O Brasil desaba

O Rio de Janeiro está prestes a sediar as Olimpíadas de 2016, celebrando uma conquista da América Latina e do Brasil por ser a primeira cidade do continente a receber os jogos. Quando a capital fluminense foi escolhida pelo Comitê Olímpico Internacional, lá em 2009, o nosso país vivia um momento de forte expansão econômica e a qualidade de vida dos brasileiros melhorava a olhos vistos. Como justificativa para ser a sede das Olimpíadas, o Rio defendeu o “ineditismo local e o positivo momento econômico”, e o então presidente Luiz Inácio Lula da Silva declarou que “os Jogos Olímpicos no Rio serão inesquecíveis, pois estarão cheios da magia e da paixão do povo brasileiro”. A nossa candidatura tinha o projeto mais caro – o orçamento dava-se em R$ 28,8 bilhões à época, segundo notícia do Jornal Gazeta do Povo escrita à época.
É fato que as paixões dominam o povo brasileiro, mas não da maneira como Lula desejava: estamos divididos em vermelhos e amarelos, e o ódio toma as ruas e divide famílias e amigos diante da votação do impeachment da presidenta Dilma Rousseff. O circo protagonizado pela Câmara dos Deputados escancarou aos brasileiros o nível intelectual dos nossos parlamentares, e o fato, diante da importância do Brasil, repercutiu no mundo todo – saímos da história humilhados, num processo que faz a imprensa internacional exalar desconfiança. Na semana passada, a Abin confirmou que o país foi ameaçado por um membro do Estado Islâmico. E como se não bastasse, um trecho de vinte metros de uma ciclovia inaugurada há três meses numa avenida da capital carioca desabou ao ser atingida por uma onda, enquanto o prefeito Eduardo Paes estava, ironicamente, na Grécia, onde participaria do acendimento da tocha olímpica.
Duas mortes já foram confirmadas no desabamento da ciclovia, que custou R$ 45 milhões e repito, foi inaugurada há três meses. O prefeito classificou o incidente como “imperdoável” e disse que irá apurar as causas. Mas ninguém devolve a vida aos dois mortos. Testemunhas afirmaram que a estrutura de concreto ruiu como uma folha de papel, e um vídeo feito por um cinegrafista amador mostrava a onda impressionante atingindo a ciclovia. Não podemos, contudo, cometer a indelicadeza de culpar o oceano. Os cariocas podem afirmar com muita propriedade que o mar tem momentos de mau humor, e as ondas são uma consequência disso. Como pode o incidente não ter sido previsto pelos responsáveis pela obra? É o que o mundo todo se pergunta, observando com atenção uma cidade que se prepara para ser a sede das Olimpíadas.
O Brasil surge lamentavelmente humilhado em mais esse episódio. Não se trata aqui de fazer um exercício de futurologia e prever que os jogos serão um desastre; é muito provável, inclusive, que tudo corra perfeitamente bem, como foi na Copa de 2014. Afinal, o Rio é uma cidade encantadora. Mas fica muito feio aos olhos do mundo um incidente como este e o desperdício de dinheiro público. De fato, não vivemos o nosso melhor momento. Como questiona um artigo de opinião publicado ontem na edição online do jornal El País, “quem amaldiçoou o Brasil?”.