Meu Chile

Fez as malas como quem parte de si mesma, com pressa. Enrolou o cachecol vermelho no pescoço delicado e foi ter com a vida.  Talvez conhecer a neve e comê-la, como sempre foi seu sonho de criança, trouxesse de volta seus sentidos mais esquecidos e ludibriados pela dor.
Apesar de dominar a língua daquele lugar, o choque cultural fez com que entrasse em outra dimensão, uma sensação de êxtase ao perceber que a vida parava o tempo como o melhor presente que alguém poderia ganhar por justiça e também merecimento.
Um hotel pequeno, familiar, charmoso e acolhedor, deu as boas vindas da maneira mais gentil que se possa imaginar. Ela estava, finalmente, em casa. A porta se fechou, o silêncio do quarto sorriu com tanta intensidade que a fez chorar, muito. A sensação de ser sozinha se confundia muito com a sensação de estar só. Lavou o rosto, passou rímel, batom e saiu para comer. O ronco do estômago falou mais alto que o choro. Os dias seguiram numa paz bonita e branca, feito a neve.
Cumpriu toda sua programação com o orgulho de honrar um compromisso consigo mesma. Ali começou uma linda história de amor entre ela e sua mais profunda essência de ser. Muitos sonhos realizados, num curto espaço de tempo, permitiram acreditar novamente na magia da vida.  Cada acontecimento era especialmente permeado de flocos de satisfação, leves e doces, que caiam delicadamente, como a neve. As casas do Neruda foram todas visitadas, todas com cheiros de lembranças tão ainda vividas ali. Entretanto, o espírito dele pode mesmo ser sentido na casa de Isla Negra. Uma comoção tomou conta dela, como se estivesse visitando, enfim, seu grande amigo Neruda. A glória do contato com um ídolo é a sensação de pertencimento ao mundo dele, assim gratuitamente e genuinamente.
O Chile, dentre muitos presentes, trouxe um amigo para a vida toda. E a gratidão desse encontro sempre fará parte do coração dela. Trouxe sabores de comidas exóticas e originais. Trouxe, para dentro dela, a alma de um povo amável por natureza e lindo por existência, que tanto tem a ensinar sobre gentileza. Trouxe um azul de céu jamais visto em lugar algum. Trouxe uma chuva divertida, com paraguas sendo vendidas, aos berros, em toda esquina. Trouxe a perda de si mesma, no metrô e no coração. Trouxe o retorno dela para ela mesma, na vida e na essência. E trouxe a visão e a sensação, tão indescritível, de saborear o divino que há na neve.
A neve. Olhou perplexa para o tanto de Força Maior que havia naquele cenário branco. Um branco tão puro e tão encantador, que mal sentia o frio ou as mãos congelando. A paz que tanto procurava teve seu ápice bem ali. Sentou no alto da montanha e chorou, mas agora de felicidade irrestrita. A imensidão daquela brancura tomou conta de sua alma e preencheu seu ser dela mesma, mas agora estava aberta a sentir toda paz que sempre foi dela. E finalmente, o reencontro consigo mesma explodiu. Foi lindo, emocionante, intenso e docemente solitário.
Os dias em outra dimensão findaram. Fez as malas, voltou para casa, mas voltou outra pessoa. Mais amiga, amante e ídola de si mesma. Uma nova história de amor estava, finalmente, começando...

 

Daniela Vitor, escritora, mestranda em Divulgação Científica e Cultural pelo Laboratório de Jornalismo LabJor Instituto  da Unicamp