Ferrar-nos-emos? Tomara que não!

Temos aí, diante dos nossos olhos, o governo Temer. Uma gestão que mais parece um dramalhão mexicano, que já começa em crise.
Iniciamos pelo próprio discurso do presidente interino até agora: sempre empolado, cansativo e descolado da realidade. A marca do uso desmedido das mesóclises (essa colocação do pronome no meio da forma verbal no futuro) revela uma empáfia de quem pensa ter a certeza de que nas suas mãos está a salvação do país. A outra face da moeda é falta de tato. Prova disso é que a primeira tentativa de negociação entre o “novo” governo e as entidades sindicais já naufragou.
A seguir vem formação do ministério. Pessoas muito bem relacionadas com o status do parlamento brasileiro, indicadas pelas siglas que foram magnetizadas pelo PMDB (de novo ele!), mas que pela empáfia do discurso e pela estirpe palaciana pouco ou nada conhecem sobre o que se passa no caminho entre as residências oficiais e os gabinetes. Fosse “apenas” isso, não estaríamos tão mal. Para ajudar a engrossar essa indigesta mistura, em 19 dias foram duas trocas de comando em postos considerados fundamentais. Primeiro no Planejamento, ocupado até então por Romero Jucá (PMDB), um dos principais articuladores do impedimento de Dilma Rousseff no Congresso. Depois, a demissão de Fabiano Silveira, afilhado político de Renan Calheiros (olha, também do PMDB!), do recém-criado ministério da Transparência, que substituiria a tão elogiada CGU – Controladoria Geral da União.
Depois vem o trabalho dos ilustres ministros e seus assessores. Até aqui, desastroso, tanto pela empáfia refletida do mandatário quanto pela total necessidade de marcar posição, independente dos custos dessas escolhas. Exemplos não faltam. José Serra, que tem nas mãos a diplomacia do país, vem se comportando como um elefante bêbado numa loja de cristais. Alexandre de Moraes, na pasta de Justiça, será sempre lembrado pelo modo truculento com o qual deu orientação a condução da Polícia Militar enquanto secretário aqui em São Paulo. A nova secretária de defesa dos direitos das mulheres coloca o fundamentalismo da religião acima da discussão sobre a diversidade de pensamento no Estado de Direito. A única ressalva até aqui fica para Gilberto Kassab nas Comunicações, que assumiu sem pestanejar o compromisso de tocar adiante as políticas que estavam em curso.
Por fim, a economia. O discurso de salvação nacional apregoado até aqui já foi para a cucuia, com a aprovação pela Câmara de um mega reajuste salarial aos servidores públicos. A faca que iria cortar na carne do Estado já mudou de direção e mira o mesmo alvo de sempre. O pescoço do trabalhador que ganha menos.
A nós resta continuar fazendo barulho em defesa da democracia brasileira.

Jornalista e estudante de teologia pelo Centro Universitário Claretiano