Entretenham-me!

Caro leitor, cara leitora, em um mundo que cada vez exerce uma pressão maior sobre nós, sobre nossas vidas, sobre nossas cabeças, o grito de socorro que parecemos entoar, às vezes inconscientemente, sem saber, é “entretenham-me”. Essa parece ser a vontade, ou melhor, a válvula de escape de muitas pessoas hoje em dia.
Gritamos: não me deixem só. Muitos amigos tenho que me entretêm. Todos estão bem, eu sei, eu vejo as fotos, eu vejo tudo, eu não me desligo. Tudo, tudo posso, nas mensagens que me fortalecem. E elas também me entretêm. Apesar de que quase nunca me lembro muito bem o seu teor e conteúdo. Conteúdo? Tirem-me do ostracismo, quero ser entretido, preciso de humor.
Precisamos encontrar graça em tudo, até mesmo naquilo que graça não tem. Rimos das coisas mais banais, mais preconceituosas, e nem nos damos conta. Mas tudo isso pela necessidade de rirmos, mesmo que seja uma risada apenas muscular, um riso por si só.
Entretemo-nos com jogo limpo, com jogo sujo, com todas as fofocas, com todos os tipos de calúnia e difamação. Aqui, acolá, além de lá! Com filmes, com jogos, para não lembrar a noite que tivemos de insônia e solidão; com alegrias, risos, aparências; com aquilo que não podemos comprar e com aquilo que podemos ter.
Nada há que eu possa fazer, a não ser que eu não faça nada e me entretenham. Façam-me rir, arranquem-me um riso, um sorriso: é isso o que muitas pessoas desejam. Nem que seja por um pequeno instante. Nem que seja para nada.
Entretenham-me, para que eu não fique doente. Ou fique menos doente.
Entretenham-me. Com ciência, consciência, sem ciência.
Poderíamos nos entreter com Shakespeare, com fábulas, mas preferimos com Hollywood. Com Guilherme Arantes, mas preferimos os “piores dos anos”.
Poderíamos, pois, nos conter, mas parece que nada há que possamos fazer, a não ser continuar dessa forma, sem desafiar nenhum limite e sem nada somar, contribuir.