Passarinho na gaiola...

“Os excessos tentam diminuir / Tudo o que nos falta sem conseguir / Vontades fazem de um rei, um escravo / Quando põe o mundo atrás das grades... / Todos precisam de um veneno para encher a sua taça de desejo / Todos precisam de um desejo para encher a sua taça de veneno” (Guilherme Arantes).
Caro leitor, cara leitora, dizem que passarinho na gaiola não canta, mas se lamenta. Quando se está preso, viver e toda a intensidade e riqueza que a vida implica, torna-se mero detalhe. Apenas se sobrevive. Ser humano na gaiola também não canta, não se realiza, mas nem sempre se lamenta.
Baseio-me, nesse artigo, no “Discurso sobre a servidão voluntária”, do francês Étienne de la Boétie, escrito por volta do ano 1560. O autor faz um manifesto pela liberdade humana. Ele indaga “mas, oh, bom Deus! O que pode ser isso? Como o denominaremos? Que desgraça é essa? Ou que vício? Ou, antes, que vício infeliz? Ver um número infinito de homen
s não obedecer, mas servir, não serem governados, mas tiranizados; não terem nem bens, nem pais, nem filhos, nem a própria vida a lhes pertencer.”
O mesmo autor nos lembra que são as próprias pessoas que se deixam, ou melhor, se fazem governar, pois sabem que cessando de servir estarão livres.
Mas a liberdade implica responsabilidade e também uma certa “insegurança”, às vezes solidão. Já servir, bem, servindo terá sempre um senhor que “cuida” de você, e que tolhe a sua liberdade. Por isso “gostamos” de ser servos. Liberdade espiritual, intelectual, financeira, eis o que o ser humano deveria buscar. Talvez as duas primeiras sejam mais fáceis, menos difíceis de se conquistar. Mas quem conquista as duas, a terceira já não é tão primordial. Criar um mundo em seu pensamento é libertador; viver nele é liberdade.
Étienne também nos lembra que para os povos antigos, os teatros, jogos, espetáculos eram “os atrativos da servidão, o preço da liberdade, as ferramentas da tirania”.
Pensando no tempo atual, construímos nessa era de “liberdade” a maior gaiola que o ser humano criou. Gaiola dourada, bonita, agradável aos olhos, e por isso agradável. Gostamos de morar nessa gaiola. Servimos, oferecendo informações nossas para outros (isso é controle). Sabendo ou não sabendo disso, é o que fazemos diariamente, seja na conversa entre amigos, seja no monólogo para todos.
É difícil olhar para o lado depois de uma vida de cabresto. Mas é o começo.
E o professor Leandro Karnal nos dá a dica: “Sejam resolutos em não servir... e vocês serão livres!!!”