Eles e a lua

Cara leitora, caro leitor, em “comemoração” aos 50 anos da “ida do homem à lua”, escrevo esse texto.
“Um pequeno passo para o homem, mas um grande passo para a humanidade!”. Foi essa frase que o astronauta Neil Armstrong pronunciou enquanto descia a escada para colocar pela primeira vez os pés de um humano na lua.
Eles foram à lua. Eles foram à lua há cinquenta anos. Sim eles foram. Coloco na terceira pessoa do plural porque não fomos incluídos naquela viagem. Não foi a humanidade inteira que foi, afinal, qual bandeira foi lá fincada? A bandeira da Terra? Uma bandeira que representasse todos nós? Certamente não. Nós não tínhamos resolvido nossos problemas; nós éramos famintos, pobres, desiguais. Mas eles foram à lua. E eles não nos deram nada. Eles não construíram escolas, cisternas, hospitais, nada. Eles foram à lua. Eles mostraram a superioridade do grande país contra o “outro mundo” obscuro. E nós não recebemos nada. Mas os astronautas foram parabenizados pelo mundo inteiro!
Que eles vão à lua, à Marte, ao espaço! Que os mais ricos habitem em Elysium – como no filme – e que deixem a Terra cada vez pior. Ah, não! Venham ver a pobreza na África, venham ver as grandes favelas do mundo, as periferias inabitáveis. Nós ainda não resolvemos nossos problemas. Somos pobres, famintos, cada vez mais desiguais, racistas, xenófobos, machistas, doentes. Nós construímos grandes templos ao invés de casas; bombas ao invés de escolas; mentiras no lugar da realidade; promessas vazias jogadas ao vento.
Já se planeja uma vida fora da Terra. Talvez por saber da escassez de seus recursos diante da velocidade com que nos dispomos deles. Talvez por saber que somente uma classe privilegiada poderia atingir esse objetivo. Talvez por saber que uma bomba atômica pode por fim a tudo aqui. Talvez, “talvezes”.
Quero viver na Terra, bebendo dessa boa água, vendo os pássaros voarem, os humanos se amarem. Não preciso ir à lua, às vezes é só dobrar a esquina.

Gustavo Gumiero
gustavogumiero.com.br
@gustavogumiero