Sobre a hospitalidade dos esquimós

FELIPE ADAID

Os esquimós, conhecido povo indígena habitantes do Círculo Ártico, tem uma vida tradicional e que pouco mudou nos últimos milênios. Sua alimentação se baseia na pesca e, para aguentar as severas temperaturas da região, tem o costume de preparar sopa feita com óleo da gordura de grandes mamíferos, como baleias, focas e usos polares. Dos animais caçados, nada é desperdiçado: o couro das focas e dos ursos servem de roupa e os ossos, principalmente das baleias, são usados como ótimas ferramentas. Assim como do gelo, que lhe serve de engenhoso abrigo nas baixas temperaturas glaciais, diante da construção de seus famosos iglus.
Porém, não é seu peculiar interesse por sopa de balia, nem seu engenhoso conhecimento que os tornam intrigantes. Conforme relatam os antropólogos, os esquimós representam um povo muito hospitaleiro e levam a etiqueta do anfitrião, criada pelos próprios ocidentais, muito mais a sério que nós, seus criadores. Uma vez que, se fossemos recebido em um lar comum, aos moldes europeus ou americanos, talvez, com muita boa vontade, receberíamos a própria cama do anfitrião como prova de amabilidade, no lugar de seu sofá ou de um velho colchonete.
Não obstante ao nosso modelo, os esquimós vão muito além no quesito de boas-vindas e cordialidade. Pois, ao receberem uma visita, quer de um conhecido que há muito não via, quer de um perdido em meio à tundra, pode ser que pela falta de uma king size ou um colchão d’água, eles ofereçam ao seu visitante o que têm de mais precioso: suas esposas! – Ainda que tal fato nos pareça primitivo, violento e, absolutamente, misógino!
Todavia, não devemos julgá-los, diante de nosso etnocentrismo costumeiro, nem nos entorpecer com críticas de moralistas, pela simples razão que de, como líderes religiosos, ou jamais terão uma esposa, ou, se as têm, logo após as bodas de porcelana, certamente, as trocarão por divertimentos solitários. Destarte, o que poderiam eles nos ensinar sobre vida conjugal?
Se, por um lado, levarmos em conta o crescente número de relacionamentos liberais, o crescimento das casas de troca de casais e, consequentemente, a descriminalização injuriosa no caso dos termos corníferos, graças ao instituto do costume, vemos que, após tanta maturação evolutivo, ainda permanecemos presos à Era do Gelo – se é que tentar sair dela nos tenha proporcionado grandes ganhos, mormente na intimidade conjugal!
Pior que isso, embora continuemos por oferecer nosso velho sofá-cama, desconfortável e levemente desgastado, àqueles que nos visitam e demonstramos tanta afeição. Quiçá, a adentrar na seara psicanalítica, no mais profundo e gelado círculo dantesco do inconsciente masculino, o que mais se deseja seja se livrar, uma noite ao menos, de quem o acompanhará, conforme o juramente sagrado que se obrigou a fazer, até o último dia – quer na triste sala de um velório, quer na alegre sala de uma vara de família.