Alysson Diógenes

Alysson Diógenes

engenheiro eletricista, doutor em Engenharia Mecânica, é professor do Mestrado e Doutorado em Gestão Ambiental da Universidade Positivo (UP).

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Um modernista entre nós

Esta semana o Brasil abriu as comemorações dos 100 anos da Semana de Arte Moderna, uma semana icônica e que mudou para sempre o modo do brasileiro enxergar e encarar a cultura.

Realizada entre os dias 13, 15 e 17 de fevereiro de 1922 no Theatro Municipal de São Paulo, contou com exposição de pintura modernista e apresentações de música e poesia e no seu bojo tinha também o objetivo também de festejar o centenário da Independência do Brasil. Foi assim que a Semana de Arte Moderna acabou se transformando no marco simbólico do modernismo.

Fruto da cidade que nascera para ser metrópole e que sofria forte influência da produção cultural europeia. Inquietos e interessados em criar um movimento organizado pelo desenvolvimento de uma arte mais livre e independente um grupo de artistas e intelectuais dentre eles Anita Malfatti, Mário de Andrade, Lasar Segall, Di Cavalcanti, Heitor Villa-Lobos, Cândido Portinari, Menotti Del Picchia, Victor Brecheret, Oswald de Andrade e Tarsila do Amaral, mudam nossa história.

E nós valinhenses o que temos a ver com isso, você deve estar perguntando. Neste ano, Valinhos era apenas um pequeno distrito de Campinas e ainda tinha sua economia lastreada na produção de café nas grandes fazendas aqui localizadas, mas já tendo o Figo Roxo ganhando espaço.

Como valinhenses diretamente não temos nenhum vínculo direto com aquela histórica semana de 22. Mas naquele ano, logo após a realização da Semana de Artes, um personagem retorna ao Brasil cheio de ideias, após ter concluído o curso de engenharia Armstrong College da Universidade de Durham, na cidade de em Newcastle (Inglaterra) e de cursar o curso noturno de artes da King Edward the Seventh School of Fine Arts. Estamos falando de Flavio de Carvalho (1899-1973), uma figura central no modernismo brasileiro.

O multiartista, engenheiro, arquiteto, cenógrafo, dramaturgo, cronista e ensaísta, chegou a Valinhos no ano de 1926, onde havia comprado as terras da Fazenda Capuava e que colocaria nossa cidade na cena do modernismo ao projetar em 1935 e concluir em 1938 sua casa que se tornaria marco da arquitetura moderna no Brasil.

Embora não tenha participado da Semana de Arte Moderna, Flavio de Carvalho conviveu com seus idealizadores os influenciou e foi influenciado. Foi, juntamente com Di Cavalcanti, Carlos Prado e Antônio Gonçalves Gomide, fundador do Clube dos Artistas Modernos.

Foi ele quem introduziu a arte da performance no Brasil (happening), quando caminhou de saia pelo centro paulistano com famoso traje de verão, influenciando também na moda. No teatro “O Bailado do Deus Morto”, trouxe para os palco brasileiros o teatro visceral. Como pesquisador e escritor escreveu sobre a psicologia das massas após ter realizado a Experiência 2, onde andou no meio de uma Procissão de Corpus Christi, no sentido contrário e de chapéu na cabeça, sendo quase linchado.

Provocador e inquieto, Flavio de Carvalho, foi um artista a frente do seu tempo. Em seu livro “Navegação de Cabotagem”, o escritor Jorge Amado fala do amigo: “Flávio personificava a subversão em marcha, ameaçava a ordem e a moral. Entre os artistas brasileiros foi ele sem dúvida o que mais ousou, estendeu a ousadia ao limite extremo, refiro-me por exemplo aos desenhos da mãe em coma, recordo o escândalo. Foi aquele que levou a pesquisa mais longe, não se limitava nem se deixava intimidar pela crítica, pelo desdém, pelo ataque dos revolucionários profissionais, os de carteirinha. Revolucionário foi ele, Flávio de Carvalho, o artista, o cidadão”.

Flávio de Carvalho morou em Valinhos por quase 46 anos e onde concebeu a maior parte de suas obras. Faleceu no dia 04 de junho de 1973 e legou a Valinhos um patrimônio ímpar da arquitetura moderna, a Casa Modernista da Fazenda Capuava, que há anos clama por restauro e cuidados.

Ao abrir o ano do Centenário da Semana de Arte Moderna, Valinhos tem o dever de reverenciar e referendar a presença do inquieto modernista que ainda hoje influencia artistas, arquitetos, intelectuais, designers de moda, cenógrafos, dentre outros que acreditam que a arte e a cultura são instrumentos de emancipação do ser humano.