VIVENDO PARA SOBREVIVER (SOBREVIVENDO)

Gustavo Gumiero
@gustavogumiero

José Graziano da Silva, um dos criadores do programa “Fome Zero” e ex-diretor geral da FAO (Organização das Nações Unidas para Alimentação e a Agricultura) afirmou em uma entrevista que “não é um governo que acaba com a fome, acabar com a fome é a decisão de uma sociedade”. Eu já tinha tido essa intuição, mas é enriquecedor quando um especialista no assunto vem chancelar sua percepção.
Somos uma sociedade que quer a pobreza. Se nós, como sociedade, não a quiséssemos, nós a combateríamos e ela poderia não existir, ela não existiria! Temos mais obesos – 830 milhões – que pessoas com fome – 820 milhões. Produzimos mais do que o necessário para alimentar todos os mais de 7 bilhões de habitantes da Terra. A simples omissão, o simples não fazer nada, é um atestado cúmplice do que aí está... Aos pobres, só o que não se tira no nosso bolso... Aos pobres, nada, aos pobres, a pobreza da indiferença. “Farinha pouca, meu pirão primeiro”, já diz o ditado.
No “mundo animal” – que por sinal, também é o nosso – há vários exemplos de cooperação entre o maior e o menor. Aquela entre o crocodilo e o algaravão é a que mais me chama a atenção. O algaravão é um pássaro que põe seus ovos próximos aos ovos dos crocodilos. Quando o crocodilo sai, o algaravão protege tanto seus próprios ovos, quanto o dos crocodilos. Se o lagarto chega para saciar sua fome, o pássaro abre suas duas asas como um goleiro à espera de defender o pênalti. É lindo de se ver.
Os chipanzés, por sua vez, demonstram um alto senso de comunidade. Eles se preparam para a caça. A vítima será um babuíno. Quando um consegue, o primeiro pedaço é seu, do vitorioso da caça. Mas logo ele já divide com seus pares a refeição. E isso libera oxitocina, um neurotransmissor, cujo efeito é o sentimento de solidariedade e felicidade. Ah, se aprendêssemos com esses exemplos.
Mas é claro que também existem os parasitas. Esses só sugam: energia, forças, sangue, e destroem a sua fonte de alimento; mas é suicídio se não conseguem encontrar outro. Morrem juntos.
Os futuros problemas da humanidade serão tão simples quanto inquietantes: onde encontrar água para beber, como torná-la pura...