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Série de Reportagens: Pedaço da Síria em Valinhos – Um mergulho na guerra

Yehya Mousa fala árabe, não entende português. A esposa Zobaidah Oqla, enquanto servia um café árabe e um doce chamado harise conseguia se expressar com o português. A filha Alma assistia televisão dentro da casa alugada por eles há apenas 3 meses e que abriga outros três membros das família que saíram da guerra.
Yehya Mousa tinha uma vida tranquila na Síria ao lado da esposa Zobaidah Oqla e a filha, Alma. Formado em mergulho profissional no Colégio Marítimo da Líbia, trabalhou por quatro anos em países do Golfo, como Catar e Dubai antes de retornar para a Síria. Lá, começou a fazer montagem de piscinas e acabamento de calhas, além de ser professor de natação.
Mousa e a família moravam no Campo de Espena, em Damasco, considerada a capital de país mais antiga do mundo. Escavações comprovam que Damasco tem ocupação contínua de mais de 5 mil anos. Com a guerra, a inflação chega a 247%, impulsionada também com a intervenção norte-americana no comércio. O governo sírio tenta manter o abastecimento de alimentos e regiões que ainda controla, mas encontra dificuldade em produzir trigo, açúcar ou arroz.
A bolha de anormalidade atingiu Mousa, incialmente, diluindo seu emprego e tendo de recorrer às economias. A saída foi aproveitar uma oportunidade aberta pelo Líbano, que se dispôs a receber palestinos. Aqui começa a peregrinação para sair do tsunami provocado pela guerra.
A esposa Zobaidah Oqla conseguiu autorização máxima de três meses para ficar no Líbano ao lado de Mousa. Este prazo máximo permitido por ela ser funcionária pública, já que trabalhava no Ministério das Finanças. Outro impacto sentido por ela foi o tempo em que levava para chegar ao trabalho. O percurso que exigia um tempo de 30 minutos passou a ser de 3h com a criação de pontos de controle pelos grupos rebeldes. Em seus olhos, ficaram fotografadas as marcas do conflito que já deixou mais de 470 mil mortos. “Tinham corpos de civis espalhados no caminho para o trabalho”, lembra Zobaidah Oqla. “Com a guerra, perde-se a segurança e vem o medo e a tensão. A guerra causa perda de tudo o que é construído”, completa.
Em 2010, o parlamento libanês aprovou uma lei que permite os refugiados palestinos trabalharem legalmente no país apenas no setor privado. A normativa restringe que eles atuem no setor público ou sigam alguma carreira, como engenheiro, médico e advogado. Os palestinos também não podem comprar imóveis para evitar residência fixa no país. O uso de hospitais e escolas públicas também é vetado.
Com o aeroporto de Damasco fechado desde o início da guerra, Mousa encontrou como via de escape o espaço aéreo libanês. Após ter autorizações negadas das embaixadas da Dinamarca, Austrália, Canadá e Alemanha, Mousa teve a vinda para o Brasil avalizada.  Desembarcou no aeroporto de Guarulhos em 11 de março de 2014 sem saber o que fazer. Ficou perdido no aeroporto por 24 horas, até encontrar uma pessoa da comunidade palestina que deu o endereço de uma mesquita no Brás, onde ficou por 22 dias. No bolso, carregava 200 dólares.

No período em que ficou hospedado na mesquita, conseguiu um emprego em uma fazenda em Brasília para fazer desenhos nas paredes. Durante os sete meses em que ficou na capital federal, conseguiu trazer a esposa e a filha. No entanto, Zobaidah Oqla não se adaptou ao ambiente e dois meses depois em que ela chegou ao Brasil, mudaram-se para São Paulo.
A volta de Mousa para São Paulo e a primeira vez de Zobaidah Oqla iniciou em Guarulhos. Na segunda cidade mais populosa do estado, o casal alugou uma casa por R$ 600 e ainda precisava arcar com as despesas de luz e água. “Chegamos apenas com a roupa do corpo e não tínhamos onde dormir. Os vizinhos nos ajudavam, trouxeram colchões, cobertores, cama, mesa, cadeiras, geladeira, comida. Levaram-nos para postos de saúde e a nossa filha para a escola”, lembra a esposa de Mousa, Zobaidah Oqla.
Nos sete meses em que morou na casa, Mousa e Zobaidah vendiam lanches e doces árabes. Ele saía à meia-noite e voltava meio-dia. A média de 30 refeições por dia era suficiente apenas para pagar o aluguel da casa.
É aí que Mousa e Zobaidah se confundem com Matogrosso e Joca da Saudosa Maloca de Adoniran Barbosa. Mas enquanto os personagens do sambista foram expulsos de um edifício abandonado após uma reintegração de posse, os palestinos procuraram abrigo em um prédio comercial no bairro da Liberdade. Ocupado por um grupo de sem-tetos que formam o Movimento Social Terra Livre, os alojados recebiam os palestinos que somavam sete famílias que não pagavam o aluguel, apenas dividiam as despesas de luz e água. A venda de comidas árabes dividiu espaço como ajudante de pedreiro por Mousa pelos próximos cinco meses.
A rota de Valinhos entrou na vida de Mousa com ponte do médico da Santa Casa Dr. Abdel Latif Hassan. Ele atende de forma voluntária todas as sextas-feiras refugiados palestinos da Síria que moram no prédio. Em um desses atendimentos, Dr. Adbel notou que Mousa estava doente e precisava ser submetido a uma cirurgia.
A operação aconteceu na Santa Casa de Valinhos e Mousa voltou para São Paulo, mas com a proposta de fixar residência em Valinhos. Amadureceu a ideia por um mês. Em duas semanas, Mousa adaptou a casa em que conseguiu com a ajuda do Dr. Abdel limpando a área da frente, cimentando e criando um espaço para futuramente criar um restaurante de comida árabe.

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