Além de seu tempo

Se estivesse vivo, Flávio Resende de Carvalho completaria hoje, dia 10 de agosto, 120 anos de uma vida intensa. Pintor, desenhista, arquiteto, cenógrafo, decorador, escritor, teatrólogo, engenheiro, Flávio de Carvalho, como ficou conhecido mundialmente, escolheu Valinhos para morar e aqui edificou o que ficou conhecido como marco da arquitetura moderna no Brasil.
Além disso, aqui inventou e produziu arte, arquitetura, literatura e dramaturgia entre libertina Semana de Arte Moderna de 1922 até os obscuros tempos da ditadura militar, seu Teatro da Experiência, com o visceral do ‘Bailado do deus morto’, foi vítima da censura promovida pelo regime. Dividindo seu tempo entre a sua residência na capital e a tranquilidade da Valinhos interiorana, não se fez melhor que ninguém e participava da vida em comunidade.
Embora Valinhos não seja seu berço natalício – Flávio de Carvalho nasceu em Barra Mansa no Rio de Janeiro – por suas qualidades ímpares de artista e por sua relação direta com a comunidade se tornou Cidadão Honorário de Valinhos em 26 de agosto de 1969, quando a Câmara Municipal, sob a presidência de José Sebastião Barchesi, lhe concedeu tão honroso título.
Seu maior legado ao município, depois de sua memória, ainda é um grande desafio para os gestores. A casa modernista da Fazenda Capuava até hoje é estudada e festejada por engenheiros e arquitetos Brasil afora. Concebida em 1929 e construída em 1938, a casa está tombada pelo Conselho Estadual de Defesa do Patrimônio Histórico, Arqueológico, Artístico e Turístico – CONDEPHAAT e, desde a morte do artista no dia 4 de junho de 1973, portanto há 46 anos, seu destino ficou legado ao abandono.
A Folha de Valinhos, como forma de prestar homenagem a este homem de grande expressão na área das artes e cultura, traz na edição de hoje – em homenagem aos 120 anos do artista – e com exclusividade, uma revelação que os valinhenses até então desconheciam a respeito desse ilustre, vanguardista e eclético homem.
Jorge Amado, um dos maiores escritores brasileiros – senão o maior – em seu livro de memórias ‘Navegação de Cabotagem’, escrito às vésperas de completar 80 anos e lançado em 1992, fala sobre Flávio de Carvalho – seu amigo – e o descreve como o maior artista plástico brasileiro, citando, para ilustrar uma das mais famosas obras dele, a ‘Série Trágica’, onde retrata sua mãe, na cama, em seus últimos momentos de vida.
É pelas palavras de Jorge Amado que hoje, em pleno século XXI, Valinhos pode se dar conta da grandeza, do talento e da influência de Flávio, que recebeu muitos dos mais importantes personagens do século XX, dentre eles o poeta chileno Pablo Neruda e o cantor e compositor Dorival Caymmi na casa da Fazenda Capuava.
O provocador Flávio de Carvalho testou a tolerância religiosa e humana, no que ficou conhecido como Experiência número 2, quando em 1931 ousou atravessar, em sentido contrário, uma Procissão de Corpus Christi. Foi neste mesmo ano que seu ‘Bailado do deus morto’ foi encenado com uma estética de vanguarda e com a maioria dos atores negros.
Neste século XXI, assustado com o avanço da direita conservadora, elevado nível de xenofobismo e contestações instantâneas via redes sociais, provavelmente Flávio de Carvalho seria um artista ainda de vanguarda e inovador.
Morreu em junho de 1973, aos 74 anos, vítima de um infarto, após ter sido acometido por um derrame. Seu velório e enterro chamaram a atenção da imprensa nacional e foram grandes acontecimentos vividos por Valinhos, teve até mesmo Guarda de Honra do Batalhão da Polícia Militar. Flávio de Carvalho está enterrado no Cemitério São João Batista.
Nestes seus 120 anos, Valinhos ainda tem muito que aprender e apreender sobre o legado magnifico de Flávio de Carvalho. É hora de unirmos forças e vencermos obstáculos para dar à sua casa modernista o merecido destino. Que, após sua restauração, possa ser transformada num importante Museu de Arte Moderna e espaço para exposições de artistas locais, onde as futuras gerações possam obter conhecimento sobre moda, arquitetura, teatro e literatura, algumas das áreas por onde ele transitou e realizou.