João Pedro Pazinatto Arake

João Pedro Pazinatto Arake

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Águas passadas movem moinhos

Na grande maioria, as estátuas são utilizadas para simbolizar o poder, a honra, o mérito ou a importância de um cidadão. No dia 07/06, em meio a protestos antirracistas, a estátua do mercador de escravos Edward Colston foi vandalizada na cidade de Bristol, Inglaterra, além de ser jogada nas águas do rio Avon, que corta a cidade, por protestantes. Tal evento causou um efeito social, o qual resultou em diversas estátuas sendo depredadas em vários países, como a de Cristóvão Colombo em Richmond, Estados Unidos, e suscitou uma discussão: a existência dessas estátuas representantes de indivíduos outrora honrados deve acabar? Não entrarei no aspecto do vandalismo e se ele é positivo ou negativo, mas sim atento-me ao fato do revisionismo histórico proposto.
Em tempos os quais há o entendimento do horror causado em outras épocas, não há espaço para o enaltecimento de indivíduos que contribuíram para estruturas como a escravidão ou qualquer preconceito. Certas pessoas acusam a retirada das estátuas de "anacronismo", ou seja, julgarmos com os olhos de hoje uma estátua que, quando feita em sua época, não representava maldade sequer. Embora o argumento tenha sua lógica, ele não explica o porquê de mantermos nos dias de hoje uma estátua de um escravocrata. Devemos compreender a normalização da escravidão em certa época, mas repugná-la, e não enaltecê-la. Há um problema na balança moral da pessoa que defende a manutenção atual da estátua em praça pública, de modo que ela permaneça como símbolo de engrandecimento. Tais objetos não são colocados por acaso, eles representam o pensamento eurocêntrico e racial determinante na construção da história até então.
Não cabe apenas aos historiadores (embora sejam eles os escritores e determinantes da história, preocupados com a veracidade) a mudança de visão em relação a um período ou indivíduo, mas também ao povo. Ele possui participação fundamental na revisão histórica. Compreender horrores passados, genocídios calados e preconceitos enraizados faz parte da apreensão da população perante sua história. Não há a possiblidade de silêncio para o genocídio indígena promovido pelas nações colonizadoras, ou para a escravidão e seu fruto, o racismo, ou para o machismo e o patriarcado como estruturas sociais que calaram várias gerações de mulheres – e até homens. Deve haver a defesa de uma revisão histórica que influencia os dias de hoje, como essa feita com estátuas ou monumentos. Portanto, não há a mínima possibilidade de defesa de um revisionismo falso, que não possui a mínima responsabilidade com os fatos. É fato que a Inquisição Católica perseguiu e matou muitos indivíduos, além de ser fato os horrores e atrocidades da escravidão, e a censura e assassinato dos inimigos do Estado na Ditadura Militar. O que não é fato é o nazismo ser de esquerda.
Uma possibilidade seria essas estátuas se estabelecerem em museus, os quais dariam a oportunidade do diálogo entre o passado e o presente, de modo que tenhamos repulsa por essa parte da nossa história, mas jamais esqueçamos que ela existiu. Possuo medo quando os monstros são empurrados para debaixo do tapete do esquecimento. E uma dica final: que não sejam feitas mais estátuas. Há outras formas de enaltecimento. Além disso, as pessoas são complexas e, muitas vezes, contraditórias. Dificilmente olharemos para o passado e encontraremos alguém que merece ser 100% homenageado.

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