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Série de reportagens Pedaços da Síria em Valinhos – Atentado de perto

A série de reportagens “Pedaço da Síria em Valinhos” chega ao último capítulo tendo como personagem Fareed Hosen. Os olhos foram testemunhas de um atentado contra a escola em que trabalhava e estudava à noite. O episódio colocou um ponto final na vida de amigos que estavam no sétimo andar.
Aliado à ebulição das reivindicações sugeridas pela Primavera Árabe, disputas étnicas e religiosas afloram a sangrenta guerra civil síria. O retrato da divisão religiosa é mostrado no filme “Lawrance na Arábia”, de 1962. A façanha reproduzida no filme levou o poderoso exército britânico a encarar com seriedade a revolta árabe contra o controle do Império Turco-Otomano, aliado dos alemães durante a Primeira Guerra Mundial. Desde a Antiguidade, conquistar a Síria, principalmente a capital Damasco, uma das cidades mais antigas do mundo e ponte entre Oriente e Ocidente, é o suprassumo do fortalecimento político. O domínio da capital da Síria foi fundamental para que os Aliados vencessem a Guerra em 1918.
Sem respeitar as divisões sociais na Síria, antes da invasão inglesa em Damasco em 1917, França e Grã-Bretanha delimitaram suas áreas de dominação com a ajuda de réguas e compassos sob um mapa, em 1915. Na prática, Síria e Líbano ficaram com os franceses e Iraque e Palestina, para os ingleses.
Inspirado neste burocrático contexto social-religioso, Fareed Hosen, de 33 anos, estudava teologia na Escola de Teologia. Dividia as ocupações dos estudos à noite com o trabalho em serviços gerais durante o dia. “Era uma vida simples de funcionário, tranquila, segura, trabalhava sem pressão. Era uma vida de paz”, relembra.
As recordações da evolução dos protestos nas ruas culminaram nos conflitos que começaram no momento em que estava trabalhando. A escola foi atacada várias vezes no início da guerra civil. Em um destes atentados, Fareed estava trabalhando. O alvo dos grupos terroristas foi o sétimo andar, deixando três alunas mortas e outros 15 feridos. Ainda assim, ele concluiu os estudos e se formou em Teologia Islâmica em 2015.
“Nunca imaginei que fosse expandir por toda a Síria. A velocidade dos acontecimentos surpreendeu”, define. Apesar deste relato, Fareed abre a teoria para uma observação e um contexto midiático que se contrapõe às imagens apresentadas sobre a guerra. Para ele, os conflitos tornam-se mais furiosos na propaganda. “A guerra é mais propaganda do que real. Eram poucas pessoas armadas que entravam em aldeias ocupadas”, avalia.
Ele justifica a teoria com uma situação que aconteceu no campo em morava. Um grupo de rebeldes atacou o local e fez um filme com 50 mortos e 70 presos, no entanto, a invasão resultou em três presos.
No caso da Síria, a divisão, que não levou em consideração o complicado e milenar mosaico regional de etnias e religiões, é vista por muitos como base dos conflitos sectários que corroem o país hoje. Mais do que a maioria dos países árabes, a população da moderna Síria, que se tornou independente dos franceses em 1946, é uma frágil teia de comunidades étnicas e sectárias.
Dos 23 milhões de sírios, 90% são árabes, mas também há curdos (9%) e pequenas comunidades armênias, circassianas e turcomanas. Em termos de religião, a subdivisão é mais complicada: 74% dos sírios são muçulmanos sunitas, 16% são muçulmanos xiitas (entre alauitas, drusos e ismaelitas) e 10%, cristãos (ortodoxos, maronitas ou latinos). Junta-se a isso outra subdivisão, a dos clãs familiares, e se tem uma receita para desavenças.
“Essas divisões e conflitos étnicos e sectários vêm por séculos sendo fontes de considerável tensão social na Síria. Pela maior parte do século XX, esses antagonismos foram reforçados pela tradicional dominação econômica dos sunitas nas maiores cidades e pelas percepções a muçulmanos não-sunitas, encarados como heréticos; e acristãos, vistos como colaboradores dos não-sunitas”, explica o historiador Flynt Leverett no livro “Herdando a Síria: o batismo de fogo de Bashar”.
No caso da atual guerra civil na Síria, os grupos rebeldes, segundo Fareed, são financiados pela Turquia, Qatar e Arábia Saudita. Este recurso facilitou no andamento da guerra a infiltração de grupos militares nos campos que começaram a capturar pessoas com pouco estudo para serem coagidas a lutar.
Fareed Hosen se viu obrigado a seguir o caminho de Yehya Mousa. Deixou a esposa e os três filhos e vendeu o carro para comprar a passagem para o Brasil. “O mais triste na guerra é que as pessoas ficam indiferente. Não tinham coragem de tirar um corpo ou ajudar um ferido porque tinham medo de morrer”, finaliza.

DIVISÃO RELIGIOSA

  74%
dos sírios são muçulmanos sunitas

 16%
são muçulmanos xiitas (entre eles alauitas, drusos e ismaelitas)

 10%
são cristãos (ortodoxos, maronitas ou latinos)

DIVISÃO RELIGIOSA

  90%
são árabes

 9%
são curdos

 1%
são pequenas comunidades armênias, circassianas e turcomanas

 

 

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