Rodrigo Maia: antes e depois

A eleição de Rodrigo Maia (DEM-RJ) para a presidência da Câmara dos Deputados só fez confirmar em muitos brasileiros a impressão de que Brasília está, de fato, descolada do Brasil. A ressureição do antigo PFL, defenestrado do Poder Executivo desde a derrocada de Fernando Henrique Cardoso, foi fruto de uma das mais inexplicáveis combinações de interesse político já vistas desde a constituinte de 1988. Uma eleição ganha por um dos mais aguerridos articuladores do impeachment da presidente afastada, e conquistada com apoio de setores da esquerda – que ainda lutam no Senado pelo retorno de Dilma ao poder.
Maia enfrentou, no segundo turno da eleição para o comando da Câmara, o ainda novato deputado Rogério Rosso (PSD-DF). Conhecido aliado do politicamente moribundo Eduardo Cunha, Rosso magnetizou para si o apoio do dito “centrão”, grupo de partidos nanicos, recheados por lideranças de pouco protagonismo na vida pública brasileira e que se notabilizou, a partir de Cunha, pela capacidade de se unificar em torno da barganha entre votos, cargos e verbas. Diante dessa composição, as forças de esquerda se viram então numa enrascada: apoiar um manifesto amigo do carrasco de Dilma ou dar guarida a um daqueles que propagandeou o voto pela sua saída.
Note-se, todavia, que essa sinuca de bico foi provocada pela própria falta de coesão dos partidos e lideranças que se tornaram oposição na Câmara após a posse de Michel Temer. PSOL, PDT, Rede, PCdoB, PT e setores do PSB e do PPS pulverizaram sua articulação em apoio a candidaturas isoladas de Luiza Erundina, Orlando Silva e Miro Teixeira, ou se aninharam a Marcelo Castro, do PMDB, que fora ministro de Dilma. O PSOL, unido a alguns poucos petistas e comunistas, abandonou o plenário e não votou no segundo turno. Altruísmo inócuo ou covardia disfarçada?
Concluída a votação, fica desenhado um cenário gelatinoso na correlação de forças entre o palácio do Planalto e a Câmara Federal. Michel Temer celebrou a vitória de Maia e disse, não se sabe se por medo ou por mera polidez, que o presidente tampão da Câmara ajudará o pais num processo de distensão. Já Rodrigo Maia se diz aliado de Temer, apoia a cassação de Cunha e deve sua vitória também ao grupo de parlamentares pró-Dilma.
Ainda que este mandato de Maia dure apenas até fevereiro de 2017, quando regimentalmente deve haver nova eleição na Câmara, será fundamental perceber como o novo presidente vai articular o dia a dia das votações. Temer tem pressa em aprovar projetos de “retomada” da economia e de “modernização” das leis trabalhistas. No entanto, uma pontual união do “centrão” derrotado e da oposição de esquerda tem votos suficientes para obstruir a pauta e travar os planos do governo interino.
Tranquilidade é uma palavra ainda distante no Planalto Central.

Jornalista e estudante de teologia pelo Centro Universitário Claretiano