é reforçada pelo quadro de depressão. O surgimento recente da doença entre médicos na região alcança 19% dos casos, um número próximo à média nacional de 20%. Além disso, o estresse é uma realidade para quase 52% dos médicos.

Dra Amanda Piacente, reforça que a sobrecarga contínua impacta diretamente o equilíbrio emocional do médico e isso acontece tanto no plano físico quanto psicológico. “Quando o corpo é submetido a longas horas de trabalho, com pouco descanso, múltiplas demandas e ausência de pausas, ele entra num estado de alerta contínuo. Isso afeta o sono, a alimentação, o humor e até o raciocínio clínico”.

A pesquisa da Afya Research & Innovation Center também evidencia um descompasso entre a necessidade de autocuidado e a prática regular de atividades saudáveis. No Sudeste, apenas 38% dos profissionais declararam praticar atividade física regular, um fator crucial para a saúde mental e prevenção de condições como o estresse e o burnout.

“O autocuidado, na verdade, é o que sustenta a prática médica ao longo da vida. Não precisa ser algo grandioso, são pequenos gestos que fazem diferença: uma pausa entre os atendimentos, uma refeição feita com calma, algumas horas de sono reparador, uma caminhada curta. São atitudes simples, mas que ajudam o corpo e a mente a se reorganizar”, conclui a psicóloga.

Sobre a Afya

A Afya, maior hub de educação e tecnologia para a prática médica no Brasil, reúne 38 Instituições de Ensino Superior em todas as regiões do país, 33 delas com cursos de medicina e 25 unidades promovendo pós-graduação e educação continuada em áreas médicas e de saúde. São 3.653 vagas de medicina autorizadas pelo Ministério da Educação (MEC), com mais de 23 mil alunos formados nos últimos 25 anos. Pioneira em práticas digitais para aprendizagem contínua e suporte ao exercício da medicina, 1 a cada 3 médicos e estudantes de medicina no país utiliza ao menos uma solução digital do portfólio, como Afya Whitebook, Afya iClinic e Afya Papers. Primeira empresa de educação médica a abrir capital na Nasdaq em 2019, a Afya recebeu prêmios do jornal Valor Econômico, incluindo “Valor Inovação” (2023) como a mais inovadora do Brasil, e “Valor 1000” (2021, 2023 e 2024) como a melhor empresa de educação. Virgílio Gibbon, CEO da Afya, foi reconhecido como o melhor CEO na área de Educação pelo prêmio “Executivo de Valor” (2023). Em 2024, a empresa passou a integrar o programa “Liderança com ImPacto”, do pacto Global da ONU no Brasil, como porta-voz da ODS 3 – Saúde e Bem-Estar. Mais informações em http://www.afya.com.br e ir.afya.com.br.

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Brasil e Mundo

Apesar da lei, quase 30% dos cuidadores usam castigos físicos em crianças

© Marcelo Camargo/Agência Brasil
Pesquisa aponta também desconhecimento sobre primeira infância
Bruno de Freitas Moura – Repórter da Agência Brasil
Mesmo com a proibição por lei, 29% dos cuidadores admitem usar palmadas e beliscões em crianças. A Fundação Maria Cecilia Souto Vidigal, em parceria com o Datafolha, realizou a pesquisa Panorama da Primeira Infância. O estudo revela que 13% dos cuidadores usam esses castigos sempre. Além disso, 17% deles acreditam que a violência é uma forma eficaz de disciplinar. No entanto, 12% agridem as crianças, mesmo sabendo que não é um método eficiente.

A Lei Menino Bernardo, ou Lei da Palmada, existe há mais de dez anos. Ela proíbe castigos físicos e encaminha agressores para cursos de orientação. A diretora-executiva da fundação, Mariana Luz, lamenta os resultados da pesquisa. Afinal, a violência física não resolve. Similarmente, ela destaca o senso comum de que “eu apanhei e sobrevivi”. A diretora reforça que a violência não funciona como disciplina.

A fundação cita os efeitos negativos do castigo físico. Agressividade, ansiedade e depressão são algumas das consequências. A pesquisa também mostra que 14% dos cuidadores gritam com as crianças. Em contrapartida, os métodos mais citados foram conversar (96%) e acalmar a criança (93%).

Curiosamente, a pesquisa revelou que a maioria da população desconhece a importância da primeira infância. Surpreendentemente, 84% dos entrevistados não sabem que essa fase é a mais importante do desenvolvimento humano. Apenas 2% souberam definir a primeira infância, que vai até os seis anos, segundo a legislação. Contudo, 41% acreditam que o desenvolvimento acontece na vida adulta.

Mariana Luz defende a conscientização. Ela menciona o economista James Heckman, que provou o retorno financeiro do investimento na primeira infância. Por fim, a pesquisa também aponta que o brincar é pouco valorizado. A sociedade prioriza o “respeito aos mais velhos” acima de outras ações. A diretora finaliza alertando sobre o tempo excessivo de tela das crianças.

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Saúde

Um em cada 9 adolescentes usa cigarro eletrônico no Brasil

© haiberliu/Pixabay
Pesquisa da Unifesp aponta tendência de aumento entre jovens
Leandro Martins – Repórter da Rádio Nacional
Pesquisa da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) divulgada esta semana apontou que um em cada nove adolescentes brasileiros afirma que usa cigarro eletrônico. O estudo ouviu cerca de 16 mil pessoas de 14 anos ou mais, de todas as regiões do país.  

Segundo o levantamento, a quantidade de usuários jovens que usam cigarro eletrônico já é cinco vezes o total daqueles que fumam o cigarro tradicional. A pesquisa utilizou dados de 2022 a 2024 do Terceiro Levantamento Nacional de Álcool e Drogas (Lenad 3). É a primeira vez que cigarros eletrônicos entram no levantamento.

Apesar de o produto ser proibido no Brasil, a coordenadora da pesquisa e professora de psiquiatria da Unifesp, Clarice Madruga, ressalta que é muito fácil comprar o aparelho pela internet, o que amplia o acesso.

Outro problema, aponta a pesquisadora, é o risco à saúde, já que a inalação de substâncias altamente tóxicas, como a nicotina, é muito maior no cigarro eletrônico, se comparado ao cigarro tradicional. Clarice lamenta o retorno do crescimento do uso de cigarro, após o sucesso de políticas antitabagistas, iniciadas na década de 1990, que tinham freado o consumo.

“A gente teve uma história gigantesca de sucesso de políticas que geraram uma queda vertiginosa no tabagismo, mas que um novo desafio quebrou completamente essa trajetória. E a gente hoje tem um índice de consumo, principalmente entre adolescentes, muito superior e que está totalmente invisível”, afirma. 

Os participantes ouvidos no estudo receberam a opção de serem encaminhados para tratamento no Hospital São Paulo e no Centro de Atenção Integral em Saúde Mental da Unifesp.

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