O riso é o início da oração

Não é fake news: com a variante Ômicron, o fim da pandemia se aproxima a passos largos e o horizonte próximo é bem positivo para nosso povo, exceto pelas marcas emocionais que esse tsunami sanitário foi deixando na saúde mental das pessoas. Neste momento, chama muito mais atenção o nível de neurose que atingiu muitos de nossos familiares, vizinhos e colegas de trabalho.

Todos viram que o efeito rebote da pandemia e da crise econômica repercutiu nas situações mais triviais do dia-a-dia. Para além da perda da saúde, da perda de emprego e de renda, o que vimos até aqui tem sido uma constante crise de entendimento acerca não apenas da pandemia, mas invadindo temas como política, educação, cultura, economia e outros. Um saco certos churrascos, ein.

A uma primeira impressão, diria que não aguento mais tanta polarização. Porém, com um olhar mais atento e uma guarda mais baixa, pode-se ver que são os conflitos que abrem janelas de oportunidade para onde o entendimento não consegue chegar sozinho. É na crise, no debate e no antagonismo das ideias que está a chave. Tanto na física como na vida, é o caos o motor das mudanças!

Preste um pouco mais de atenção e veja que está nascendo no Brasil (e talvez no mundo todo) uma nova consciência, baseada menos na certeza e mais no questionamento. Nunca esteve tão em evidência o bom e velho debate, no cafazinho do trabalho, na mesa de bar. Só no whatsapp que ainda precisa dar uma organizada porque aquilo ali tá uma bagunça. Mas vai chegar lá.

Por mais que tudo pareça caótico e amizades de longa data tenham pago um preço caro com a pandemia, tenho a confiança plena de que nestes anos de 2020, 2021 e agora em 2022 estamos plantando muitas das sementes de um povo mais maduro, empático, consciente e empreendedor.

É da natureza: o bebê cai quando começa a andar, a criança com a bicicleta. Somos assim. Não nascemos prontos, vivemos com essa consciência e permitimos a vida seguir da adaptação à realização. Por isso saímos da caverna e chegamos a este apogeu tecnológico que já cogita viajar no espaço/tempo ainda nesta década.

A frase do título deste artigo não é minha. Quem me dera. É do teólogo americano Reinhold Niebuhr e encarta a segunda edição (1987) do livro A Gestação do Futuro, do nosso saudoso brasileiro Rubem Alves. Ao fim e ao cabo, ambos falam sobre esperança e sobre o dever de nos mantermos sãos, inteiros, já que “somos o contorno de nossas nostalgias”.

Portanto, é chegado o tempo de reagir. O tempo de se reinventar. De viver o novo em nossas vidas a partir das experiências vividas – as boas e as más. Olhar para dentro, se acalmar e se conectar com o seu íntimo, sem sombra de dúvida, é manobra vital contra a comoditização das convicções e dos valores. Seremos melhores já em 2022 e muito mais no que vem depois. Por isso, ria. O riso é o início da oração. Oremos. Com a TV desligada.