Jair Fini

Jair Fini

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Invento e fato surreal

Outro dia sonhei que Brasil e Rússia criaram um grupo de trabalho com cientistas dos dois países. Deveriam inventar um aparelho batizado de “alémshovisk”.  Após anos de pesquisas nesse projeto inédito, esses cientistas criaram finalmente o aparelho que permitiria que se falasse com pessoas falecidas há muitos anos.  

A notícia correu o mundo, todos querendo saber desse invento e comprar o aparelho. Dá para imaginar a possibilidade de se falar com os nossos ancestrais gravando ou até na presença de testemunhas? Conseguir até reverter o testamento ou saber a razão pela qual fomos excluídos e não herdarmos um único real do nosso falecido pai? E quantas inúmeras dúvidas agora poderiam ser esclarecidas, artes completadas como as sinfonias de Beethoven, complementos de rascunhos de livros, pinturas e milhares de outras coisas, tudo porque os seus autores sofrendo mortes súbitas não tiveram tempo hábil de completá-las e que agora ao terminá-las poderiam até mudar o rumo da história?

Muitas empresas se interessariam em fabricar o equipamento e vendê-lo ao mundo. Seria o maior invento pós-túmulo, beneficiaria até fantasmas, eles diriam o que os afligem e assim poderiam descansar em paz. Muitos enigmas seriam elucidados, crimes como os do Jack o estripador, a origem do dinheiro na cueca e outras facetas mas.  Dá para imaginar um invento desses nas mãos do ex-juiz Sergio Moro ou na equipe da lava a jato? Certamente corruptos falecidos fariam delações premiadas, para terem suas penas reduzidas na eternidade e seus cadáveres poderiam ser transferidos ao Cemitério Cadeia da Policia Federal em Curitiba.

Para mostrar o aparelho inovador, os cientistas inventores convidaram pesquisadores do mundo inteiro e marcaram dia, hora e local em Moscou, na acrópole da Muralha do Kremlin onde está sepultado o ex- líder soviético Vladimir Lênin. Os jornalistas de todos os países se acotovelavam naquele empurra-empurra para registrar o importante evento do invento, ao vivo para todo o mundo.  

Naquele inverno congelante russo a cerimônia teve início com todas as pompas com centenas de cadeiras ao ar livre. Na hora prevista após um pronunciamento os renomados cientistas introduziram cuidadosamente dentro da sepultura, parte do aparelho parecido com um microfone a fim de conversar com o esqueleto de Lênin sob a lápide.

Logo após fizeram uma pergunta para sacramentar a eficácia do invento frente à comunidade científica. Houve um silencio geral, não se ouvia uma mosca sequer, só o barulho da neve caindo, e a pergunta escrita por brasileiros sócios do projeto, foi dirigida ao defunto por um interprete o qual perguntou em russo ao Lênin:

- Lênin o que você achou da postura de Jair Bolsonaro, dele ter gasto em suas férias de 7 dias entre São Paulo e Santa Catarina a bagatela de dois milhões e duzentos mil reais, pagos com o cartão de credito do governo federal?

Todos continuavam em silencio aguardando a resposta. De repente ouviram pelo aparelho um barulho esquelético seco e infernal vindo de dentro da sepultura, alguém ali de fora disse bem alto em inglês: “Is Lenin turning arond in the coffin”, traduzindo “é o Lênin se virando no caixão”, e em seguida ouviu-se a voz sepulcral daquela múmia centenária de um ditador comunista, traduzida de russo ao português com todas as letras:

- Por Deus, a Constituição Brasileira permite isso?

Dito isso todos aplaudiram em pé, não sei se foi pela resposta ou pelo fascinante invento e eu com o barulho acordei, pensando na lógica republicana dita por um ditador comunista.