Jair Fini

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Os nossos calos

Dizem que quase todos nós temos os nossos calos e só cada um sabe onde ele dói. Eu não me refiro à calosidade dos pés, causado pelo endurecimento da pele, devido ao uso frequente de calçados e sim àquelas pessoas que incomodam as nossas vidas. Se fizermos um retrospecto das nossas existências poderemos enumerar com quantos calos já lidamos e quantos ainda teremos de lidar.  Quando namoramos os calos querem conquistar as nossas namoradas, no nosso trabalho querem os nossos cargos, se somos vendedores querem os nossos clientes. Parece que os nossos calos nos invejam o tempo todo e querem a todo custo tudo o que temos de melhor e preferencialmente os nossos lugares.

Muitos calos parecem repórteres, querendo saber de tudo sobre nós, outros são os nossos inimigos declarados ou não. Esses calos vasculham as nossas vidas, querem saber das nossas coisas, das nossas intimidades, o quanto ganhamos, e ai de nós quando descobrem algum segredo revelador e comprometedor, certamente nos atiram ao inferno. Historicamente quase todos os grandes homens tiveram os seus calos declarados em vida, Getúlio Vargas teve o famoso calo Carlos Lacerda, Fernando Henrique Cardoso teve o Lula e vice-versa, esse foi um primor, um caso quase raro de calo recíproco.

O pior é que não adianta mudar de profissão ou lugar, onde quer que você vá, o calo vai atrás. É como se mudasse de sapato, ele muda de lugar e continua a pegar de outro jeito. O calo não respeita tempo, sexo, lugar ou nível social. Muitas vezes não percebemos na primeira impressão, mas ninguém é imune, quase todos temos pelo menos um em tempo integral. Por mais estranho que possa parecer, muitas vezes somos também calos de alguém e às vezes nem imaginamos. Quando nos tornamos especialistas em algum assunto, inevitavelmente nos tornamos calo para alguém. Podemos ser calos até de professores em salas de aulas. Existe nesse caso um lado bom, vai obrigar o importunado a se atualizar, caso contrário ele  poderá até perder o seu lugar para um suposto calo ou passará vergonha por ter parado no tempo, porque o calo sempre pega mais, quando “a fila não anda”. 

Normalmente existem calos para as pessoas que tem igual profissão. Por exemplo, um ator é sempre incomodado por outro ali na mesma peça, dependendo do desempenho do seu personagem. Também sabem mais das nossas qualidades e defeitos as pessoas que tem as nossas mesmas aspirações e vocações. Por exemplo se você não toca violão, não dá muita importância para quem toca, mas se você começar a aprender a tocar, vai apreciar ou invejar as qualidades de quem toca mais que você.   

Muitas vezes existe a dor do calo amigo, quando pode ser o seu cunhado que debocha quando o seu time perde, ou aquele suposto amigo que espalha os seus mais bem guardados segredos aos quatro ventos. Muitas vezes é o seu filho viciado, é um calo que não lhe deixa dormir.  Às vezes o calo nem lhe deixa mentir, é a sua ex-mulher que vai atormentá-lo pelo resto da vida, mesmo você torcendo de coração para que ela seja feliz.  Mas a pior notícia é quando você descobre, que o maior calo para você é você mesmo. Quando isso acontece é porque o estrago foi grande, você permitiu que lhe fizessem isso, aí vai precisar de um bom profissional para lhe ajudar, sem ser podólogo é claro. Remover calos não é fácil, muitos ficam para a história, principalmente se você for uma autoridade e o seu calo também.