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Com açúcar e com Penélope

Vira e mexe eu acabo implicando com uma feminista ou com alguns feminismos. Recentemente, Chico Buarque afirmou que não iria mais cantar o clássico “Com Açúcar e com Afeto”, música que ele fez para a amiga Nara Leão, que pediu uma música sobre uma mulher sofredora, segundo um depoimento do Chico. Houve uma grita feminista de que a música celebrava um relacionamento abusivo. Para quem não tem idade para entender o debate, a música do Chico é de 1967, e conta a história de uma mulher que, com açúcar e com afeto, faz o doce predileto do marido, para ele parar em casa.

Ele sai para o trabalho, e, na volta de casa, para de bar em bar, puxa assunto de futebol, estica os olhos para as outras mulheres e chega em casa bêbado, pedindo perdão, prometendo que não faz mais aquilo. Ela termina sabendo que ele não vai cumprir a promessa, vai esquentar seu prato e abre os braços para o cachaceiro. Um pesadelo feminista. Ou pior, a realidade de quase um terço de nossos lares, onde um homem de família gera situações de abuso e traumas profundos em esposa e filhos com bebedeiras e abusos alcoólicos e violências de todos os tipos. Todos os tipos.

Se alguém acha que uma música belíssima de Chico Buarque, dos anos sessenta, que tem uma personagem (alô, alô, gente: uma personagem) que perdoa e abraça o homem que chega em casa maltrapilho e maltratado, vai servir de estímulo à resignação e aceitação do abuso, parece uma piada de quem nunca viu isso dentro de um consultório. Talvez a parte da música que mais representa o horror do abuso seja aquela em que a personagem afirma que fez o doce para o marido ficar em casa. A fantasia do Patriarcado, de que a responsável pelo casamento é a mulher e ela que tem que “segurar o marido em casa”, isso sim, gera muito sofrimento e abusos.

A música fala sobre uma fantasia masculina profunda, de ser perdoado e compreendido pela mulher. A fantasia de ter a ferida contida nesse abraço. É para atender essa fantasia? Claro que não. Cresça e apareça, e deixa de ser moleque, rapaz. Mas é uma fantasia.

Uma outra música de Chico, “Mulheres de Atenas”, também foi alvo da militância. Não sei se ele se inspirou em Penélope, mas seria legal se houvesse essa relação. Penélope era casada com Ulisses, rei de Ítaca. Ele partiu para a guerra e a deixou com um bebê de colo para criar. Os generais gregos partem para a guerra com Tróia, e Ulisses é decisivo para a vitória, depois de dez anos. Quando ele tenta voltar para a sua ilha, acaba sofrendo uma infinidade de perdas, derrotas e percalços que o deixam perdido nos mares, sem conseguir voltar para sua amada por mais dez anos. Ninguém sabia seu paradeiro e foi dado como morto.

No decorrer desse tempo, apareceram vários e vários pretendentes, exigindo que Penélope escolhesse um deles como marido. Este seria o novo rei de Ítaca. Essa é a trama de um dos maiores livros já escritos nesse planeta, que é “A Odisseia”. A mãe de Ulisses, Anticleia, morre na angústia de achar que seu filho tinha morrido. E Penélope gastando fortunas com os caras acampados em sua casa, exigindo a sua mão.

O que ela fez para manter os caras esperando sem matá-la, ou a seu filho? Prometeu que estava tecendo um manto para seu sogro, para ele usar em seu leito de morte. Tecia durante o dia e desfazia o trabalho durante a noite. Um trabalho que não acabava nunca. Eu fico particularmente impressionado com essa passagem. O trabalho sem esperança. A única motivação era esticar ao máximo a decisão, para esperar que algo viesse em seu socorro. As pessoas podem falar em Resiliência para Penélope? Ela é a própria definição da resiliência, um termo derivado da engenharia, para materiais resistentes e flexíveis, ao mesmo tempo. Penélope resistia às pressões e tinha jogo de cintura para contorná-las, mesmo em situação de mais profunda desesperança. Resistência e flexibilidade.

Eu considero Penélope um símbolo do que há de mais profundo no Feminino, um feminino combatido, na minha forma de ver, equivocadamente, por alguma militância. O Feminino é a origem e a base de toda a vida. Tudo sai dele. Como tal, é capaz de sustentar a vida seja qual for a circunstância. E a espera.

Quando o seu amado consegue voltar para casa e trucidar os pretendentes folgados, ela se nega a recebê-lo, depois de vinte anos, em seu quarto. Ele entende o cuidado de sua esposa. Ela manda colocar a sua cama fora do quarto. Ele sabe que é um teste. Ele escavou uma árvore imensa para fazer a cama do casal. Ela não pode ser movida. Esse era um segredo que só os dois conheciam. Ele prova que ele é o cara que ela esperava.

No mundo em que todos querem resolver tudo num clique, Penélope representa tudo que temos que esperar, tolerar e tecer para realizar nosso caminho. Sobretudo, representa aqueles momentos de nossa vida em que não há nada a fazer. Só esperar. Um dia de cada vez.

Marco Antonio Spinelli é médico, com mestrado em psiquiatria pela Universidade São Paulo, psicoterapeuta de orientação junguiana e autor do livro “Stress o coelho de Alice tem sempre muita pressa”

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Artigo Aquiles e seu calcanhar

Marco Antonio Spinelli*

O mito do herói grego Aquiles adentrou nosso imaginário e nossa nomenclatura médica: o tendão que se insere em nosso calcanhar foi chamado de tendão de Aquiles em homenagem a esse herói. O significado desse tendão… Bem, vamos contar a história toda. No final, você vai perceber que Aquiles está mais presente em nosso dia a dia do que deveria.

Dizem que os terapeutas dão especial destaque às mães. No caso de Aquiles, o assunto mãe é de grande importância.

Aquiles era filho da mamãe, quer dizer, era filho de Tétis, uma divindade do mar, uma nereida. Dessa forma, Tétis era imortal. Diziam os oráculos que, se Tétis desposasse um deus do Olimpo, teria um filho mais poderoso que Zeus, o senhor dos Raios e o CEO dos deuses olímpicos. Zeus, que não queria fortalecer a concorrência, logo fez a belíssima Tétis se casar com Peleu, um rei de uma região da Grécia. Eles tiveram um casamento legal, mas Peleu se queixava que a mulher se achava uma deusa e ela, no fundo, pensava que podia ter arrumado coisa melhor. Desse casamento, nasceu o belo e loiro Aquiles.

Tétis ficou tomada pela beleza e perfeição de seu filho, mas sabia que ele era mortal. Portanto, ela, uma nereida, nunca morreria, mas seu filho ficaria velho e morreria diante de seus olhos. Aqui que a coisa pega, em toda tragédia grega: a hora em que alguém tenta tapear os deuses para se equiparar a eles. Tétis resolve banhar seu bebê nas águas do Estige, o rio que separava o mundo dos vivos do reino dos mortos. Para segurá-lo, ela pega em seus calcanhares, deixando a parte dos tendões fora do elixir da imortalidade. Aquiles se tornou como um deus, mas com um ponto fraco, humano e mortal, em seus calcanhares.

Quando teve início a Guerra de Tróia, os gregos receberam a previsão que só venceriam os temíveis troianos se Aquiles lutasse ao seu lado. Mamãe Têmis tentou esconder o garoto, mas os gregos o acharam.

Aquiles foi à guerra e causou muito estrago no exército troiano, mas acabou, como muitos caras fora de série, brigando com o chefe, Menelau. Quando foi punido, saiu da guerra e deixou os gregos sofrerem muitos revezes. Quando mataram seu primo e melhor amigo, resolveu voltar a lutar e matou um importante general inimigo, mas tomou uma flechada envenenada em seu ponto fraco. O que sua mãe mais temia, aconteceu, e assim morreu Aquiles.

Nas eliminatórias da Copa de 94, o Brasil estava mal, perdendo da Bolívia na altitude, e com risco de ficar de fora da competição. Romário era nosso Aquiles baixinho, um jogador muito talentoso que poderia fazer a diferença, e, como Aquiles, brigou com a comissão técnica, sobretudo o velho lobo Zagallo. Atendendo o clamor de todo país, o técnico Parreira chamou Romário para o jogo decisivo com o Uruguai. Romário chegou nos braços da torcida e acabou com o jogo. Foi o maior desempenho que ele teve com a camisa amarela. No ano seguinte, também levou o time nas costas para ganharmos aquela Copa. E qual foi seu calcanhar de Aquiles? Justamente a sua péssima relação com o grupo e os treinadores. Nas duas copas seguintes, onde chegamos nas duas finais, Romário foi excluído da covocação. Tem um documentário sobre ele, chamado “O Cara” (como ele se intitulava) onde glorificam esse grande talento que, ao se julgar mais que humano, foi flechado por seus inimigos.

Recentemente, lembrei muito de Aquiles com o caso de um rapaz que, em alta velocidade, transformou seu carro caríssimo num míssil e bateu em um veículo de aplicativo, matando esse trabalhador que estava na luta para colocar comida na mesa da família. O rapaz foi retirado do local por sua mãe, que não deve ser bela como Tétis, mas correu em retirar o filho da cena do acidente. O contraste do carro de luxo, dado provavelmente pela mãe, a direção imprudente, a tragédia e a tentativa de safar o rapaz das consequências, gerou um clamor popular ensurdecedor, até ser decretada sua prisão preventiva.

Tétis tinha uma ferida narcísica de ter casado com um cara que julgava menos do que merecia. Tentou superar a sua inferioridade transformando seu filho em imortal, e o que aconteceu, na mitologia e na vida, foi que sentir-se um ungido esteve na base da tragédia, e da perda. Perdeu-se uma vida e a vida desse rapaz estará sempre marcada pelo ocorrido.

Nessa época de endeusamento de pessoas, de transformação de crianças em estrelas da mídia e de famílias projetando suas frustrações e desejos nelas, é muito bom levar o livro de Mitologia debaixo do braço, para nos lembrar que, se você ignora sua humanidade, pode acabar com uma flecha envenenada no calcanhar.

*Marco Antonio Spinelli é médico, com mestrado em psiquiatria pela Universidade São Paulo, psicoterapeuta de orientação junguiano e autor do livro “Stress o coelho de Alice tem sempre muita pressa”

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Cavalo Caramelo e quando a água baixar

O final de Abril e o começo de Maio foram marcados pelo pior desastre ecológico da história do Rio Grande do Sul, com inundações, mortes e milhares de desabrigados e de pessoas ilhadas. Nosso país assistiu atônito, preso em mais uma onda de calor, com a umidade encapsulada e derramando toda a chuva no sul do país. Calor e secura aqui e um dilúvio ali. Negacionistas teclam furiosos que não foi tão ruim assim. Depois de chamar a Covid 19 de “uma gripezinha”, o que vai ser agora? Foi só uma chuva de verão?

Nossos olhos perplexos fitam as imagens de perda, os resgates improvisados, as pessoas subindo nos caminhões com filhos, gatos e cachorros no colo. Vi uma imagem numa Rede Social de um senhor se agarrando em seus cachorros resgatados, que tinham ficado para trás. Ele, aos prantos, eu, com os olhos gotejando. E a imagem de um cavalo ilhado, imóvel, encima de um telhado percorreu o mundo, ficou doendo nas telas. Alguns dias parado, imóvel, encima de um espaço exíguo. Essa imagem mobilizou influencers e internautas para ver o que fazer para tirar o “Caramelo”, assim nomeado pelas redes, daquela situação. Uma equipe de veterinários e bombeiros foram em vários botes para salvar Caramelo. Ele foi sedado lá no telhado mesmo, apesar do risco do mesmo ceder, não cedeu, e o bicho foi colocado como um bebê no bote que finalmente o tirou dali, depois de quatro dias e meio de resistência. Lágrimas, aplausos. E alívio. Que alívio!

Assisti uma aula de um Psiquiatra indiano, Dr Suresh Bada Math, em que ele dividiu a resposta das pessoas, em situação de Desastre Natural, em quatro fases: Fases Heróica, Lua de Mel, Desilusão e Recuperação.

Na fase inicial, ligamos em nosso Cérebro o modo de sobrevivência. É uma fase que o objetivo é reduzir ao máximo os danos e salvar vidas. Bombeiros e militares se revezam para resgatar as pessoas, tratar os feridos, impedir a propagação de infecções. Voluntários aparecem de todos os lugares. Depois vem a fase que ele estranhamente referiu como “Lua de Mel”, o que eu acho que é para causar essa estranheza mesmo: chegam donativos de todo o país, remadores olímpicos e surfistas vão resgatar as pessoas, autoridades prometem mundos e fundos, abrigos, roupas, auxílio médico, tudo brota como mágica. Estamos vendo essa fase agora. Isso é bom? Isso é ótimo. Salvou o Caramelo da morte por fadiga muscular e desidratação. Mas, para a Psiquiatria, tem um porém, quando as águas baixarem. Aí é que vem a fase da queda no Real. E a desilusão.

Quando passamos por uma perda, por exemplo, de um ente querido, na fase inicial, a Heróica, parece que somos inundados por Adrenalina, para cuidar de todos os detalhes, proteger os mais vulneráveis, consolar o sofrimento. Nas primeiras semanas após a perda, vem as ligações, as visitas, o amparo de amigos, parentes, colegas do dia a dia, para animar, estimular e acolher a pessoa que passa por aquela perda. Mas o tempo passa, e a água, abaixa. E aí que começamos a dimensionar o tamanho do estrago. As pessoas retomam suas vidas. Os telefonemas escasseiam. Nessa hora, em que parece que a vida vai continuar, é aí que um psiquiatra vai colocar seus olhos e ouvidos atentos: é a fase da grande tristeza. A fase em que “cai a ficha”. E o que aparece? Revivências dos traumas, revolta, angústia, uma imensa sensação de perda e vazio, o que pode desembocar em vários transtornos psiquiátricos. E, veja só, é nessa hora, quando a poeira e a água do Guaíba baixar, que a mídia vai embora, os blogueiros vão falar de outra coisa e as pessoas vão ver o que sobrou depois do dilúvio. Nessa fase de desalento, estranhamente, costuma ser a fase em que há a maior solidão e confronto com a dor. Acaba o oba-oba da mídia e começa o trabalho de enxada da reconstrução, onde não pode faltar a escuta, o apoio, os planos de reconstrução: isso vai ser tarefa também da equipe de Saúde Mental. Esse é o paradoxo: quando a água refluir, a comoção da opinião pública se abrandar, nessa hora que os enlutados, os órfãos e os caramelos vão precisar de mais ajuda. De mais investimento.

Uma lembrança para os queridos leitores, aí do outro lado da tela: isso vale para todo processo de luto: quando todo mundo acha que ele está melhorando, é justamente aí que a tristeza fica pior. E precisa ser acolhida. Por todos.

 

*Marco Antonio Spinelli é médico, com mestrado em psiquiatria pela Universidade São Paulo, psicoterapeuta de orientação junguiana e autor do livro “Stress o coelho de Alice tem sempre muita pressa”

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“Dias Perfeitos”: a Incrível Beleza das Coisas Simples

Por Marco Antonio Spinelli

Um crítico de cinema do Youtube cita o cineasta Alfred Hitchcock, que dizia que “O cinema é como a vida, sem as partes chatas”, uma espécie de suco dos melhores momentos, ou, pelo menos, uma seleção de aventuras e tramas sem ter que mostrar as rotinas e chatices que compõe expressiva maioria em nosso dia a dia. Até o Big Brother, que supostamente deveria filmar horas infinitas de chatices de “jogadores” igualmente chatos, faz um corte e uma seleção e, muito provavelmente, um script dessas pessoas “comuns” numa casa onde fazem alianças, fofocas e barracos ante a torcida do país inteiro. Ainda assim, eles cortam as tais das partes chatas e fazem uma seleção de brigas, transas, e corpos atléticos à beira da piscina. Dificilmente gastam cinco minutos do programa mostrando alguém fazendo a cama ou limpando o banheiro.

O cinema dito “de Arte” mostra as partes chatas. Wim Wenders, cineasta alemão consagrado, no seu último e maravilhoso filme, “Dias Perfeitos”, é capaz de passar cinco minutos mostrando um senhor japonês arrumando sua cama, escovando os dentes, colocando a roupa de trabalho, pegando uma lata de café na máquina e guiando a sua van pelas ruas de Tóquio. Quando ele coloca suas fitas cassete no inacreditável toca-fitas de sua van, percebemos que essas músicas anos 70 vão compor a narrativa do filme. Esse senhor, nosso protagonista, limpa os banheiros públicos de Tókio, com capricho e ritmo. Esperamos que alguém diga algo, ou ele encontre a droga perdida de um traficante, ou presencie um assassinato lavando a privada, mas não. Ele cata restos de papel e limpa sujeira nas paredes. Quando um bêbado entra no banheiro, para sujar tudo o que ele limpou, ele espera pacientemente fora da cabine, para retomar a limpeza depois. Demoram onze longos minutos para alguém falar. Chega um jovem colega, Takashi, atrasado e falando sobre como o turno da manhã é horrível. Hirayama, o senhor que estamos acompanhando, não responde e não dá confiança para o rapaz falante e preguiçoso, que limpa o banheiro olhando seu celular. Esse é o choque que o filme vai propor: o velho Japão, analógico, e as novas gerações, com os (maus) hábitos ocidentais. Parece que vai descambar para uma fábula melancólica, não é? Não. O filme não vai colocar o cara em alguma cilada digital. Hirayama vai continuar analógico: seus dias, seus hábitos, são sempre os mesmos. Na hora do almoço, come um sanduíche e fotografa a mesma árvore, com a sua câmera antiga. Ele passa na loja que ainda revela e vende rolos de filme. No final do dia, vai aos mesmos restaurantes e fala com as mesmas pessoas. Compra livros num sebo, onde a senhora tenta puxar assunto com ele, sem sucesso. Na seu pequeno e arrumadíssimo apartamento, ele rega suas plantas, lê os seus livros e toca suas fitas no mesmo som antigo. E o que acontece no dia seguinte? Alguma reviravolta de tirar o fôlego? Lamento o spoiler: não. A mágica do filme é a repetição. O dia a dia repetitivo e a forma que Hirayama saboreia essa repetição. E aí é que está o ponto: o prazer de contemplar a vida correndo nas ruas de Tókio sem planos, sem expectativas, sem drama. Só um olhar japonês pode sustentar isso? Parece que Wim Wenders vai buscar no velho Japão uma espécie de antídoto para nossa doença coletiva. A doença do próprio cinema, que parece uma sobreposição de cenas e estímulos de filmes de herói que parecem, sempre, os mesmos. Wim Wenders mostra a vida com suas partes chatas. E as torna maiores do que a chatice.

Lembro de uma matéria antiga de jornal, jornal analógico, em que entrevistaram uma senhora, faxineira, que se convertera ao Budismo. Ela contou, de uma maneira emocionante, que tinha aprendido que poderia ser feliz sendo uma faxineira. Deixou os sermões que pregavam que Deus queria que ela prosperasse e deveria montar um business no final de semana para alavancar sua renda, e se rendeu à incrível beleza das coisas simples. Encontrou a sua paz entre os esfregões, como o personagem de “Dias Perfeitos”. Espero que ela não abra alguma Rede Social, onde os gurus da Teologia da Prosperidade vão tentar convencê-la que, felicidade é ter maior capacidade de consumo. Felicidade é ter mais e mais dinheiro. Tenho certeza que ela não vai limpar o banheiro olhando o celular.

Temos uma sociedade digital que busca a excitação e a novidade. A ampla maioria não vai aguentar onze minutos de “Dias Perfeitos”. Será descrito como “um filme sobre nada, onde nada acontece”. Muito pouca gente vai perceber que é essa, exatamente a graça: tudo acontece dentro do personagem e dentro de quem assiste.

Talvez a maior perda de um mundo em que tudo acontece apenas dentro de uma tela é que as pessoas perdem o caminho de seu mundo interno. Haja terapia, ou meditação, para trazê-lo de volta. O nosso analógico Mundo Interno.

*Marco Antonio Spinelli é médico, com mestrado em psiquiatria pela Universidade São Paulo, psicoterapeuta de orientação junguiana e autor do livro “Stress o coelho de Alice tem sempre muita pressa”

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