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A Crise hídrica e os ensinamentos do passado

No ano de 2013, quando era Vice Prefeito de Valinhos, voltei à Presidência do Departamento de Águas e Esgotos (DAEV) quase 10 anos após minha saída em 2004, sem imaginar as batalhas que me aguardavam. Eu sabia que enfrentaria dificuldades, na medida em que entidades ligadas ao saneamento como o Consórcio Intermunicipal das Bacias dos Rios Piracicaba, Capivari e Jundiaí (Consórcio PCJ) alertavam para os problemas climáticos que influenciariam negativamente a intensidade das chuvas para os anos seguintes. Contudo, o que estava por vir era, na verdade, uma das maiores crises hídricas dos últimos 100 anos. As previsões se confirmaram e as precipitações em 2013, de fato, ficaram abaixo da série histórica.

Antes mesmo que chegasse no período de seca do ano seguinte, montamos uma equipe estritamente técnica dentro do DAEV, formada por funcionários de diversas áreas para discutir e decidir, conjuntamente, sobre o enfretamento da crise que se avizinhava. Assim, ao final de 2013, já tínhamos nossa estratégia de combate toda organizada, prevendo várias ações caso o período das chuvas não se normalizasse até o início de 2014. E como esperado, em janeiro a situação já era preocupante, com baixo índice pluviométrico, calor elevado e o consumo 20% maior. Sem demora, colocamos nosso plano em prática.

No início de fevereiro foi decretado o estado de emergência hídrica, estabelecendo o rodízio no abastecimento, suspendendo o fornecimento de água 2 dias na semana, por 18 horas. Fizemos uma coletiva de imprensa, na qual o então Prefeito Clayton Machado e eu expusemos todos os motivos desta decisão, sobretudo a falta de água já existente nos bairros mais distantes das estações de tratamento. Concomitante ao rodízio, iniciamos uma forte campanha de conscientização sobre o uso racional da água para toda população, em especial nas escolas, igrejas e empresas, realizando palestras em diversos locais, utilizando carros de som nos bairros e fazendo propaganda nos jornais e rádios da cidade.

Mais de 1.200 professores receberam orientações e material sobre a necessidade urgente de economizar. Os prédios públicos, com a obrigação de dar o exemplo, também foram reorganizados para conter o consumo indevido. Aqueles que não se importavam, eram normalmente denunciados pelo 0800 do DAEV ou por fiscais de rua destacados especialmente para este fim, sofrendo pesadas multas por desrespeitar as normas e os demais cidadãos que se sacrificavam em favor do bem comum.

Da estrutura que o DAEV possuía, buscamos a ampliação da Estação de Tratamento de Água (ETA) 2 para que pudessemos tratar 50 L/seg a mais do que tratávamos até então, assim podendo aproveitar toda a captação a que Valinhos tinha direito no Rio Atibaia. Além disso, após análise criteriosa da qualidade das águas, instalamos provisoriamente uma captação no córrego Invernada, retirando cerca de 10 L/seg, bombeando-a para ETA 1, e outra captação no córrego Ponte Alta, também de 10 L/seg, bombeando-a para a adutora João Antunes Dos Santos. O resultado positivo destas ações foi sentido nas semanas seguintes, quando o consumo que estava 20% maior retornou aos níveis anteriores e, posteriormente, diminuiu mais 15%.

Mesmo com a falta de chuvas, os reservatórios internos conseguiram se manter sem secar. Valinhos foi parar nas mídias de todo Brasil como um exemplo a ser seguido, principalmente por sua atuação preventiva. No final de 2014, com a volta do período chuvoso, a situação se normalizou e as medidas de racionamento puderam ser encerradas. Ainda assim, muitas pessoas queriam que elas continuassem tal foi o grau de conscientização e engajamento que a situação enfrentada propiciou. Sem dúvida, o planejamento prévio das estratégias e os esforços de todos foram essenciais para superar a crise hídrica.

Chegando em 2021, percebo que os ensinamentos do passado não serviram de nada para alertar o Poder Público sobre as mazelas provocadas pela falta de planejamento diante de uma nova crise há tempos anunciada. Desde 2017, as mesmas entidades de saneamento que me avisaram lá atrás já destacavam chuvas abaixo da série histórica, em especial por influência do fenômeno meteorológico “La Niña”. Diante disso, quando comparado com outros anos, chegamos no atual período de seca com menor recarga das nascentes e do nível das barragens. Ainda que a captação no Rio Atibaia esteja normalizado, a água de Valinhos ainda depende 40% de seus mananciais internos, cujo volume se encontra em colapso. Basta ver o estado da Lagoa do CLT e das Barragens João Antunes dos Santos e Moinho Velho.

Ainda na minha gestão de 2013/2015 no DAEV, deixamos em caixa recursos suficientes para iniciar uma segunda linha de captação do Rio Atibaia, que certamente traria maior segurança hídrica e menor dependência dos reservatórios locais. Contudo, com o desmonte das equipes técnicas e o sucateamento da estrutura da Autarquia vistos nas administrações seguintes, esta importante obra permaneceu engavetada. Agora, no apagar das luzes da época de secas, o Comitê de Crise Hídrica recentemente criado precisa adotar medidas açodadas e meramente paliativas para tentar levar água ao menos uma vez por semana à casa de diversos valinhenses. Nem mesmo campanhas de conscientização estamos vendo para estancar o consumo irracional que infelizmente ainda se prolifera pela cidade. Neste momento, qualquer ação se mostrará tardia e o que vamos seguir vendo são pessoas sem água. Por isso, clamo ao atual Poder Público Municipal que tire lições de todo este sofrimento com o qual nos deparamos diariamente, delegando ao Comitê a tarefa primordial de planejar, a longo prazo, estratégias para conter as consequências possíveis de novas crises hídricas, as quais têm a tendência de acontecer. Este trabalho árduo não precisa iniciar do zero.

O passado já nos concedeu diretrizes a serem seguidas e que deram certo. Basta coloca-las em prática preventivamente e os frutos serão naturalmente colhidos.

Vereador Luiz Mayr Neto

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