Seres politizados?

Como todo bom adolescente, Miguel era chato. Muito chato. Entretanto, era de uma chatice produtiva, para não dizer encantadora. Como forma de se rebelar, resolveu ser politizado de verdade. Lia muito, ouvia muito, observava demais e filtrava tudo com uma maturidade bastante peculiar para um garoto de dezoito anos.
Seu entendimento sobre política era tão abrangente, que resolveu não se filiar a partido algum. Entendia isso como uma maneira de defender somente um ponto de vista, quando acreditava em todos de uma vez. Não era possível tomar partido de uma opinião somente, com tantas formas diferentes e interessantes de pensar a mesma coisa. No fundo, apesar de muito novo e ainda inexperiente, sabia que ter a cabeça aberta, querer entender opiniões somente com o viés de aprender e respeitá-las, era uma nova e corajosa maneira de lidar com o mundo, com a vida.
Não, isso ainda não era bem visto pela sociedade atual. Era uma mente muito à frente de seu tempo. As pessoas de sua época ainda acreditavam em esquerda, direita, oposição, brigas, tudo o que, para ele, representava uma política equivocada. Ouvia que era assim tão sonhador e idealista por ser ainda muito jovem. Seu coração dizia que isso era mais um equívoco, pois conhecia outros tantos sonhadores, como ele, com as mais diferentes idades, profissões, posições. Pensava que aquilo era mesmo uma característica do caráter, da alma, sabe?
Um professor do cursinho onde ele estudava, do alto de seus sessenta e cinco anos, era um de seus aliados no sonho de um mundo melhor. Um mito, com um passado político totalmente ativo, que era a personificação do significado real de política. Não pelo passado em si, mas por toda experiência de vida e pela essência do que é hoje como pessoa. Numa das primeiras conversas de corredor, viu nele um exemplo a ser seguido:
- Professor, o que fez com que o senhor desistisse da política para dar aulas para adolescentes?
E estava ali sua primeira grande lição e também seu refúgio mais acolhedor:
- Eu nunca desisti da política, filho. Eu só aprendi algumas coisas com a vida, que me fizeram entender que política se faz todos os dias, nos gestos pequenos e muito verdadeiros. Eu nunca desisti, só mudei de estratégia. Percebi muito tarde que não se constrói um mundo melhor sem ser uma pessoa melhor, sem respeitar as pessoas como são e ensiná-las a serem o que são, a darem o melhor de si, da sua verdade, naquilo que decidirem fazer na vida. Por isso, minha estratégia se voltou para a Educação. Se não deu tempo de eu agir antes como deveria, agora que aprendi o que muitos de vocês já nasceram sabendo, talvez eu possa ajudá-los nessa busca. Se vocês seguirem com seus propósitos, sendo felizes, terei cumprido minha missão de tornar este um país e um mundo melhor para se viver. Essa é minha política hoje. Quer um mundo melhor? Seja melhor.
Miguel sorriu, desconcertado. Era bom saber que existiam mais pessoas como ele, e que precisava continuar trilhando o caminho de sua verdade. Sentiu vontade de experimentar algumas coisas diferentes. Desistiu das passeatas, por hora, cansou de clamar por respeito, por paz, e de escrever textos em redes sociais sobre um mundo melhor. Decidiu ser melhor. Resolveu que também seria um exemplo. Hoje conta histórias para crianças, numa comunidade carente, fala com elas a respeito daquilo que é a base de sua essência mais pura: sonhos. Seguindo o raciocínio do professor, afinal, se não der tempo de sua geração realizar todas as mudanças, a que vem na sequência precisa estar nutrida de felicidade, liberdade de pensamento e muita alegria. E, para isso, nada melhor que sonhar, realizar e ensinar a sonhar, não é mesmo? Por um mundo mais leve e sorridente para se viver, por favor, por amor!