Quarentenar, ponto e vírgula.

Para muitos, a quarentena surgiu como uma quebra abrupta da realidade. Ela nos colocou em uma posição jamais antes pensada, uma situação a qual não estávamos preparados, além de escancarar as diversas desigualdades que o Brasil sempre possuiu, como a econômica e a social. Se alguém afirmasse em pleno janeiro que iríamos passar pelo momento que estamos passando agora no mês de maio, esse indivíduo seria chamado de lunático e receberia olhares tortos na mesa do restaurante. Entretanto, cá estamos nós, presos nesta realidade sem qualquer chance de fuga, de amparo.
Há, portanto, uma ação necessária e inevitável: a introspecção sobre as nossas próprias vidas. Agora que estamos reclusos em nossos lares -aqueles que têm esse privilégio de “quarentenar”- e convivendo com nossos familiares, percebemos o quão fundamental é a vida em conjunto e social. Ninguém sai de uma crise do mesmo jeito que entra e justamente por conta disso que devemos aproveitar o momento para meditarmos sobre nós mesmos. Aos que puderem, por que não ler um clássico? Por que não ver um filme mudo? E músicas? Por que não mudar o estilo e experimentar coisas novas?
Eu, particularmente, tenho tentado experimentar situações cotidianas diferentes. Descobri, por exemplo, que há um feixe de luz solar durante o pôr-do-sol que se manifesta no sofá. Ele entra pela janela de um dos quartos e atinge a sala para quebrar a realidade pandêmica e afirmar "Crise ou não, eu me ponho e me levanto todos os dias". O Sol estará lá, eu me lembrando disso ou não. O valor de um feixe de luz em um apartamento toma proporções poéticas em tempos como esse. Poema é aquilo que lemos, Poesia é a vida que nos cerca.  Além disso, me propus a ler Hamlet, continuar dois livros que não havia terminado até então, ler mais alguns, estudar temas que me auxiliem na faculdade e sim, ser ocioso. O ócio e o descanso foram necessários para me reencontrar e ressignificar esse momento. Apenas me sinto tão bem agora ao fazer aquilo que gosto, pois me permiti quebrar a rotina produtiva em que todos estamos inseridos e apenas existir, respirar, aproveitar a minha presença nesse mundo.
Ademais, talvez aprendamos nos fazer presentes quando em uma reunião social com amigos e familiares.  Quando pudermos sair de nossas casas para reencontrar pessoas queridas que, devido à quarentena, já não vimos mais, espero que não haja trocas de meias palavras enquanto olhamos o Instagram ou o Facebook. Que nos façamos presentes na vida, no afeto, nas relações. De ausência, já basta o momento que vivemos.
João Pedro Pazinatto Arake é estudante de História na Universidade de São Paulo -USP- e membro da Associação de Preservação Histórica de Valinhos- APHV. Além disso, possui um blog sobre ciências humanas e cultura, encontrado no instagram como @blog.etc .