Valinhos de outros Carnavais

Fabrício Bizarri é Engenheiro Mecânico e atua como Engenheiro da Qualidade em Indústria Multinacional. Também é Especializado em Gestão e Políticas Culturais pelo Itaú Cultural, em parceria com a Cátedra UNESCO da Universidade de Girona – Espanha.

Me lembro bem, lá ao final de 1997, na Rua Carlos Gomes, em frente a Maria Fogueteira, no bairro Santa Cruz, ainda garoto, ouvia instrumentos em ritmo de Escola de Samba. Como eu morava muito próximo, na esquina da Rua Abolição com a Rua Carlos Gomes, sempre pedia ao meu pai, que me levasse lá. Era muito interessante ver aqueles batuques, em preparação ao carnaval de 1998.
Tratava-se da Escola de Samba Arco Íris, ensaiando a bateria. Me lembro de ver o presidente Luiz Jesuino tocando caixa com seus filhos, Fábio Jesuino no surdo de primeira marcação e Fabiano Jesuino também na caixa, todos estes exímios percussionistas. Ao comando da bateria, o mestre “Pancho”, que tinha Cristiane Jesuino como rainha, tive a oportunidade, por intermédio do amigo Fábio Beltramini (Magu), de iniciar no repinique, aprendendo e tocando junto a ele.
Para mim foi sensacional. Primeira vez que eu me colocava como membro de uma bateria de escola de Samba. Aquela sensação de fazer o melhor pela escola, de tocar da melhor maneira. Aquilo me despertou o anseio em pesquisar melhores ritmistas, melhores práticas de fixar o instrumento, de obter boa condição física, no termo popular “adquirir braço” para tocar junto a bateria. Era uma oportunidade também de rever e conhecer novos amigos. Como a rua era fechada, durante as noites dos ensaios, era uma confraternização geral. Todos ansiosos pelos ensaios. As alas se organizando quanto a fantasias, medidas de cada pessoa. As costureiras preparando as roupas e fantasias. Os carros alegóricos sendo preparados. Por muitas vezes, eu saia dos ensaios, e ia ajudar na confecção dos carros alegóricos, que eram construídos e preparados no Parque Municipal da Festa do Figo.
Aos poucos ia decorando e aprendendo a cantar o samba enredo. Ia também trazendo e convidando minha família e amigos para participar e prestigiar a Escola de Samba. E isso, era observado nos 4 cantos da cidade, pelas outras agremiações: Unidos da Madrugada, Leão da Vila, Águias da Avenida, Pérola Negra, e Cai-Cai. Nesta semana de véspera do Desfile no sábado de Carnaval, a correria era geral. A bateria consolidando os breques dentro do samba enredo; as costureiras ajustando os detalhes finais das fantasias; Os carros alegóricos sendo finalizados pelos voluntários. A animação e a motivação para o desfile eram geral. Alguns com aquele frio na barriga, outros mais tranquilos. Mas tudo era compensado quando o sinal verde da Avenida dos Esportes era dado, e os fogos da Maria Fogueteira eram estourados. Quanta alegria. Era tanta felicidade junto, tanto sentimento de união entre as pessoas, e tanta gente nas arquibancadas assistindo, que nos sentíamos protagonistas em uma das maiores festas populares do país: o Carnaval.
Infelizmente, nos dias atuais, isso não se concretiza mais. Não cabe aqui encontrar responsáveis. Mas cabe colocar a saudade e o bem-estar que o Carnaval de Rua gerava nas pessoas e na cidade. O quanto a cidade era beneficiada.
Sempre relembro o Carnaval de Rua de Valinhos com pessoas como Adalberto Giraldello, o “Bertinho” e Mário Pazinatto, inovadores que implementaram a metodologia de cantar o samba enredo em Valinhos, pela Unidos da Madrugada, além de Samuel Antonio Santos, o “Bié”, Luiz Bonetto, o “Dêde”, Lino Romanetto, o “29”, e toda família Musselli, que tanto defenderam o nome da Vila Santana, pelo Leão da Vila. Aliás, uma das fotos mais marcantes para mim, que vi na exposição de 2015 (Valinhos de Outros Carnavais”, organizada pelo Alfredo Ribeiro, o Piu, no CLT, foi de Daniel Romanetto, com 3 anos incompletos, que hoje é músico profissional e referência em cavaquinho, com seu pequeno instrumento “bumbo”, tocando ao lado de seu lado, o sr. “29”.
A lembrança nos emociona e nos enche de alegria no coração, pois víamos e sentíamos a tradição sendo passada de pai para filho, no Carnaval de Rua de Valinhos. A rivalidade era acirrada, tal como em finais de campeonato de Futebol, mas a cidade se mantinha movimentada, visitada e prestigiada durante o Carnaval.
Espera-se que num futuro não tão distante, o Carnaval de Rua de Valinhos seja visto, não somente como uma mera despesa aos cofres públicos e um aborrecimento adicional aos organizadores, mas também um carnaval alegre, pacífico, com as famílias de volta a avenida do samba, com todas as pessoas e integrantes das agremiações, amantes do Carnaval de Rua, mostrando o talento e magia contagiante, atraindo investimentos, fortalecendo a economia e transmitindo a tradição para as próximas gerações, tudo isso que,
que certamente pode trazer de volta a nossa cidade de Valinhos, o reconhecimento de um dos melhores carnavais de toda a região.
 

em Gestão e Políticas Culturais pelo Itaú Cultural, em parceria com a Cátedra UNESCO da Universidade de Girona – Espanha e membro do Lions Clube de Valinhos.