Imunidade de rebanho e isolamento horizontal: por que é tão difícil encontrar um consenso sobre a quarentena

Desde que a estratégia do isolamento social horizontal foi adotada na maioria dos estados do país como tentativa de tentar reduzir a velocidade da disseminação do novo coronavírus, as discussões sobre sua eficácia ou não têm se tornado cada vez mais acaloradas. Muitos são os argumentos daqueles que defendem a manutenção da quarentena, assim como também são inúmeras as alegações de quem propõe a sua flexibilização e a retomada do funcionamento normal da economia.
Dos dois lados da trincheira, médicos, pesquisadores, políticos e formadores de opinião das mais diversas áreas defendem seus pontos de vistas nos veículos de comunicação ou nas redes sociais. No meio de tudo isso, o cidadão comum se pergunta: quem está com a razão? Provavelmente, só a História terá essa resposta. Por enquanto, o que existem são os argumentos e, conhecê-los pode ser importante para, ao menos, tentar entender o porquê é tão difícil chegar a um consenso sobre o tema.
Os que defendem a continuidade da quarentena argumentam que o isolamento social reduz a taxa de transmissão e retarda o aparecimento do pico da doença, que é quando haveria um forte crescimento do número de infectados antes de começar a ter um decréscimo. Por outro lado, existe uma regra que indica que, se o contágio chega a 70% das pessoas, o vírus não consegue achar os outros 30% e deixa de circular, é o que se chama de imunidade de rebanho. Baseados nessa regra, quem se coloca a favor da flexibilização da quarentena, acredita que, na falta de uma vacina, quanto mais pessoas forem infectadas pelo novo coronavírus, maior a chance de todos se tornarem imunes.
O argumento da imunidade de rebanho é rechaçado por quem é a favor do isolamento social em grande escala porque o sistema de saúde do Brasil não teria capacidade para lidar com o grande número de internações que seriam necessárias para que o vírus parasse de circular. Para esse grupo, a quarentena e as medidas de isolamento social devem ser mantidas para evitar a propagação do vírus e causar um achatamento da curva do número de contágio dando tempo para que o sistema de saúde possa ampliar o número de leitos destinados aos pacientes da Covid-19, evitando o colapso, no qual os hospitais teriam que escolher quais pessoas seriam atendidas prioritariamente e deixar as demais em uma fila de espera, onde poderia haver muitas mortes.
A questão econômica é um dos principais ingredientes de toda essa discussão. Quem acredita na eficácia do isolamento diz que quem apoia a flexibilização está pensando apenas no dinheiro em detrimento de milhares de vida. Do outro lado, aqueles que não concordam com a manutenção da quarentena afirmam que a depressão econômica causada pela estagnação da economia trará forte recessão o que pode aumentar o quadro de miséria social e outras causas de morte, como a fome. Para este grupo, uma saída viável ao isolamento horizontal seria a adoção do isolamento vertical no qual os mais velhos e portadores de condições de saúde pré-existentes (o grupo de risco) ficariam protegidos em casa, enquanto os mais novos, cuja probabilidade de serem mortos pela doença é menor, sairiam para trabalhar e fazer a roda da economia girar.
O fato é que o conhecimento real do número de infectados no país poderia trazer alguma luz a essa discussão e ajudar governos e órgãos públicos a tomarem decisões mais embasadas. No entanto, convivemos com a falta de testes suficientes para saber quantos indivíduos, de fato, tiveram contato com o vírus. Aliás, os balanços apresentados diariamente e amplamente debatidos nos meios de comunicação estão longe de representarem a realidade, pois fora o atraso nas notificações causada pela falta de teste, ainda há o fato de que os casos leves nem mesmo são testados. Sem contar o número daqueles que tiveram contato com o vírus e não apresentam qualquer sintoma da doença.
As autoridades sanitárias estimam que 60% da população deverá entrar em contato com o coronavírus nos próximos dois anos. O que significa que teremos de conviver com ele por algum tempo ainda. No entanto, esse vírus é tão diferente de tudo o que já vimos que não é possível nem mesmo garantir que a criação de anticorpos após a exposição vá realmente garantir a imunidade ou se existe a possibilidade de reinfecção provocada por eventuais mudanças em sua cepa.

Juliana Oba Costa é médica patologista dos Laboratórios DMS Burnier.
Médica Patologista Clínica, formada pela UNICAMP, possui título de Especialista pela Sociedade Brasileira de Patologia Clínica e MBA Executivo em Saúde pela Fundação Getúlio Vargas.