Oportunismo político

“Ideologia, eu quero uma para viver”, clamava Cazuza na década de 1980 na música Ideologia, de mesmo álbum. O contexto de quando a música foi lançada mostrava o Brasil procurando uma direção política na reabertura depois de passar por 21 anos de Ditadura Militar. Cazuza, nas letras, tentava ver algum pensamento fundamental de uma coletividade ou de uma época para servir de alimento para a transformação, naquela situação, dos sistemas sociais e políticos.
Debater ideologia é um dos assuntos mais complexos da política. Visões de mundo, ambiente em que a pessoa foi criada, interferências pela bagagem cultural  adquirida na vida e outros fatores externos contribuem na caracterização, argumentação e visão sobre questões diversas. Mas pode-se observar que a ideologia está comprometida.
Vejamos o cenário político atual que o país atravessa. Até há 20 anos, os dois maiores partidos do Brasil, PT e PSDB, diziam ter ideologias extremaente conflitantes. Enquanto o primeiro afirmava ser de esquerda, combater a corrupção e prezar pelo Estado máximo, o segundo fragmento era visto como um partido burguês, de pensamentos econômicos que privilegiam as privatizações e o Estado mínimo. O PT chegou ao governo em 2002 e manteve a mesma política, apenas focando mais em programas sociais com as “bolsas”.
A ideologia está apenas nas definições teóricas e faz mais sentido na letra de Cazuza. Vejamos agora o exemplo de Valinhos. Alexadre Tonetti concorreu à eleição municipal de 2012 pelo PT depois de agarrar o partido em uma eleição de diretório até hoje mal explicada. As denúncias já começam pelo pagamento de mensalidades atrasadas de filiados para que eles votassem em Tonetti na eleição que tirou a presidência e o partido das mãos do hoje vereador pelo PROS Lorival Messias de Oliveira.
Na eleição para prefeito, perdeu para Clayton Machado, continuou no partido dizendo que teve como inspiração o ex-prefeito de Campinas assassinado Toninho e afirmou nas redes sociais que permaneceria no partido mesmo com todos os problemas enfrentados. Resultado: a ideologia volátil esmiuçou-se entre palavras e promessas. Tonetti deixou para trás sua influência para assumir o PDT, levando consigo outros correligionários. Rodrigo Toloi, que na terça-feira da semana passada, 8, assumira na Câmara Municipal que era pré-candidato a prefeito, se desligou do partido.
Além de deixar as raízes para trás, Tonetti foi oportunista. Aproveitou o dia 13 de março, quando 6 milhões de brasileiros foram às ruas protestar, para anunciar sua desfiliação do PT. E ainda ignorou para seu eleitor quando afirmou nas redes sociais que “não mudo do partido porque alguns erraram, mas sim luto para corrigir os erros”.
Nem mesmo crises partidárias profundas como encaradas pelos ex-prefeitos Luiz Bissto, Vitório Antoniazzi e Marcos José da Silva forçaram a saída destes políticos de seus partidos.
A situação em que Tonetti se envolveu parece ser um jogo político para se desvincular de um partido que hoje vive um momento ético e moral considerado dos mais graves da recente democracia do país. Até o deputado estadual Ângelo Perugini, forte petista, abandonou o barco para transitar para o mesmo PDT.
A idelogia para estes casos são conceitos pessoais definidos por interesses próprios de acordo com o que almeja. Defender um partido ou uma ideia em um momento de crise é difícil, ainda mais quando se tem uma população raivosa e uma opinião pública cobrando insistentemente. “As ilusões estão todas perdidas”.