Entubado mesmo está o elogio sincero

Notícia ruim na telinha, dose diária: pode tomar que é seguro! Dia após dia, o pânico vai ficando crônico e molda a realidade.  Realidade escanteiada desde o início nos coletivos aglomerados, com seus anônimos úteis onboard, solenemente ignorados pela hipocrisia do bem. Nesses tempos de pandemia e de pandemônio, estamos visivelmente fragilizados, inseguros e sem perspectiva.

Somado a isso, uma cepa brasileira que segue imune como o vírus: a cultura de não elogiar, não reconhecer, não engajar e não dar valor àquilo que vem do próximo. Uma marca de nosso povo com raízes no colonialismo, sempre com a dura mensagem, falada ou velada, de que o pobre deve permanecer pobre. A eternização de que “o de cima sobe e o de baixo desce” (Chico Science).

O tão falado “complexo de vira lata” do brasileiro, este que só valoriza o que vem de fora e despreza aquilo que vem de dentro, tem grande relação com o ato de não elogiar e não reconhecer o valor do próximo. Pesquisas científicas apontam uma interação desta cepa com outras comorbidades, como a inveja, a baixa autoestima, o medo e a coragem. Uma pandemia social que urge ser contida.

Ilustrando essa cepa vergonhosa, inevitável é lembrar de nosso Ministro do Supremo Tribunal Federal, Luis Roberto Barroso, que se referiu a outro Ministro daquela Corte, Joaquim Barbosa, o primeiro Ministro negro do STF, expoente brasileiro de origem pobre e dono de um currículo invejável, como “um negro de primeira linha”. Meu Deus, não há vacina que imunize contra essa vergonha.

Certa vez, o imunizado Silvio Santos disse: “me faz lembrar a piada do homem que morava numa vila de casas, que era engenheiro eletrônico, falava inglês, era arquiteto, falava francês, falava alemão, era músico e tocava instrumento. Ninguém conhecia ele. 'Conhece o músico?' 'não', 'conhece o que fala inglês?' 'não', 'conhece o engenheiro?' 'não'. 'Conhece o careca?' 'aaaa o careca, ah sim, o careca é da casa 23...', quer dizer, o 'careca' todo mundo conhece! E as outras qualidades do careca ninguém sabe quem é.”

Positivamente, a rede profissional LinkedIn faz do reconhecimento uma ferramenta adicional de networking. Nos Estados Unidos, é cultura enraizada de que valorizar o sucesso do próximo conta milhas e reduz significativamente a carga viral. Aqui, meu vizinho compra uma Land Rover e fico uma semana de quarentena, pensando na sky window e nos bancos caramelo.

Definitivamente, networking e engajamento não são gripezinhas. E o elogio sincero é um ato de direcionar positivamente as ações do outro. Representa uma mensagem valiosa do ponto de vista de quem recebe porque revela atenção, cuidado e interesse. Todos, sem exceção, do faxineiro ao CEO, temos algo de bom na vida e que merece ser exaltado para que seja aperfeiçoado.

Então transmita na sua telinha doses diárias de elogios sinceros. Não há vírus cultural que resista a um tratamento precoce desses. Imunize o próximo com a vacina da empatia e vença o orgulho, a arrogância e a glória. Até atingir a imunidade de rebanho. Xô, pandemia!