A festa de todos os brasileiros

A festa de todos os brasileiros

O carnaval é o feriado nacional do Brasil. É o momento em que o país inteiro para, seja para festejar ou descansar. Nas capitais nordestinas, festeja-se com axé ou frevo; no Sudeste, as agremiações vão ao sambódromo ao ritmo de suas contagiantes baterias, afora os milhares de blocos que tomam conta das ruas do país, das cidades históricas de Minas Gerais ao interior de Pernambuco. Trata-se de uma mistura de ritmo e raças, na qual não há superioridade de classe social, cor ou orientação sexual. E eu devo assinalar aqui que adoro essa coisa toda.
Para muitos, a festa tem forte conotação religiosa; são comuns, nesta época, retiros espirituais de várias denominações cristãs. E eu, que fui criado numa família católica, sempre me dei ao luxo de comemorar o carnaval da melhor forma possível, especialmente desfilando na minha escola do coração, o tradicional e valinhense Leão da Vila. Neste ano, Valinhos não fará o carnaval de rua, conhecido por ser um dos melhores da região, por conta da crise econômica. Dizem os nossos cidadãos mais antigos, aqueles que ainda puxam a letra “R” no melhor estilo italiano, que em décadas passadas a cidade tinha um carnaval de rua fabuloso.
Não é o caso de Valinhos, mas o carnaval em grandes capitais tornou-se um negócio para além da festa em si. Em São Paulo e no Rio de Janeiro, por exemplo, a folia gera milhares de empregos. Somente em seu grupo especial, aquele que você assiste na TV, a capital paulista conta com quatorze escolas de samba, e a capital fluminense, com doze. Para levar à avenida desfiles com tamanha grandiosidade, é necessário um longo e árduo trabalho. Afora isso, as agremiações possuem trabalhos sociais respeitáveis em suas respectivas comunidades, que vão de escolinhas de bateria a cuidados médicos para quem não pode pagar. Estamos falando de muito mais do que um dia de desfile.
Têm certa razão as pessoas que apontam problemas, como a sujeira nas ruas deixadas pelos blocos e a bebedeira de alguns foliões, mas esse tipo de pormenor não é característico apenas dos brasileiros. Em qualquer lugar do mundo, uma festa na qual centenas de pessoas se reúnem, acaba resultando em lixo no chão, mas não creio que seja justo atribuir a falta de educação de determinadas pessoas ao carnaval. A festa não transfere ninguém a um novo estado de espírito e nem tampouco deixa as pessoas enlouquecidas ou lhes tira o juízo – os motivos para que tais eventualidades aconteçam devem ser repensados e atribuídos a quem de fato deve. Por favor, deixem a folia em paz.
Neste ano, decidi permanecer distante do carnaval, por uma série de motivos pessoais. Mas quem é do samba, como eu sou, sabe muito bem: é impossível ficar absolutamente longe. Os sambas-enredo chegam até nós, e as baterias, nos ensaios de quadra, de rua e de sambódromo, fazem o mesmo por meio de vídeos amadores gravados por pessoas que, como eu, adoram carnaval. E todos eles me arrepiam. Gostaria de mencionar aqui cada um dos sambas pelos quais eu me apaixonei em 2016, mas o espaço é curto e precioso demais para que eu me dê ao luxo de certas minúcias. Resta-me afirmar, como o faço todos os anos, que eu trocaria todos os demais feriados pelo carnaval, pelas evoluções da bateria, pela beleza dessa festa que engrandece o Brasil no mundo todo. 

Guilherme Boneto é jornalista formado pela PUC-Campinas e colunista do Carta Campinas