Pequenas lembranças

No final da década de 50 na parte da manhã, eu cursava o primário na Escola Estadual Professor “Antonio Alves Aranha”, que ficava na Rua Sete de Setembro, e depois do almoço entregava roupas para a tinturaria do Sr. Arthur Galvão, hoje conhecida como lavanderia. Nesse serviço eu conhecia por nome quase todas as ruas de Valinhos.

Lembro-me que na atual Avenida Gessy Lever já existia a imponente fábrica da Gessy, empregando muitos homens e centenas de moças e os trilhos de trem se estendiam até os seus almoxarifados. A empresa utilizava vagões para receber matérias primas em grande quantidade, como o babaçu, amendoim e tambores de sebo. A antiga Gessy nessa área ao leste era toda cercada com tela de arame, como ainda é hoje. As moças tinham muito orgulho de trabalhar na Gessy, sendo assim uma das primeiras providências que faziam ao serem empregadas era tirar uma foto individual toda sorridente com o uniforme da empresa.

Nessa estradinha muito feia conhecida como “Estrada do Lenheiro” atual Avenida Gessy Lever, era de terra batida toda esburacada, quando não tinha pó era poça d’água sendo a única via de acesso aos bairros do Lenheiro e Vila Gessy. Acompanhando a estrada passava o Ribeirão Pinheiros, que depois mudaram o seu trajeto indo parar mais próximo a linha do trem  e rodeado com pés de eucaliptos em grande parte das suas margens. Entre a linha do trem e o Ribeirão Pinheiros havia algumas lagoas consequentes da retirada de barro da cerâmica Spadaccia que operou por ali por muitos anos.

Seguindo após entrada da Vila Gessy (entrada que existe até hoje), próximo a estrada havia um campinho de futebol bem plano ao pé do morro, onde a molecada jogava futebol todas as tardes. Depois do atual UPA começava o Bairro Lenheiro com casas muito simples, poucas ruas todas de terra, com os seus poços de água potáveis cobertos, não existia ainda nesse bairro a rede pública para distribuição de água tratada. Moravam por ali famílias tradicionais como Piton, Favrim, Tassi, Filigoi, Lourenço, Turquetti, os saudosos Nicolau Paschoal, “Mario poceiro”, Pedro Andreolli (o fôia) e outras famílias não menos importantes. Certa vez tomei um vinho puro e delicioso fabricado e servido pelo Sr. Turquetti.

No bairro do Lenheiro eu precisava perguntar onde moravam os novos clientes, porque não existiam os nomes de ruas e muito menos números nas casas. A população desse bairro reclamava na prefeitura, mas esse órgão não tomava providência. Certo dia alguns moradores cansados de esperar fizeram uma reunião onde resolveram por conta própria colocar nomes naquelas três ou quatro ruas e os respectivos números nas casas, aí foi aquele auê que fervilhou politicamente na cidade, onde muitos diziam: “onde se viu uma coisa dessa!”

Aproveitando o ensejo, a ideia inicial dos nomes das ruas e números nas casas foi de um inglês na idade média e se espalhou pelo mundo, sendo que essa numeração não por acaso é a distância em metros de cada casa ou terreno em relação ao início da rua. As ruas de um lado têm os números pares e de outro os impares, eles não se misturam, a não ser que estejam errados. A rua começa sempre do numero menor para o maior. Não sei se os moradores do bairro Lenheiro naquela época atentaram para esse detalhe, mas atualmente a sequência está correta.

Ainda hoje existem bairros em que a numeração de algumas casas não segue a sequencial correta, isso porque esses moradores certamente não fizeram a legalização completa via prefeitura, o que dificulta aos profissionais que precisam fazer entregas baseados na numeração dos imóveis residenciais ou comerciais.