Filosofando os Filósofos

Um dia me perguntaram se eu tinha inveja de alguém, fiquei num beco sem saída. Ah! como eu invejo os filósofos, mas como depois explicar esses Pitágoras da vida?. Eu os invejo e sei que jamais poderia ser igual a eles, eu penso que é uma bagagem que trouxeram de outras vidas. Por mais que eu estudasse pelo resto da minha vida, lesse aqueles livros de pensadores tão esdrúxulos para um simples mortal feito eu, mesmo que me recolhesse num mosteiro para meditação ou ainda que tivesse algum deles como mestre em tempo integral seria tudo em vão.

Eu sei por causa dos meus hábitos, sempre querendo ser perfeccionista, seguir religiosamente os horários, os agendamentos, até o risco comigo passa a ser um risco calculado. Não que os filósofos não sejam assim, mas eles têm outro modo de encarar os percalços da vida, é uma temeridade enquadrá-los em qualquer ideologia, para eles o simples acaso não feito por acaso.

Quando eu ministrava palestras guiadas pelo datashow, ainda assim as minhas pernas tremiam, mesmo sabendo que as imagens trariam os assuntos sequenciais e pertinentes. Com os filósofos não seria assim, fariam diferente, se fossem palestrantes nada estaria formulado, talvez nem o tema de maneira consciente. Entrariam no cenário com as mãos abanando e com uma idéia fixa, a palestra de hoje será bem diferente da de ontem e a de amanhã. Eles improvisariam, lembrariam de centenas de citações nos livros que leram. Às vezes esqueceriam o autor de uma frase, daquela idéia. Muitas delas foram eles que as tiveram, mas teriam a humildade de dizer de não se lembrar mais do autor, para não dizer que o autor é ele.

O cenário da palestra é formado por enorme plateia e a fila do gargarejo é a mais disputada, na qual o filósofo certamente inquerirá à alguns participantes perguntas filosóficas, escolhendo sem saber os personagens que passarão da estória para a história. O povo vai silenciar, delirar, vibrar, sorrir, querer chorar, aplaudir e amanhã voltar para assistir tudo de novo, porque sabe que aquele espetáculo é único, em nenhum dia mais será o mesmo.

Imagine o cabedal de conhecimento dos filósofos, começam falando do nada, de qualquer coisa, ligando esse nada às vezes a lugar nenhum, como dizem da nossa estrada a Transamazônica. Mas o lugar nenhum deles é diferente do nosso, é uma estação repleta de pessoas esperando o trem chegar, essas que nunca viram um trem sequer em todas as suas vidas. É assim que fazem conosco.  

Um filósofo quando fala todos emudecem, ninguém quer perder uma palavra. Ele nunca pede silêncio, a sua simples presença silencia a todos. Em certos assuntos emite sinais de completa desordem mental, para não cairmos no ridículo em perguntar, ficamos somente pensando: “o que será que ele está querendo sinalizar com isso?”. Mas ele silenciosamente mapeia as dúvidas dos nossos pensamentos naquele assunto que nunca havíamos pensado e finaliza com um facho de luz, que nos premia por aquela escuridão, que nem sonhávamos que existia.      

Os filósofos poucos são lembrados, representam mais para si mesmos. Nós frequentemente não valorizamos as suas avaliações de vida. Lembro-me da passagem de um deles tratando de assunto de extrema importância, era o filosofo Diógenes que pediu gentilmente para que Alexandre “o grande” saísse da sua frente para que pudesse receber a luz e o calor do sol em seu corpo. Às vezes os confundimos com loucos, mas é uma loucura premiada, que pouca gente tem, e ainda com o poder de saber contemplá-la. Por certo a vã filosofia não foi proferida e nem avaliada por nenhum filósofo, se fosse ela não existiria como vã.