A travessia

Era um dia frio, com céu azul sorrindo e brisa gelada que beirava um convite a um passeio pelo bosque. Havia uma preguiça social acontecendo dentro dela naquele momento, que proibia qualquer diversão à toa. Era na verdade um momento de transição muito bonito de se ver, mas muito duro de sentir. Não pelos acontecimentos em si, mas pela forma intensa como ela sente as coisas, pela intensidade do que ela é.
O fato é que o Universo decidiu que era hora dela colher, o que vem plantando há tanto tempo. E o que acontece ao homem quando os Céus decidem dar a eles o que pedem? Sentem medo. Um medo que paralisa, embaraça as sensações, deixam desfocados os afazeres, palpitam a alma numa ansiedade desgraçada de inútil. Acontece que nada havia a temer. Isso não é ótimo? Não para ela naquele momento. Acostumada por muito tempo às duras pancadas da vida, tudo assim tão novinho e em branco era tentador e amedrontador.
Entretanto, como boa buscadora, sabia que era uma escolha: esse medo ou a entrega ao desconhecido, com toda alma de uma vez. Claro, como boa escorpiana, optou em se jogar. Ao redor dela tudo está calmo, sereno, divinamente protegido e abençoado. Dentro dela, reina um caos transformador. Uma avalanche de sentimentos, sensações e fantasias que a obrigam a sarar todas as feridas abertas ainda ou a deixar de lado velhas cicatrizes doloridas. Eis que surge o momento do mergulho. Era doloroso, mas preciso para conseguir bancar a opção de entregar sua alma toda ao fluxo da vida.
Se joga como quem chora, sem sossego, e goza, em paz, ao mesmo tempo. A representação da fênix é o que melhor a descreve nesses momentos de chegar ao fundo do poço de si mesma para nascer novamente.
Enfrentou tudo bravamente, com a coragem daqueles que decidem o que viver e ser seus próprios sonhos. Ousou, chorou, fez birra para a felicidade. Sentiu as cicatrizes arderem em sua alma, mais vivas do que nunca. E teve que curar uma a uma, com muito carinho.
O mais complicado é lidar com um mundo interno, só dela, e ao mesmo tempo viver o mundo externo em separado, sem deixar respingar nada em ninguém. Sim, a mania do perfeccionismo é uma das causas e uma das curas também.
Quem pratica mergulhos em si mesmo sabe bem como funciona esse processo. É uma autocura generalizada, forte, enigmática e feliz, daquelas que seduzem a vida toda apenas com um sorriso de canto de boca.
Foi então que ela perdeu todo o controle desse mergulho. Não restou nada, nenhum pilar das velhas crenças obsoletas conseguiu ficar. Nada era passível de ser controlado, não mais. E esse descontrole foi o ápice do salto.
Tudo em branco. Pairava uma brisa tranquila e uma cor branca, apenas. Nenhuma previsão de movimento, acontecimento, ganhos, perdas, nada. Nada mais existia em sua sala de controle. Nem mesmo a sala.
Foi um tempo estranho, de recolhimento, de falta de entendimento, de falta de autoestima, falta de paciência. Falta. Escassez. Tudo o que falta é você quem cria para faltar. Por que a verdade é que nada falta. Entretanto, a escassez é como a Medusa, bonita e tentadora de se olhar. Basta um olhar para virar pedra. Toda vida parece imóvel, distante, fria, mórbida. Só que essa sensação não é algo que exista de fato. Existe apenas o que se cria para existir. E se você cria, já existe. E se existe, você já é, você já tem.
O velho mundo da escassez, finalmente, ruiu. E então descobriu que era esse o fim tão sentido, tão dolorido. Porque mesmo para o que é ruim, existe o apego. E para tudo o que há apego, existe algum sofrimento quando termina. Foi necessário e acabou.
Tudo em branco. Pairava uma brisa tranquila e uma cor branca, apenas. Finalmente a abundância de tudo que é belo, finalmente fartura de vida.
E nessa queda, quando achou que estava chegando ao fundo do abismo, eis que começa a voar.
E o voo está apenas começando...