Insensatez

A madrugada silenciosa rompe brutalmente o barulho interno e ela desperta, digna de uma nova era, enfim. As listas, todas elas, enumeram toda e qualquer atividade em sua vida. Da lista de mercado, passando pela lista de sonhos, até alcançar a lista de desejos de um mundo melhor.
Gente de Humanas tem dessas coisas, mas realmente é necessário. Veja, são inúmeros pensamentos sobre os mais diversos assuntos, com as mais diferentes complexidades. Ou lista ou morre. Ou escreve ou explode.
Ser escritora também tem dessas coisas. As pessoas pensam que ela pensa estrategicamente nas palavras, mede cada significado, junta tudo como numa melodia, revisa, altera, ajusta, escreve de novo. Muito romântico esse pensamento, mas não! Ela vomita cada texto, na ânsia de esvaziar-se um pouco de si mesma e saborear alguma tranquilidade de ser e não pensar. Acontece que quanto mais escreve, mais sente necessidade de escrever. As palavras saltam dela, num êxtase repleto de sorrisos desesperados por liberdade. A forma como escreve, toda complexa e repleta de mistérios sedutores, nada mais é do que aquilo que ela realmente é. A logística de sentimentos que preenche cada pedaço seu, transborda sem parar e engole o papel.
As palavras quando nascem de alguém, têm vida própria. Para ser de fato escritora, talvez seja necessário, antes de mais nada, simplesmente não tentar ser. Não é algo que se tenta insistentemente ser, compreende? Você nasce e se descobre. Bem simples, nada concreto, do jeito que ela gosta.
Quem escreve acaba por estar entregue ao Universo. Escrever é ser canal. Você senta, conecta e diz: como posso ser útil hoje? É forte, acontece isso mesmo. Só que aquele que escreve os códigos da vida também recebe uma mensagem toda codificada. Então é preciso que se compreenda e não se pergunte tanto. Cada texto levará a cada um o que, exatamente, cada um precisa. E então, quem sabe por último dos possíveis significados do texto? O escritor, claro. Começa a descobrir somente quando lança suas palavras, confia e aguarda. As respostas chegam, normalmente, quando começa a descobrir como aquilo contribuiu para a vida das pessoas. E então o mesmo texto, sobre o tudo e o nada, por exemplo, pode ter sido decisivo na vida de uns e pode ter sido um inferno astral na vida de outros. Partindo do princípio que o que chega é apenas uma amostra, fica muito clara a conclusão mais óbvia possível, e tão cruelmente escondida até então: não há controle sobre os resultados, não é possível medir o efeito que as palavras causam ou não nas pessoas.
E você pode estar se perguntando: para que, diabos, ser escritora então?
Não sei. E a resposta vem muito daí. Não é pela sensatez que se é escritora, mas justamente pela falta dela. Não preciso e não tenho a permissão de saber. Preciso apenas SER e me basta. É isso e é só.