Valorizar a democracia

Estamos diante de uma situação curiosa: pela primeira vez, uma presidente contra quem não há acusação de crime algum está prestes a ser retirada do cargo por um congresso recheado de parlamentares suspeitos. Se tudo correr como pretendem essas pessoas, na semana que vem o presidente da Câmara dos Deputados será o segundo na linha de sucessão deste país. Isso quer dizer que, em caso de o vice-presidente Michel Temer assumir o cargo de Dilma Rousseff e precisar se ausentar do país, por qualquer razão, Eduardo Cunha será o presidente em exercício do Brasil.
O caso do nosso país é emblemático e único. Desde a redemocratização, elegemos pelo voto popular apenas quatro presidentes – Fernando Collor, Fernando Henrique Cardoso duas vezes, Luiz Inácio Lula da Silva duas vezes, e Dilma Rousseff outras duas vezes. Dos quatro nomes, um sofreu impeachment em 1992, e o país se põe mais uma vez diante de um processo de destituição com grandes chances de sucesso, desta vez com Dilma. Contra ela, não há qualquer prova de um crime de responsabilidade, exigido pela Constituição Federal para o andamento do processo, e há uma grande parcela da sociedade civil que se posiciona de forma contrária a seu impeachment. Parte da esquerda argumenta ainda que a queda de Dilma abriria um precedente perigoso para qualquer governo progressista que venha a se instalar no Brasil. Trocando em miúdos, um presidente que tivesse a coragem de empreender reformas necessárias ao país não teria segurança em fazê-lo, sob o risco de um novo impeachment. Uma vez que este não se justifica, nenhum precisa se justificar.
Não que Dilma Rousseff seja essa presidente progressista e disposta a mudar o Brasil. Pelo contrário, ela encabeça uma gestão omissa, medíocre e acovardada, responsável direta pela recessão que se abate sobre as nossas cabeças. Os erros de Dilma levarão tempo para serem consertados. Mas nada justifica sua deposição, porque o governo eleito pode mudar de rumo. Como vem dizendo com muita ênfase o ex-ministro Ciro Gomes, impeachment não é remédio para governo ruim, mas para governo que comete crime, que deve ser atestado com provas irrefutáveis diante da gravidade em que se configura a deposição de um presidente.
Em política, é preciso agir com responsabilidade e pesar as opções e as consequências de cada atitude tomada. Há quem preveja fortes riscos de instabilidade social caso a presidente Dilma sofra, de fato, o impeachment, graças à oposição aguerrida dos movimentos sociais contra um eventual governo Temer. O resultado do processo deve ser aceito e respeitado, é claro, para evitar que a crise das instituições brasileiras se agrave. Mas este impeachment, aberto como uma vingança pessoal e viciado em sua origem, precisa ser repensado enquanto há tempo. Sobretudo, é necessário valorizar a democracia que, há pouquíssimo tempo, o Brasil lutou para conquistar.