Estamos perdidos. E daí?

“E daí? Lamento, mas não posso fazer nada. Sou Messias, mas não faço milagre”. Foram essas as palavras que Sua Excelência, o chefe de Estado do Brasil, usou para responder a um jornalista que perguntou sobre o número de 5 mil mortes por Covid-19 no país, alcançado na terça-feira, e que já colocou o Brasil à frente da China em óbitos por conta da nova pandemia. Se essa frase indicasse apenas e tão somente um grau de insensibilidade por parte do chefe do Poder Executivo, já seria um caso a ser aprofundado – afinal, espera-se do Presidente da República o mínimo de empatia e compaixão pelos seus concidadãos. Mas, como já é sabido há muitos anos – apesar da cegueira de uma parcela decrescente, mas ainda considerável da população – aquele que hoje comanda os destinos do Brasil é mais do que insensível. É insano.
Quem governa deve lembrar que se colocou à disposição da população. Ninguém inscreve seu nome para ser submetido ao voto popular sob tortura ou contra a própria vontade. Quem governa deve arcar com os ônus do contexto no qual se dá o mandato. Quem governa precisa ter a consciência de que exerce o seu serviço para toda a população, e não apenas para quem apoiou seu nome no processo eleitoral. E a frase que abre essas linhas revela que o nosso presidente, deliberadamente, ignora essas premissas.
Explico.
Ao dizer que não pode fazer nada, o mandatário nacional parece desdenhar do ofício. Dá a impressão de que está lá porque alguém o empurrou para dentro do Palácio do Planalto contrariando o seu desejo. Ao afirmar que não faz milagre, o Presidente joga para escanteio qualquer possibilidade de crítica técnica sobre o seu governo, sobre o seu próprio comportamento e sobre a velocidade e a eficácia das políticas públicas que deveriam ser implementadas diante da crise. É óbvio que ninguém gostaria de viver essa calamidade sem precedentes que temos diante dos nossos olhos. Mas é papel de quem está no governo lidar com as crises, manejar recursos e talentos para lidar com elas, unir esforços para minorar os danos. A postura que nosso Presidente escolheu adotar desde o princípio dessa pandemia revela o oposto. Afinal, a primeira onda da “gripezinha” que já matou mais de 5 mil pessoas só não fez mais vítimas porque os governadores estaduais deram prova de mais maturidade e mais sabedoria, segurando as rédeas da população e adotando as táticas de isolamento social.

O ocupante da cadeira presidencial não para de nos surpreender. Quando pensamos que a cota de barbaridades no seu discurso chegou ao limite, surge um novo atentado verbal. Enquanto isso, o Brasil afunda: a política de saúde já saturada em muitas cidades, a economia sem rumo, o governo tardando a ajudar pessoas e empresas a manterem o sustento, o ministro da Educação criando crises diplomáticas com os chineses, presidentes das Casas Legislativas relutando em cortar verbas de benefícios para ajudar na crise, e, a cereja do bolo, a revelação do jogo de interesses escusos que culminaram com a demissão do ex-ministro da Justiça.
Estamos perdidos. E daí?

Jornalista e estudante de teologia pelo Centro Universitário Claretiano