Jesus coadjuvante

Quando se fala de fé, a passagem mais importante para mim do livro dos cristãos está em Marcos 5:25 (a fonte mais antiga dos quatro evangelhos). Tal cena é uma das raras em que Jesus não aparece como o protagonista da história, mas coadjuvante. A personagem principal é a mulher que toca nas vestes dele, ou melhor ainda, a fé daquela mulher, já que nem o nome dela foi mencionado.

O relato menciona que a mulher tinha gasto tudo o que tinha recorrendo a vários médicos, mas sem sucesso. Sua saúde só piorava e ela não via outra saída senão tocar as vestes de Jesus. Pensava ela “Se ao menos tocar suas roupas, serei salva [dessa hemorragia]”. Além do fato da hemorragia ser humilhante, pois o sangue saía continuamente dela por 12 anos, ela também colocava a mulher em estado de impureza legal para os judeus da época.evítico 15:25 aponta que “quando uma mulher tiver fluxo de sangue de diversos dias [ou seja, menstruação], fora do tempo das suas regras, ou se as suas regras se prolongarem, estará, durante toda a duração do fluxo, no mesmo estado de impureza em que esteve durante o tempo das suas regras”. Não só ela, mas tudo o que ela tocasse, fosse a cama, fossem os móveis, ficava impuro. E quem, por consequência, os tocasse, também ficava impuro. Mas ela queria ser curada de sua hemorragia e acreditava que seria tocando em Jesus, de quem ouvira falar. E naquele momento, no instante em que toca a roupa de Jesus, ela sentiu em si a cura. Só então aparece Jesus ativamente na cena. Só depois que ela o toca, é que Jesus se vira para a multidão e pergunta quem havia tocado na roupa dele – pois ele sentiu a força que saiu dele quando foi tocado. Mas ela estava com medo de assumir, pois, na lei judaica, ela estando impura, qualquer pessoa que ela tocasse, também ficaria no mesmo estado de impureza que ela. Mesmo assim, ela caiu aos pés de Jesus e confessou. E Jesus simplesmente finaliza: “A tua fé te salvou; vai em paz e fique curada desse teu mal”. Ou seja, não foi Jesus quem a curou, mas sim a fé da mulher, a fé que se transformou em uma ação de tocar a roupa de uma pessoa no meio de uma multidão que os apertava.

Gustavo Bissoto Gumiero
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