Valinhos
Ministro Paulo Teixeira compara assentamento do MST em Valinhos com Cooperativa de Holambra
Paulo Teixeira – Foto Divulgação-MST
Em vídeo, o Ministro do Desenvolvimento Agrário, Paulo Teixeira, compara ocupação do MST com a Cooperativa da cidade de Holambra e silencia sobre conflitos em assentamentos de Sumaré; cronologia mostra que impasse judicial na Fazenda Eldorado já dura oito anos
A queda de braço entre a Prefeitura de Valinhos e o Governo Federal ganhou um novo capítulo. Em vídeo publicado neste sábado, dia 7, em suas redes sociais, o Ministro do Desenvolvimento Agrário, Paulo Teixeira, contestou o decreto do prefeito Franklin Duarte (PL) que declarou como utilidade pública áreas da Serra dos Cocais, travando a intenção do INCRA de adquirir terras para assentar famílias do acampamento “Marielle Vive”.
No pronunciamento, o ministro tentou tranquilizar o governo local afirmando que o assentamento seria “agroecológico” e, em uma comparação que causou estranheza em especialistas e historiadores da região, citou a Cooperativa de Holambra como exemplo a ser seguido. “O ministro demonstra conhecer pouco da história da nossa terra”, afirmam interlocutores do governo municipal.
O equívoco histórico: Holambra x Reforma Agrária
A fala de Teixeira ao citar a Cooperativa Agropecuária Holambra (CAPH) como modelo ignora que a colônia holandesa, fundada em 1948, não foi fruto de reforma agrária estatal ou ocupações, mas sim do empreendedorismo de imigrantes que compraram as terras da antiga Fazenda Ribeirão com recursos próprios.
Além disso, causou estranheza o fato de o ministro não ter citado como exemplo o assentamento de Sumaré, na região do Horto — este sim fruto de invasão na década de 1980 e que faz parte da realidade local do MST.
Curiosamente, o ministro ignorou o exemplo de sucesso que ocorreu dentro de Valinhos: o Núcleo Reforma Agrária, criado em 1960. Na ocasião, o governo estadual desapropriou a Fazenda Capivari e vendeu glebas de 4 a 5 alqueires para colonos (maioria imigrantes italianos), com casa pronta, energia elétrica, água e outros benefícios e pagamento em 15 anos, sem juros e correção. Um modelo baseado em propriedade legal e trabalho, bem diferente das invasões de terra.

Sensibilidade Social e Autonomia
O ministro acusou a prefeitura de falta de “sensibilidade social”. O ataque ocorre justamente na semana em que Valinhos consolida seu maior plano habitacional, com a conquista de 1.300 moradias em parceria com o Estado, somadas às unidades dos Ortizes.
“Justiça social se faz com responsabilidade, dentro da lei e com diálogo — não com invasões e atropelo da legislação que protege o território”, rebateu o prefeito Franklin. O decreto de utilidade pública visa proteger a Serra dos Cocais e as macrozonas de conservação ambiental e mananciais, garantindo que o planejamento urbano de Valinhos seja decidido pelos valinhenses, e não por canetadas de Brasília.
Cronologia dos Fatos: O Impasse do Acampamento Marielle Vive
Reconstituímos os fatos marcantes da ocupação na Fazenda Eldorado, com base nos registros judiciais e históricos:
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Abril de 2018: Famílias ligadas ao MST ocupam a Fazenda Eldorado, localizada na Estrada do Jequitibá, entre Valinhos e Itatiba.
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12 de agosto de 2018: A juíza da 1ª Vara do Foro de Valinhos, Dra. Bianca Vasconcelos Coatti, determina a primeira reintegração de posse em favor dos proprietários.
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29 de agosto de 2018: Apenas 17 dias após a sentença, o TJ-SP suspende a ordem de reintegração pela primeira vez.
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26 de novembro de 2019: O Tribunal de Justiça adia por mais 90 dias a ordem de desocupação.
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Fevereiro de 2020: A chegada da pandemia de Covid-19 em São Paulo paralisa o cumprimento de ordens de despejo.
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Setembro de 2020: O desembargador José Tarciso Beraldo (TJ-SP) suspende formalmente a reintegração devido à excepcionalidade da crise sanitária.
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2021: É promulgada a Lei Federal 14.216/21, que proíbe temporariamente remoções forçadas durante a pandemia, dando novo fôlego ao acampamento.
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03 de novembro de 2021: Com o avanço da vacinação, o relator desembargador José Tarciso Beraldo apresenta o relatório para julgamento do caso na 37ª Câmara do TJ.
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23 de março de 2022: A 37ª Câmara do Tribunal de Justiça rejeita recurso da defesa do MST, mantendo a decisão favorável aos proprietários da terra.
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19 de outubro de 2023: O INCRA manifesta formalmente o interesse em utilizar áreas como a Fazenda Remonta (divisa com Campinas) para o reassentamento, buscando solução para o conflito.
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14 de janeiro de 2026: Ministro Paulo Teixeira anuncia publicamente a intenção de compra da Fazenda Eldorado e do Sítio Lajeado pelo INCRA.
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04 de fevereiro de 2026: Valinhos reage com decreto de utilidade pública, bloqueando a compra das áreas e priorizando a proteção ambiental da Serra dos Cocais.
- 06 de Fevereiro de 2026: Ministro Paulo Teixeira publica vídeo contestando o prefeito, citando Holambra e convidando Franklin para um diálogo tardio.
Destaques:













