Da Redação

Da Redação

Conteúdo relacionado - Autor - Texto Principal

Vidas negras importam

Desde o assassinato do afro-americano George Floyd, em 25 de maio de 2020, após ter sido sufocado por um policial branco, as pessoas conscientes do mundo, soltaram a voz deixando claro que o racismo é uma doença social e como tal precisa ser banido da sociedade. Há muito o negro vem sofrendo com o preconceito e o racismo, fruto da cultura de uma sociedade que o escravizou durante séculos.

No Brasil, último país a pôr fim a escravidão, os resquícios dela ainda permeiam nossa sociedade e nada mais justo e sério do que utilizar o Dia da Consciência Negra, celebrado neste sábado dia 20, para educar e conscientizar as pessoas que nenhum tipo de racismo velado ou declarado em forma de ‘piada’ ou ‘brincadeira’ deve ser aceito ou permitido.

O grito de ‘vidas negras importam’ também precisa ecoar com mais força em Valinhos. Poucos sabem que a antiga vila de Valinhos, que pertencia a Campinas (última cidade a abolir a escravidão) também era formada por grandes fazendas no século XIX e havia nelas centenas ou milhares de escravos que sem o mínimo direito, eram tratados como objetos ou bichos por seus donos.

Nesta edição, estamos publicando alguns anúncios de venda de escravos ou de escravos fugidos, publicados no jornal A Gazeta de Campinas e que fazem referências especificamente a localidades, dentre elas nossa Estação Ferroviária, de onde hoje conhecemos como Valinhos.

É surreal, mas é importante que todos leiam e reflitam, sobre o que se passava com o negro na antiga Valinhos que, após a abolição da escravatura, acabaram simplesmente desaparecendo. Muito de nossa Valinhos de hoje, que tem mais de 125 anos, se deve a estas pessoas que acabaram sendo negligenciadas pela história.

Sobre os anúncios publicados nos jornais desse período, o sociólogo e historiador Gilberto Freire, autor dos livros “Casa-grande & Senzala” e “Sobrados e Mucambos”, escreveu um especificamente tratando desse tema: “O Escravo nos Anúncios de Jornais Brasileiros do Século XIX”. Freyre analisa brilhantemente estes anúncios, revelando neles, dentre outras coisas, as relações que se estabeleciam entre os escravos e seus proprietários. Ali o autor revela ‘ser frequente nos anúncios de escravos fugidos vermos os escravos doentes e com deformidades físicas: “negros de pernas cambaias”, com “pernas tortas pra dentro”, “zambos”, uma infinidade de termos que indicam não só o excesso de trabalho dos cativos, bem como os maus-tratos que recebiam por parte de seus senhores.

Nos orgulhamos da nossa história contada a partir da chegada dos imigrantes italianos, que acontece concomitante com o fim da escravidão. É preciso rever esse lapso em nossa história e corrigi-lo. Inserir o negro no contexto da história local é um ato de reconhecimento de erros passados e olhar para o futuro com a crença numa sociedade voltada para a inserção de todos, no contexto social e com os mesmos direitos e deveres.

Em nossa edição de hoje, trazemos a voz de alguns negros valinhenses que atuam na comunidade para que o racismo e o preconceito de qualquer natureza venha a ser banido da nossa convivência. Conversamos com jovem Josué Roupinha, com a professora Laís Helena Antônio dos Santos, com o senhor Oswaldo Reiner e com a professora Solange Elizabeth Pereira da Silva. A cada um foi pedido que respondesse a quatro questões: Na sua opinião porque as questões raciais e de diversidade ficaram mais evidenciadas nesse momento? Você já sofreu algum tipo de racismo em Valinhos? O que é preciso fazer para pôr fim a questão racismo em nossa cidade? Como indivíduo branco ou negro pode contribuir?

Dar voz aos negros e as minorias é função do jornal. E neste dia da Consciência Negra, quando também acontece a Marcha Zumbi dos Palmares, a Folha de Valinhos, quer dar sua contribuição para a ampliação deste debate. Pois, mesmo com tanta informação, ainda somos surpreendidos diariamente com notícias que nos deixam estarrecidos pela maneira como racistas, antissemitas, homofóbicos tratam seus semelhantes. Isso precisa acabar, pois vidas negras importam.