Saúde
Apesar dos benefícios, consumo de chocolate amargo também pede cautela
Conhecido por esbanjar compostos aliados da boa saúde, doce com alto teor de cacau deve ser consumido com moderação, segundo nutricionistas
Por Bruno Bucis, da Agência Einstein
Com a chegada da Páscoa, muitas pessoas ficam na dúvida: como aproveitar o momento e comer chocolate sem comprometer o equilíbrio da dieta? A solução mais óbvia costuma ser apostar nas versões amargas do doce, que em geral têm menos açúcar. E de fato, há evidências de que elas sejam melhores para a saúde, mas isso não significa que o consumo sem limites está liberado.
“Estudos recentes mostram que o chocolate amargo, por ter maior teor de cacau, concentra mais compostos bioativos, como os flavonoides e a teobromina, que apresentam propriedades antioxidantes e antienvelhecimento, podendo trazer benefícios”, afirma a nutricionista clínica Jéssica Magalhães Fonseca, do Einstein Hospital Israelita.
Uma pesquisa britânica publicada em dezembro de 2025 na revista Aging analisou especificamente a teobromina, substância presente no cacau que pode ser aliada de um envelhecimento saudável. A investigação usou dados de dieta e exames de 1,6 mil voluntários para avaliar se havia reduções da idade biológica a partir da alimentação, pesquisando especificamente o papel do café e do chocolate amargo, que já haviam sido associados em estudos anteriores a essa “desaceleração” do relógio metabólico.
Os pesquisadores concluíram que a teobromina pode ter um papel importante nesse efeito. O estudo sugere que esse alcaloide encontrado no cacau está associado com a manutenção de telômeros (a ponta dos filamentos de DNA) saudáveis. Essa característica é ligada ao envelhecimento saudável em uma série de estudos.
As propriedades observadas complementam o que se sabe sobre flavonoides e polifenóis presentes no cacau. Em um estudo publicado em 2023 na revista PNAS, 3.500 indivíduos consumiram um extrato de cacau concentrado ao longo de três anos. Os resultados sugerem que o consumo de flavonoides pode contribuir para a melhora da memória a longo prazo, com impacto em funções relacionadas ao hipocampo.
Mas esses achados não se aplicam ao chocolate convencional industrializado. Além disso, o cacau não é a única fonte desses compostos bioativos: frutas vermelhas, chá-verde, café, nozes, linhaça e vegetais como brócolis e couve também os fornecem.
Teor de cacau e moderação
O chocolate pode ter diferentes concentrações de cacau em sua composição, e é isso que influencia seus possíveis benefícios. “Quanto maior for a porcentagem na composição do chocolate, maior tende a ser a concentração dos compostos bioativos e menor o teor de açúcar”, ressalta a nutricionista Letícia do Vale Pires, também do Einstein. “Chocolates com 70% de cacau ou mais costumam ser as opções mais interessantes do ponto de vista nutricional.”
Aliás, essa classificação pode mudar em breve no Brasil. Um projeto de lei (PL 1769/2019) aprovado no último dia 17 de março pela Câmara dos Deputados quer estabelecer limites claros para quanto cacau deve haver em uma barra para classificar o chocolate. Os limites atuais estabelecidos pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) são de ao menos 25% de cacau, mas valem para qualquer receita, exceto chocolate branco, que deve ter 20% de manteiga de cacau.
Com isso, muitas empresas fazem chocolates meio amargos e ao leite com praticamente a mesma proporção de cacau, como revelou uma pesquisa da Universidade de São Paulo (USP) publicada na Food Chemistry em janeiro, quase nunca superando 30% da fórmula. O PL 1769/2019 estabelece que um chocolate intenso tenha no mínimo 35% de sua composição como cacau, alinhado com determinações internacionais. Agora, a proposta está em análise no Senado Federal.
Apesar dos potenciais benefícios, mesmo as versões amargas ou meio amargas devem ser consumidas com moderação. “Uma porção de 20 g a 30 g por dia, o equivalente a um a dois quadradinhos, costuma ser suficiente para aproveitar os compostos bioativos do chocolate meio amargo sem o consumo excessivo de calorias e gorduras”, explica Pires. Uma boa estratégia é escolher produtos em que o cacau apareça como o primeiro item na lista de ingredientes, indicando maior concentração na formulação.
É importante ressaltar, porém, que o consumo pontual, como nas celebrações de Páscoa, não compromete o equilíbrio de uma alimentação balanceada. Na dúvida, converse com seu nutricionista para saber as quantidades e as versões que cabem na sua rotina.
Fonte: Agência Einstein
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