Fabrício Bizarri

Fabrício Bizarri

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109 anos de Vida e Música de Adoniran Barbosa

Por volta de 1880, devido a catástrofes ocorridas na Itália, em especial na região de Cavarzere, no Vêneto italiano, um grande número de camponeses optou pela saída do país. Então, em 1895, Fernando Rubinato e Emma Richini, ainda jovens, decidiram também mudar de ares, se somando aos milhares de imigrantes nas lavouras de café de São Paulo.
Desembarcando no Brasil e viajando até São Paulo, foram encaminhados para a cidade de Tietê, onde tiveram uma estada rápida, com tempo suficiente apenas para o nascimento da primogênita Antonia Helena, em 1896, pois Fernando já insatisfeito com o trabalho, resolveu aproveitar uma oportunidade vinda de um lugar chamado Valinhos, que acabava de ser elevado à categoria de distrito de paz, em 28 de maio.
Oportunidade esta gerada pela fábrica José Milani & Cia, fundada pelo comerciante italiano José Milani, que estava iniciando a fabricação do sabonete Gessy, em seu novo barracão próximo à Rua 7 de Setembro, seu antigo armazém de secos e molhados.
Os Rubinato foram bem recebidos pelos Milani, onde se instalaram no bairro do Lenheiro, e retribuíram o gesto da acolhida, oferecendo a pequena Antonia Helena para ser apadrinhada por José Milani, o que tornaria a relação entre patrão e empregado numa relação entre compadres. Então, após o nascimento dos herdeiros, Francisco I (morto ainda criança), Francisco II, Alice, Ângelo e Ainez, na virada do século XIX para o XX, Fernando se desentenderia com José Milani, o que obrigou-o a fazer alguns bicos pela cidade. Após algum tempo, obteve nova oportunidade de emprego, desta vez na Olaria de Francisco Spadaccia, próximo à porteira da linha do trem.
Foi então que, aos 06 de agosto de 1910, pelas mãos da única parteira da cidade de Valinhos na época, dona Augusta Antoniazzi, nasceu João Rubinato, o sexto e último filho do casal de imigrantes italianos, que na sua infância, desfrutava muito das águas do ribeirão dos Pinheiros e também brincava com os amigos nos pátios das olarias, com suas bolinhas de meia, entre um mergulho e outro. Já aos domingos, a rotina mudava, pois toda a família ia à missa na igreja de São Sebastião.
Já no ano de 1918, após mais um desentendimento de Fernando no trabalho, desta vez com seu patrão Francisco Spadaccia, não conseguindo outro emprego em Valinhos, ele decide partir com toda a família para Jundiaí, ponto de partida da ferrovia que fazia com exclusividade o transporte de café para o porto de Santos, e que oferecia maiores oportunidades de renda.
Depois de Jundiaí, João Rubinato e família ainda passaram pela cidade de Santo André e São Paulo, onde se consagrou Adoniran Barbosa, pelas memoráveis letras de suas composições, na voz de magníficos intérpretes como Demônios da Garoa e Elis Regina, além de suas atuações e interpretações no rádio e no cinema.
Foi uma passagem breve em Valinhos, mas que certamente colaborou bastante para despertar a vocação cultural e artística da cidade. Adoniran guardava Valinhos em seu coração, conforme confidenciava seu amigo, Maximino Parizze, que orquestrou o Grupo Talismã que acompanhava Adoniran em seus shows, e que morou em Valinhos em seus últimos anos de vida.
Então, nesta oportunidade, com a colaboração do livro “Adoniran, uma biografia”, de Celso de Campos Jr., o qual recomendo a todos a leitura e, com a experiência de minha vida cultural inspirada na obra de Adoniran, deixo aqui esta singela homenagem aos 109 anos de nascimento dele que, melhor representa o samba paulista, ainda na atualidade, e que muito contribuiu para a Música Popular Brasileira, nascido orgulhosamente na cidade de Valinhos: Adoniran Barbosa. 

Fabrício Bizarri é Gestor em Políticas Culturais pelo Itaú Cultural, em parceria com a Cátedra UNESCO da Universidade de Girona – Espanha.