Eu, acima de tudo e... Eu acima de todos!

WANDERLEY DE MATTOS JUNIOR 

Irresponsabilidade? Devaneio? Realidade paralela? Ou uma genialidade incompreendida?
O pronunciamento do presidente da República ao Brasil ontem não poderia ter sido mais surpreendente: diante dos fatos, das mortes, do colapso da economia em todos os países, seu discurso rema contra a maré, na mesma intensidade em que um kamikaze mergulha seu avião rumo à população que almeja destruir – com uma diferença: esse kamikaze atira seu avião contra seu próprio povo.
Bolsonaro nega a ciência, nega a gravidade da situação, nega as ações duras tomadas em outros países, nega a realidade das mortes, nega o colapso dos sistemas de saúde até de países do primeiro mundo, nega a urgência de tomarmos medidas precoces para não chegarmos ao mesmo colapso, nega que a pobreza e a desigualdade social do nosso país concorrerão para uma situação ainda mais terrível que a italiana se medidas duras não forem tomadas.
Mas por quê? Será que os principais líderes mundiais, inclusive Boris Johnson e seu idolatrado Donald Trump, que resistiram a tomar medidas severas acabaram por tomá-las estão todos errados? Será que temos no Brasil um gênio incompreendido a nos presidir? Alguém cuja sabedoria e perspicácia são tão inescrutáveis para seres humanos comuns e potências mundiais? Será que as atitudes preventivas dos governadores de São Paulo e Rio de Janeiro, seguidas por outros, são resultado de histeria ou meramente de aproveitamento político do momento? Ou, haveria espaço para se olhar para o mundo, para a onda de caos e morte que vem vindo e aprender com os erros dos outros países e tomar medidas duras antes que seja tarde demais, quando medidas ainda mais duras teriam de ser tomadas com resultados pouco alentadores?
Mas o que mais me chama a atenção em seu discurso insano, irresponsável e de negação absoluta da realidade é a seguinte frase:
“No meu caso particular, pelo meu histórico de atleta, caso fosse contaminado pelo vírus, não precisaria me preocupar, nada sentiria ou seria, quando muito, acometido de uma gripezinha ou resfriadinho”.
Narcisismo.
Em sua recente entrevista ao programa Roda Vida, Gustavo Bebiano disse que Bolsonaro realmente acredita ser alguém especial, como se de fato fosse uma espécie de messias, de salvador da pátria. Bolsonaro (65) faz parte do grupo de risco por ter mais de 60 anos. Mas se sente invencível, como se nada nem ninguém pudesse detê-lo, custe o que custar.
Quando líderes mundiais estão se curvando diante da realidade da morte em massa de pessoas, abrindo mão de dinheiro público, sacrificando a economia, Bolsonaro vai na contramão de tudo isso, e continua minimizando o efeito letal da pandemia, a qual prefere chamar de “gripezinha”.
Irresponsável? Insano? Despreparado? Incapaz? Mentalmente perturbado? Narcisista? Obcecado por seu próprio governo? Desequilibrado? Genocida? Ou um gênio messiânico incompreendido por todos os cientistas e principais autoridades e lideranças do mundo, invencível diante de uma gripezinha que dizima populações menos ele e seus seguidores?
Você decide.