Sobre a vida, sobre Bauman

Cara leitora, caro leitor, quando estava no auge dos meus estudos teológicos, tendo lindo os melhores teólogos da teologia bíblica do Antigo Testamento, sentia que precisava de algo mais para continuar a exercer a crítica à sociedade contemporânea. As histórias e estórias bíblicas já não eram mais suficientes para mim. E, como nesses passes de mágica, nessas surpresas que a vida opera, uma manhã de maio de 2015, lendo uma entrevista com um “sociólogo” em um jornal, meus olhos se abriram. Seu nome: Zygmunt Bauman. O que eu queria saber, sem saber, estava lá. Era a sociologia, a forma pela qual, a partir de então, passei a compreender o mundo – ou pelo menos tentar. Queria estudar por que somos como somos, como se dá a formação de nossa identidade perante o mundo; como as pessoas se relacionam; por que se relacionam de uma maneira e não de outra. Lembro-me que sua resposta que mais me chamou a atenção foi que as mídias sociais são “redes” fazendo o papel das sociedades enfraquecidas. Enfim, a sociologia era por onde eu poderia vislumbrar tal conhecimento. Depois disso foi uma aventura muito grande que talvez nunca terá fim para mim. Graças a Bauman, quis fazer o mestrado em sociologia. Encontrei um professor que acreditou em mim e aqui lhe presto minha homenagem: Silvio César Camargo. Depois quis fazer o doutorado, que é onde estou nesse momento. Depois de Bauman, conheci Weber, Marx, Durkheim – os três “fundadores” da sociologia. Mais tarde ainda, entre filosofia e sociologia,

Nietzsche, Walter Benjamin, Michel Foucault, Gilles Deleuze, Félix Guattari, Maurizio Lazzarato e tantos outros, mas resumo a esses a maior influência sobre a visão de mundo que tenho hoje. Contudo, se não tivesse sido o Bauman, não sei se estaria nessa, ou em outra.

Bauman era um crítico muito altivo da sociedade, como poucos. Conseguia expressar exatamente o que está se passando hoje nos mais variados temas: imigração, relacionamentos, capitalismo, intelectualidade, etc. Deixou muitas obras boas para serem lidas e relidas. Produziu muito. Sei que muitos sociólogos não gostam dele. Mas é por incapacidade de fazer melhor que ele. Uma espécie de inveja acadêmica.

Enfim, presto minha singela homenagem a quem tem o mérito de ter me apresentado a sociologia. E se essa coluna foi escrita dessa maneira, com esse teor e esse conteúdo, grande parte deve-se a ele. Hoje, das minhas influências, só sobrou vivo o Lazzarato. É, a vida não está fácil para os críticos. E para voltar na teologia, não há diferença entre o crítico de hoje e o profeta de antigamente. A vida dos dois nunca foi fácil. Nadar a favor da correnteza é bem mais leve.

Gustavo Gumiero
gustavo@perfeitapalavra.com.br