O TEMPO QUE NUNCA CHEGA

Gustavo Gumiero Doutor em Sociologia pela Unicamp gustavogumiero.com.br @gustavogumiero

Cara leitora, caro leitor, existe na humanidade um desejo ardente pelo futuro, por um tempo de progresso que chegará e que supostamente será melhor, enfim, o ápice da evolução; ou um tempo sem tempo, eterno, sem dores, sem aflições. Coube a algumas religiões inventar e desenhar esse momento na eternidade, no qual, para termos acesso e sermos merecedores, teríamos de nos privar de algumas experiências terrenas, participar de certas obrigações religiosas, ter um comportamento de acordo, em resumo, estar dentro de certos preceitos. E muitas vezes deixamos de viver imensamente e plenamente para podermos adentrar esse reino.

Mas também cabe a algumas ideologias o suposto presente do futuro. Um mundo mais humano, menos cruel, nações mais desenvolvidas e ricas, são as promessas dos “ismos”. O comunismo, que nunca conseguiu ser colocado em prática, em que não precisaríamos trabalhar. O capitalismo, que promete que um dia você tornará o seu tempo de trabalho o seu tempo de lazer, que será tudo prazeroso. Ou mesmo que você terá uma aposentadoria satisfatória, mas para isso é necessário trabalhar o quanto mais agora.

As inovações tecnológicas nos prometem um mundo sem doenças, sem falhas, com conexão em tempo integral para tudo. Automóveis, casas, eletrodomésticos “inteligentes” que nos pouparão tempo das tarefas mais penosas. Futuro, sempre ele. Um dia ele vai chegar, dizem os seus propagadores, e está na porta nos esperando. Abra e o receba!

Já me privei de qualquer esperança de um futuro melhor. Não que o passado tenha sido bom. Como mostra a nossa história, ano após ano, regime após regime, religião após religião, crimes e mais crimes foram e continuam sendo cometidos contra nós mesmos e contra nossa casa, a Terra.

Procuro viver o momento, o dia, a noite, os dias. Nada parece tão distante do amanhã. Ou então no ano que ainda estamos vivendo. Mais que isso, com esse mundo dinâmico, para não dizer transtornado no qual vivemos, creio que é uma pequena, mas não suficiente, proteção contra a depressão, contra o suicídio.

O que podemos oferecer aos jovens? Esperanças? O que podemos oferecer aos velhos? Um viver o final da vida digno? É triste não ter respostas concretas para simples perguntas, mas as respostas mais verdadeiras para essas indagações seriam o não. Não, não e não. Será que vivemos aqui a vida que gostaríamos de viver na “eternidade” (se ela fosse possível) como bem indagou o filósofo Nietzsche? Não estamos nem próximos.

Mas nem por isso devemos desistir do nosso mundo, da nossa existência. É necessário lutar, pelejar as batalhas da vida, que nunca são pequenas. Podem ser pessoais, mas nunca são fáceis. É necessário uma certa dose de força e de coragem.