Redenção

A grama, ainda gélida, penicava discretamente suas costas molhadas pelo suor gentil da corrida matinal no parque. Eram dias de verão muito intensos, de um calor que abalava os sentidos de qualquer ser. Talvez por isso não quisesse levantar dali tão cedo. Apesar daquele bafo infernal, ora ou outra batia uma brisa fresca, como um fio de esperança refrescante.
Tinha os pensamentos embaralhados, consumidos por uma tristeza ansiosa, mas o coração em paz. Sempre acreditou que as respostas da Força Maior, em sua maioria, veem da natureza. Talvez observá-la em sua forma mais intensa, suave e densa, seja mesmo a tão cobiçada chave para os mistérios da vida.
Vida. Estranha, fascinante, tediosa, bonita e alucinante vida. As formigas começaram a passear em seu braço, estático, numa fileira toda organizada e pragmática. Carregavam pedaços de alimentos, folhas, num estilo delicado e firme muito peculiar para criaturas tão miúdas. Entretanto, ao observá-las, começou a pensar se poderia realmente julgá-las pelo seu tamanho. Miúdas a partir de que? Com que referência? Um sopro comprido e acalentador de um vento salvador sem igual, a fez conectar com uma logística de insights desesperadores de tão belos. Era Deus, ela sabia. Ou a Força Maior, como gosta de chamar.
A miudeza da formiga para ela, nada mais era do que o tanto que ela se julgava maior, talvez por conta de seu contexto de humana e seu tamanho físico. E qual o motivo de tal julgamento, sendo contextos tão distintos e complementares ao mesmo tempo? Seguindo por esta linha de raciocínio emocional, percebeu o quanto julgar estava impregnado em sua alma ainda. E o quanto de mania de controle ainda havia dentro de si para se permitir julgar. Tudo assustadoramente de dentro para fora. Ao chegar nesse ponto, outras descobertas pousaram em sua alma para sempre.
Dentro. Fora. Sempre de dentro para fora. Dentro é um mundo que determina o mundo de fora, sempre. Se você se ama, ama ao próximo. Se você se julga, julga ao próximo. Se você tem paz, doa paz. Se você tem infelicidade, doa infelicidade. Perceber o tamanho de sua responsabilidade perante sua própria vida trouxe a ela lágrimas de redenção. Chorou compulsivamente até esvaziar toda resistência maldita em aceitar o inaceitável: nada está nem nunca esteve sob seu controle. Hoje se ama, amanhã se vai embora. Ou não. Hoje se tem saúde, amanhã não mais. Ou não. Hoje uma verdade, amanhã inverdade. Ou não. Como saber? Hoje se vive, um dia se morre. Não ter uma resposta trouxe a ela a birra pela vida, feito criança mimada.
Foi então que a chuva de verão começou. Sol e chuva juntos, numa sintonia tocante e emocionante de sentidos. A grama parou de pinicar e deu lugar ao barro aconchegando suas costas, feito canção de ninar. Terra sagrada, solo sagrado chamado vida. Há de se entregar sem entender para honrá-la. Há que se lançar a este desafio em paz. E pior, admitir que isso é bom, bonito, saudável.
De repente um arco-íris no céu fez secar suas lágrimas. Um sorriso largo e confiante se abriu, sua alma se entregou imediatamente a essa energia tão pura e divina. E foi então que sua redenção aconteceu. Ela agora pertencia ao Universo, se permitiu fazer parte Dele. A chuva cessou, mas o arco-íris permaneceu por alguns momentos. Tempo suficiente para ela se recompor dentro daquilo tudo que sobrou, ou seja, o hoje. Foi um susto promissor de boas novas. Descobrir que só se tem o hoje faz repensar tudo, todos os valores se invertem delicadamente.
Levantou e começou a caminhar em direção ao carro. A sensação era grandiosa, boa, parecia levitar e não caminhar. Percebeu as pessoas rirem dela, toda suja de barro. E só conseguia sorrir, grata. Mal sabiam eles que o barro foi sua redenção final e que vida, aquela plena, enfim, estava apenas começando para ela. A fluidez começava a acontecer. É isso e é só.