O diálogo é necessário

O tema da Campanha da Fraternidade 2021 não poderia ser mais oportuno. Chegou na hora certa. Num momento em que nós brasileiros nos vemos – uma grande parcela – com medo e muita ansiedade em torno dos rumos que a pandemia está tomando e, outra parcela, incentivados e estimulados por lideranças – a começar pelo presidente da República – que com seus discursos nacionalistas, xenófobos (muitas vezes) pregando o negacionismo e a desobediência à ordem e à disciplina está levando o Brasil a uma viagem sem plano de voo.

A chamada “nova política” que hoje também assumiu prefeituras e câmaras municipais Brasil afora, comprometem o diálogo. Sob esta roupagem, ou melhor disfarce, querem impor um modelo ideológico que não cabe mais ao século XXI. A rota de colisão que vivemos internamente, que antes tinha apenas a questão político-ideológica envolvida, ampliou seu horizonte e nossa nação que vive de máscara – por conta da pandemia – vai vendo aos poucos as máscaras de muitos extremistas caírem.

Com o tema ‘Fraternidade e Diálogo: compromisso de amor’ e o lema ‘Cristo é a nossa paz: do que era dividido, fez uma unidade’ (Ef. 2.14), a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil – CNBB – lançou a campanha na última quarta-feira, 17.

De saída, a Campanha que prega o diálogo, também tinha como proposta ser ecumênica – ou seja, ser partilhada e promovida com outras religiões, encontrou resistência dentro da própria Igreja Católica, de lideranças que não aceitam dividir de forma ecumênica uma campanha que em tese teria o “compromisso do amor”. Esse é um claro reflexo do Brasil deste século XXI.

Vivemos tempos estranhos, onde o ego e o egoísmo – que não é uma distinção para classe social, étnica ou econômica – toma conta de mentes e corações do mais abastado da elite até o mais afetado pela carestia. Desta forma, como falar em unidade como quer Jesus, se o cidadão não consegue ver o óbvio, o certo e o decente na sua convivência social cotidiana? Preferindo muitas vezes usar do famoso jeitinho para burlar as regras e as leis?

De acordo com o texto base, o objetivo da Campanha da Fraternidade é  “convidar comunidades de fé e pessoas de boa vontade para pensar, avaliar e identificar caminhos para a superação das polarizações e das violências que marcam o mundo atual”, tem por base o diálogo amoroso e do testemunho da unidade na diversidade, inspirados e inspiradas no amor de Cristo.

É inegável que se trata de uma proposta – em que pese a simplicidade do argumento – necessária e urgente e que precisa ser trabalhada e repercutida em todas as Igrejas, não apenas nas católicas. Melhor, é uma mensagem que precisa entrar no lar de cada brasileiro não importando se este é católico cristão ou protestante, espirita, umbandista ou ateu.

A mensagem simples proposta pela Campanha, numa leitura rápida já impacta mentes e corações. Mas, ela precisa atingir o amago do ser humano e pra isso, lideranças precisam estar imbuídas do vigor e vibrações, necessárias para fazer com que ela impacte vidas. Além disso, essas mesmas lideranças precisam estar desprovidas de ego e do egoísmo e revestidas da boa intenção de ousar realizar essa sua promoção – mesmo que não tenha sido criada em sua base religiosa - junto às comunidades.

O Brasil precisa urgentemente de um movimento que nos torne novamente uma Nação predestinada a um futuro mais digno. Onde a defesa de minorias – negros, índios, gays – ou a denúncias em defesa do meio ambiente e povos da floresta não sejam metas e objetivos apenas de organizações não-governamentais, muitas vezes discriminadas pela ousadia de tocar em feridas que, na visão de alguns, não precisavam estar à amostra, mas de cada um de nós que se preocupa com as futuras gerações.

Que os  ‘ideais de família’ – travestidos de projetos políticos-ideológicos seja ela de direita ou esquerda - não afrontem nossa Inteligência e nem transforme o Brasil numa arena de guerra verbal e não verbal através das redes sociais.

Nos primeiros meses da pandemia, em 2020, o discurso era de que no pós-pandemia viveríamos um novo normal, numa crença de que o ser humano, obrigado a se isolar, manter o distanciamento social e cumprir protocolos de segurança como usar mascar e álcool em gel p- síria renovado, novo, diferente de como entrou na pandemia.

Mas, a pandemia longe do seu fim, nos mostra que não voltaremos melhor. Mas estaremos sim dispostos e propensos a um novo começo mas para isso, precisamos de diálogo em todo momento e circunstância, como propõe a CF 2021.