Saúde

Diante da alta de casos, por que é essencial tomar a vacina da gripe

Crescimento nos registros de infecção pelo vírus influenza A acende alerta e reforça a importância de se imunizar contra a doença, capaz de causar quadros graves

Por Lucas Rocha, da Agência Einstein

As estações mais frias do ano são tradicionalmente marcadas pelo aumento dos casos de gripe, infecção causada pelo vírus influenza. A sazonalidade está relacionada ao clima mais seco e a mudanças de comportamento típicas dos meses frios, como a maior permanência em ambientes fechados e pouco ventilados, o que favorece a transmissão.

Entre o fim de março e o início de abril, o Brasil registrou elevação na incidência da doença, embora ainda não haja um consolidado nacional de infecções em 2026. O boletim InfoGripe, da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), indica crescimento dos casos de influenza A, com maior impacto na região Centro-Sul. Segundo o levantamento, até o último dia 4 de abril, mais de 31 mil casos de síndrome respiratória aguda grave (SRAG) já foram notificados neste ano, condição clínica que pode exigir hospitalização. Desses, mais de 13 mil tiveram confirmação laboratorial para vírus respiratórios, incluindo influenza e outros agentes.

“A gripe pode evoluir com febre mais alta e complicações, incluindo infecções bacterianas como sinusite, otite e pneumonia com necessidade de internação, exacerbação de doenças crônicas, evolução para síndrome respiratória aguda grave e óbito, especialmente em grupos vulneráveis”, alerta a médica alergista e imunologista Cristina Maria Kokron, do Einstein Hospital Israelita.

Para reduzir os impactos da enfermidade, a campanha nacional de vacinação é realizada anualmente, a partir do outono, na maior parte do país. Na região Norte, a imunização ocorre no segundo semestre, antes do período de maior circulação viral, que acontece durante o chamado “inverno amazônico” — caracterizado por maior volume de chuvas e aumento de síndromes respiratórias. No caso dessa região, a vacina contém as cepas predominantes no Hemisfério Norte.

Velho conhecido
Apesar de ocorrer desde 1999, a campanha de vacinação contra a gripe ainda é cercada por dúvidas e desinformação. Uma das principais diz respeito à necessidade de tomar a vacina todos os anos. O vírus influenza é um dos agentes infecciosos mais antigos conhecidos pela humanidade. Amplamente disseminado, já provocou grandes epidemias, como a Gripe Russa (1889), a Gripe Espanhola (1918) e, mais recentemente, a pandemia de H1N1 (2009). Hoje, permanece em circulação contínua e associado a quadros leves e graves.

Uma das principais características do influenza é sua alta capacidade de mutação. Esse processo ocorre por dois mecanismos: pequenas alterações genéticas durante a replicação viral e rearranjos mais amplos quando diferentes variantes infectam a mesma célula. Essas mudanças fazem com que o sistema imunológico perca, ao longo do tempo, a capacidade de reconhecer o vírus com eficiência, mesmo em pessoas que já tiveram gripe ou foram vacinadas anteriormente. Daí por que a proteção não é duradoura.

A vacina contra a gripe é reformulada todos os anos justamente para acompanhar essas transformações. Uma rede global de vigilância monitora a circulação e a evolução das cepas e, com base nesses dados, a Organização Mundial da Saúde (OMS) define quais variantes devem compor as vacinas de cada temporada. Ao se vacinar anualmente, a população aumenta a proteção contra os vírus mais recentes em circulação, reduzindo o risco de complicações e formas graves da doença.

Nos últimos meses, uma variante conhecida como gripe K — um subclado do vírus influenza A (H3N2) — tem chamado a atenção de autoridades de saúde em diferentes países. O aumento de infecções associado a esse subtipo acendeu um alerta global, e ele foi identificado no Brasil pela primeira vez no fim de 2025. No início de abril, o Ministério da Saúde informou ter intensificado a vigilância epidemiológica para monitorar a circulação do vírus e suas mutações.

A vacina causa gripe?

 Circulam com frequência boatos de que a vacina contra a gripe poderia provocar a doença ou aumentar o risco de infecção. Isso não é verdade: o imunizante é produzido com vírus inativados e fragmentados, o que o torna incapaz de causar gripe. “As doses para influenza disponíveis no Brasil não têm vírus vivo, ou seja, não têm o RNA, somente uma fração”, detalha o pediatra Alfredo Elias Gilio, coordenador da Clínica de Imunização do Einstein. “Brinco com meus alunos que o vírus está ‘morto e esquartejado’, portanto, é impossível causar a doença.”

Sintomas gripais após a vacinação podem ser causados por outros agentes infecciosos. “Nesta época do ano, circulam diversos vírus com quadros parecidos aos de gripe, que podem ser confundidos no dia a dia. Em geral, o que pode acontecer são casos de resfriado causados por outro grupo de vírus, chamado rinovírus, cujos sintomas são mais leves, como nariz escorrendo, tosse, dorzinha, febre baixa e mal-estar”, pontua Gilio.

Os efeitos adversos mais comuns da vacina são leves e passageiros, como dor, vermelhidão e endurecimento no local da aplicação, geralmente com melhora em até 48 horas. Reações menos frequentes incluem febre, mal-estar e dor muscular. A vacinação é a principal forma de prevenir complicações da gripe, reduzindo o risco de hospitalização e morte.

Quem pode se vacinar pelo SUS?

A vacina contra a gripe ofertada pelo Sistema Único de Saúde (SUS) é produzida pelo Instituto Butantan, em São Paulo. Ela é formulada na versão trivalente — ou seja, com três cepas do vírus consideradas predominantes em circulação no mundo. Cerca de 80 milhões de doses são enviadas ao Ministério da Saúde, responsável pela distribuição aos estados e municípios.

A campanha nacional de vacinação segue até 30 de maio e é direcionada a grupos prioritários definidos pelo Ministério da Saúde, como crianças de 6 meses a menores de 6 anos, idosos com 60 anos ou mais e gestantes. Também estão incluídas pessoas com maior risco de exposição ao vírus ou de agravamento da doença, caso de puérperas, povos indígenas, quilombolas e pessoas em situação de rua.

Profissionais considerados essenciais, como trabalhadores da saúde, professores, integrantes das forças de segurança, salvamento e das Forças Armadas, também fazem parte do público-alvo, assim como caminhoneiros, trabalhadores do transporte coletivo, portuários e funcionários dos Correios.

A estratégia contempla ainda indivíduos privados de liberdade, jovens em medidas socioeducativas e pessoas com deficiência permanente ou doenças crônicas, independentemente da idade. “Em públicos prioritários, a vacina é especialmente crucial para desafogar o sistema de saúde, proteger os mais vulneráveis via imunidade coletiva e minimizar agravamentos em condições pré-existentes, como problemas cardíacos ou respiratórios”, ressalta Cristina Kokron.

Em anos anteriores, diante da disponibilidade de doses, a campanha foi ampliada para toda a população acima de 6 meses, com estados e municípios tendo autonomia para incluir novos públicos conforme o estoque. Por isso, após o encerramento oficial da campanha, é comum que prefeituras anunciem a chamada “xepa da vacina”, abrindo a imunização para mais pessoas.

O imunizante também está disponível na rede privada, com preços que variam entre R$ 75 e R$ 230. Nesses casos, a versão mais comum é a quadrivalente, que inclui uma cepa adicional do vírus influenza B. Mas tanto a vacina oferecida pelo SUS quanto a da rede privada são eficazes na prevenção de casos graves. “A vacina trivalente tem a mesma abrangência de proteção que a tetravalente”, assegura a médica Mônica Levi, presidente da Sociedade Brasileira de Imunizações (SBIm).

Fonte: Agência Einstein

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