Demanda por serviços de motoboy crescem e empresas ressaltam importância da contratação responsável

Demanda por serviços de motoboy crescem e empresas ressaltam importância da contratação responsável

Enquanto a crise decorrente da pandemia de coronavírus têm aumentado o número de desempregados em diversos setores, os serviços de entrega têm gerado novas oportunidades. Seja para retirar ou receber alimentos, presentes, pacotes ou documentos, contratar um motoboy se tornou uma das alternativas mais viáveis para o transporte de produtos durante a quarentena.

Porém, como tudo têm prós e contras, nem só de lucro vivem as empresas e profissionais do segmento. Se por um lado os aplicativos de entrega viram seus números saltarem – como a Rappi, que em fevereiro teve crescimento de 30% na América Latina – os profissionais que prestam serviços via apps demonstram cada vez mais indignação com as condições de trabalho. Em movimento realizado via internet, os motoboys de aplicativos organizam para o dia 1º de julho uma paralisação simultânea em diversas cidades do país.

Pesquisa feita pela Rede de Estudos e Monitoramento da Reforma Trabalhista (Remir Trabalho), em abril deste ano, ouviu 252 pessoas de 26 cidades por meio de um questionário online e identificou que, apesar do crescimento no faturamento das empresas, o aumento da remuneração não tem chegado na ponta.

Entre os entrevistados, 60,3% relataram uma queda na remuneração, comparando o período de pandemia ao momento anterior. Outros 27,6% disseram que os ganhos se mantiveram e apenas 10,3% disseram que estão ganhando mais dinheiro durante a quarentena.

Uma das coordenadoras do estudo, a professora da Unicamp Ludmila Costhek Abílio, afirmou à BBC News Brasil que a pesquisa revelou "a perversidade" desse modelo de negócios, no qual as empresas lucram mais enquanto os trabalhadores têm sua mão de obra desvalorizada.

"A gente sabe que as empresas estão ganhando muito mais, tanto é que elas pararam de divulgar o faturamento. Temos os dados da Rappi em fevereiro, mas depois não temos mais dados. O mais importante pra gente pensar agora é que os motofretistas viraram trabalhadores de serviço essencial e precisam ser valorizados", afirmou a pesquisadora.

Abílio afirmou ainda que, apesar de lucrarem mais, as empresas de entrega por aplicativos não têm responsabilidade em relação aos motofretistas. Na maioria das vezes, os prestadores de serviço são Micro Empreendedores Individuais (MEI) e não possuem vínculos empregatícios com os apps.

Empresas especializadas x aplicativos
A opção mais segura, de acordo com o motoboy Valdemir da Silva – que há 20 anos trabalha no setor – é prestar serviço para as tradicionais empresas especializadas em entregas. “Diferente dos aplicativos, na empresa nós sabemos quem está solicitando o serviço, temos contato direto com nossos empregadores e recebemos todo o respaldo necessário para a execução dos trabalhos, incluindo os itens de segurança obrigatórios durante a pandemia como álcool gel e máscaras”, afirma.

Valdemir é funcionário da JGI Express, empresa de entregas que há seis anos atua em Valinhos. “No início da quarentena chegamos a desligar funcionários porque muitas empresas para as quais prestamos serviços diminuíram o número de entregas. Porém, cerca de um mês depois vimos a necessidade de recontratar porque a demanda voltou a aumentar”, afirma Giani Prata, proprietária da empresa.

De acordo com ela, apesar do aumento de pessoas que ao perderem o emprego passaram a enxergar nos serviços de entrega uma nova oportunidade de trabalho, é preciso ter cautela. “É importante ressaltar que os motoboys precisam ser valorizados e ter sua profissão vista com seriedade. Não basta comprar uma moto e sair fazendo entregas. As empresas especializadas possuem vínculo com os prestadores de serviço. Nós oferecemos capacitações, respaldo, apoio às operações e isso tudo garante não só mais segurança para os nossos funcionários, como também para os nossos clientes”, afirma Giani.

O aumento das contratações durante a quarentena também foi uma realidade para a D’Log. Especializada em Food Service, a empresa – que atende a Região Metropolitana de Campinas (RMC) - dobrou o número de funcionários durante a pandemia. “Fomos de pouco mais de 200 para cerca de 400 motoboys. Também tivemos casos de pessoas que tinham o serviço de motoboy como segundo emprego e passaram a investir mais tempo no trabalho porque foram demitidos de suas outras ocupações. Então, se antes eles trabalhavam com entregas apenas no período noturno, hoje expandiram os horários”, afirma o proprietário da empresa, Renato Cardoso.

Diferente dos aplicativos, onde os motoboys são designados para as entregas aletoriamente, a D’Log trabalha com profissionais fixos nos restaurantes, bares e lanchonetes. “Acompanhamos de perto toda a operação de entregas e oferecemos total apoio aos nossos prestadores de serviço”, ressalta Renato.

Segundo o empresário, a remuneração de um motoboy pode alterar muito devido as horas trabalhadas, tipos de serviços e etc., mas atualmente varia entre R$ 1.500 e R$ 5 mil. “Os que ganham mais trabalham muito, incluindo finais de semana e feriados. São comprometidos e dedicados e acabam tendo um retorno maior do que a média”, conta o empresário.

Para manter a empresa em funcionamento, Renato ressalta que é preciso seguir uma série de leis trabalhistas e garantir que as documentações dos veículos e profissionais estejam sempre em dia. “Hoje é fácil fazer cadastro para prestar serviço de motoboy via app. Os critérios são poucos e mesmo os que não têm nenhuma experiência com o serviço podem começar a trabalhar sem passar por nenhum um tipo de treinamento. Na D’Log todos passam por processo seletivo e capacitação. Portanto, na minha opinião, essa acaba sendo uma opção mais segura, não apenas para o trabalhador sério, como também para os clientes”, ressalta.

Assim como a JGI, a D’Log oferece máscaras e álcool gel para todos os funcionários. “Nós fornecemos as máscaras e proibimos que sejam realizados serviços sem a devida proteção. Também acompanhamos diariamente os atendimentos bem de perto para evitar aglomerações. Quando chega o horário em que a demanda dos restaurantes começa a cair, nós começamos a dispensar os profissionais para seguirem para casa. Assim evitamos que eles fiquem expostos e parados na rua sem necessidade”.

Para Giani, da JGI, oferecer serviços de entrega é um ato que exige responsabilidade e integridade. “Estamos enviando pessoas para coletar e entregar produtos em empresas e residências. Infelizmente, o mundo está cheio de pessoas mal intencionadas, então é fundamental ter confiança e conhecer as pessoas que enviamos até a casa de nossos clientes, assim como ter certeza de que estamos enviando nossos profissionais para locais seguros. Por isso, este é um serviço que não pode ser desvalorizado. É um serviço que tem a confiança como base de seu funcionamento”. 

De acordo com dados do Portal do Empreendedor, existem hoje em Valinhos 157 MEIS cadastradas no CNAE de “serviço de entrega rápida”.